Sergio Diniz: ‘As desventuras revisionais do Senhor Errata’

04/03/2021 19:27

Sergio Diniz

“O Senhor Errata parecia um Etna, cuspindo lava para todo lado:…”

Mentalmente, e de olhos fechados, ele repetia, repetia, repetia…:

— Estou zen! Estou zen! Estou zen…” — e respirava profundamente, prendendo e soltando o ar lentamente, lentamente, lentamente…

A técnica oriental de relaxamento, contudo, não adiantou e ele, abrindo os olhos estanhadamente, soltou um sonoro e bem colocado:

— Estou zen o caralho! Estou é puto da vida! Putérrimo! E dividindo as sílabas, vociferou: — Pu ta que o Pa riiiiiuuuu!”

O Senhor Errata estava ‘naqueles dias’ e continuou sua imprecação:

— Que meeeerda! Gente analfabeta que se mete a escritor, mas fugiu das aulas de Português!

Andando pra lá e pra cá frente ao espelho, e falando com sua imagem refletida, continuou o desabafo:

— Crase? Os filhos da puta não colocam o acento em nenhum ‘a’ que é pra pôr, e quando põe num ‘a’ que não é pra pôr, os caiporas, em vez de colocarem o acento grave (próprio da crase) colocam o acento agudo! Aonde que esses putos aprenderam essa regra?

O Senhor Errata parecia um Etna, cuspindo lava para todo lado:

— Agora, o que você me diz desses energúmenos que inventaram de colocar os sinais de pontuação afastados das vogais que os antecedem? É de foder! E o pior é que, segurando a muito custo a minha vontade de mandar um deles tomar no cu, perguntei por qual motivo ele fazia uma atrocidade dessa. E olha só o que o lazarento me respondeu:

— Estou seguindo a orientação de afastamento, por causa do Covid!

— O filho da puta, cínico, até pra se desculpar erra pra falar da atual pandemia! Não é o Covid, mas sim a Covid, sua besta! Covid é uma sigla em Inglês e significa “COrona VIrus Disease”, ou seja, Doença do Coronavírus! Covid é uma doença, seu destrambelhado! E doença é uma palavra feminina, é uma menina, e não menino! Caralho!

O tempo foi passando, porém, o Senhor Errata continuava sua ‘erupção’ verbal:

— E a bendita vírgula, então? É de cagar! Parece que o estafermo encomendou um lote de vírgulas da China, e aí, na hora de escrever, fecha os olhos e joga umas pra cá, outras pra lá, caiam onde caírem. E pra azarar a minha vida, elas caem onde não devem cair. E onde têm que cair, fica o texto assim, seco, feito pau que sobrou de incêndio!

— Todavia, como não há uma situação ruim que não foda a gente ainda mais, e aqueles abestalhados que querem escrever um livro épico e enchem a história de palavras que acham ‘pomposas’, mas as escrevem errado? Esses, dá vontade de empalar, até a estaca sair pela boca!

O Senhor Errata estava tão furioso que até a sua imagem do espalho resolveu se sentar para continuar a escutar o desabafo.

— Olha só estas ‘pérolas’ que um boçal escreveu:

‘Flanco atirador’, em vez de ‘franco atirador’.

— Ao me deparar com esta refulgente pérola, fiquei imaginando o ‘profissional do tiro’ procurando uma posição melhor para atirar; ora no flanco esquerdo, ora no direito, talvez por causa de alguma bursite nos ombros. O problema era ver se a vítima do tiro teria paciência de ficar no mesmo lugar para esperar o tal tiro! Flancamente, seu escritor de merda!

— Num dado momento, na iminência de uma cruenta batalha, foi necessário se ouvir o TOQUE das cornetas. Entretanto, o ‘Prêmio Nobel de Literatura’, a essa altura com certa falta de ar e provavelmente por ser portador de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), lascou esta: “… ouviu-se o RUFLAR das cornetas”.

— E, mais uma vez, tendo que ler uma coisa dessas, me perdi na revisão divagando, imaginado um monte de cornetas ruflando, ou seja, movendo-se e produzindo rumor semelhante ao da ave que esvoaça. Resumindo, voando! Um monte de cornetas sensíveis a imagens sanguinolentas voando para vem longe dali. E do livro, também!

— O ‘querido’ escritor, ao que tudo indica, usou ‘ruflar’ no lugar de ‘rufar’. Rufar é soar ou tocar tambores. O que pode ter acontecido na hora da batalha foi o desentendimento entre os soldados responsáveis pelos tambores e pelas cornetas. Deveriam ter feito um simulado antes!

— E a merdalhada não parou por aí! A minha tortura tinha que ser mais longa e dolorosa. Depois da carnificina promovida pela batalha (que, ao que tudo indica, deve ter começado sem o anúncio das cornetas que, àquela altura, já deveriam estar bem longe do local), deu-se o momento em que os vivos iriam ‘PRATEAR’ pelos mortos! Em livros épicos os vivos, em vez de ‘PRANTEAR’, isto é, chorar pelos mortos, preferem pratear. E lá fiquei eu, mais uma vez, horas a fio imaginando os soldados todos prateados, recobertos de prata, brilhando ao sol, numa linda visão surrealista!  Sei não, mas antes de começar essa batalha os soldados devem ter cheirado alguma coisa estranha. E foi o porra do autor que forneceu!

— E não bastasse esse carma do caralho — continuou o atormentado revisor de livros — ainda tem uns filhos da puta que me dizem:

“— Você deveria dar graças a Deus por ter revisões pra fazer. É pra isso que servem os revisores!”

O Senhor Errata respirou profundamente, parecendo que estava contando de 1 a 100 para se acalmar, contudo, no 5, não aguentou e soltou o verbo:

— Não é de foder ouvir uma merda dessa? Para esses jericos que me dizem isso eu olho bem no fundo dos olhos deles, com uma vontade louca de arrancá-los das órbitas, mas, com toda a calma do mundo, pergunto se, quando eles fazem seguro de veículos, rezam todo dia para que aconteça um acidente, somente para acionar o seguro. — E arrematou: — Revisão é mais uma garantia de que o livro não será publicado com erros, ou com um mínimo possível.

— Quer saber de uma coisa? Desiiiiiiisto! Vocês venceram, cambada de filhos da puta! Não faço mais nenhuma revisão na minha vida! Quero que todos vocês vão tomar bem no meio do cu!

Dito isso, o Senhor Errata resolver se sentar e ligar o notebook. Depois de um tempo que pareceu demorar uma eternidade para o Word entrar, viu o último texto que havia deixado quando desligou.

Era uma revisão. E ‘daquelas’!

Sergio Diniz

jornalculturalrol2@gmail.com

N.A. ‘Senhor Errata’ é um apelido carinhoso que recebi da poetisa Alcina Maria Silva Azevedo, de 81 anos, a ‘Vó’ Alcina, como ela mesmo se autodenominou e é tratada carinhosamente por todos os colunistas do Jornal ROL.

Alcina, cronologicamente, tem 81 anos, mas seu espírito é de uma adolescente que ama a vida.

Eu dei a ela dois apelidos: ‘Poetisa do Amor’, uma vez que seus poemas expressam uma paixão própria de quem vive a vida com todas as forças de seu coração; e ‘Vó Virgulina’, pois, como ela mesmo reconhece, tem alguma dificuldade de colocar as vírgulas em seus devidos lugares. E, de uns tempos para cá, aderiu à ‘moda’ de afastar os sinais de pontuação das vogais que os antecedem.

No conto, a resposta sobre esse ponto foi-me dado por ela. Contudo, ao contrário do que consta no texto acima, me diverti muito com o gracejo, de um notável senso de humor e inteligência.

E foi ela quem me inspirou a escrever este conto.

Gratíssimo, ‘Vó’ Alcina!

Você é um Patrimônio Espiritual do Jornal ROL!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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