Rafael Mendes: ‘Era da invisibilidade’

11/05/2022 18:06

Rafael Mendes

Era da invisibilidade

Um número cada vez maior de indivíduos urbanos sofre, atualmente, de um tipo de cegueira seletiva, que o impede de olhar, por exemplo, para as pessoas em situação de rua. Ao passar diariamente por elas, não lhes retém a fisionomia. Por quê? Acaso essa gente é invisível?

Confesso que também padeço desse mal. Contudo, havia alguns dias da semana em que essa enfermidade parecia me deixar. Na hora do jantar, quando chegava à varanda do apartamento em que moro, nos dias em que passava o caminhão do lixo, avistava sempre uma senhora que certamente tinha mais de setenta anos, cujo semblante sofrido e cuja face sulcada pelo tempo demonstravam que a vida não lhe fora suave. Vestia-se como uma pessoa de sua idade, não andava maltrapilha e tampouco suja.

Nunca sem sacolas, essa senhora, com seu parceiro de quatro patas, que permanecia deitado abanando o rabo enquanto ela revirava os sacos pretos ao pé do poste, chamou minha atenção e suscitou em mim uma gama de sentimentos variados.

Ficava comigo a pensar como uma pessoa naquela idade tinha coragem de vasculhar nos restos de comida deixados nos sacos o pão estragado, as frutas apodrecidas, as mercadorias que esquecemos de consumir a tempo e os restos de tudo o que desperdiçamos. Como é que alguém, sem levar em consideração as regras básicas de higiene, se dispõe a escolher o que descartamos porque o julgamos imprestável, expondo-se a toda sorte de contaminações? Como? Por necessidade. Por fome.

Até quando um país que tem uma superprodução de alimentos, que é um dos maiores exportadores de comida a nível mundial, que apresenta tamanha biodiversidade, pode manter tantas pessoas em situação de insegurança alimentar? Como podemos aceitar passivamente o retorno ao Mapa da Fome depois de tanto progresso no enfrentamento da miséria e da pobreza? A verdade é que não apenas nossos governantes, mas também parte do povo, sobretudo a dos representantes das elites e da classe média, nunca foram tão egoístas. É como dizia Tolstói: “Há quem passe por um bosque e só veja lenha para a fogueira”. Nascidos em um sistema social que nos educa para o individualismo e para a competição, temos nos tornado cada vez mais parecidos com o andarilho a que o pensador russo se refere em um de seus romances.

Esforçando-me para lutar contra esse individualismo, resolvi um dia dirigir-me à entrada do edifício e oferecer à moradora de rua algo para lanchar. De tão habituados com a permanência dela ali na calçada, a todos os vizinhos a presença de Madalena – sim, ela tinha nome! – se tornara invisível. Só eu, depois de muito tempo, a notei. Após lhe perguntar a graça, quis saber mais sobre sua história de vida. Mastigando com prazer o suculento sanduíche que lhe entregara, ela me expôs parte de seu passado. Disse que a mãe falecera quando ela era ainda criança e que, a fim de aliviar o sofrimento que sentia, cedera ao álcool e também a substâncias ilícitas. Não demorou muito a se meter em confusões, de modo que o pai logo a internou no reformatório.

Sentindo-se oprimida naquele ambiente tão cruel e hostil, fugiu para as ruas e, durante toda a vida, a única realidade que testemunhou foi a da miséria, a da violência e a do abandono. Nunca mais soube do pai. Ao menos passou, nos últimos cinco anos, a ter a companhia de Neves, que tinha esse nome pelas inúmeras manchas brancas e cinzas espalhadas por seu pelo negro. Franzi a testa quando Madalena me disse que sua relação com ele se tornara um pouco complicada.

— Por que complicada? — perguntei, sem conseguir disfarçar a curiosidade.

— Por causa da inveja.

— Um cachorro sentir inveja? Como isso é possível?

— Não, meu filho, eu é que sinto inveja dele. Quando eu era criança e morava na rua, ninguém nunca quis me adotar. Mas o Sr. Neves, acabei perdendo a conta de quantos já o quiseram levar para casa! Pode isso? A vida do cão ser mais fácil que a minha? Não são poucas as ocasiões em que chego a pensar que o pedaço de pão não é para mim. Será que sou eu que divido com ele o que me dão, ou o contrário?

Comovido com a resposta de Madalena, decidi prestar-lhe um auxílio a longo prazo. Nos dias em que o caminhão de lixo passava, eu já ficava atento à calçada e, assim que identificava o vulto da senhora, descia para lhe entregar uma refeição. Compreendendo minha disposição em tirá-la daquele estado de fome crônica, ela passou a frequentar os arredores do prédio todos os dias. Houve um limite, no entanto, de até que ponto eu pude ajudá-la.

Em meados de junho, à chegada do inverno, em uma noite de frio extremo, ofereci abrigo para ela em meu apartamento. O porteiro, contudo, se opôs a minha atitude e ordenou que Madalena fosse buscar ajuda na prefeitura. Não fazia por mal, explicou; apenas temia o que o seu Mauro, dono do prédio, diria se soubesse que ele permitiu a entrada de um mendigo em seu precioso edifício. Argumentei que eu era amigo da senhora, mas o porteiro, obstinado, foi inflexível.

Com lágrimas nos olhos, Madalena seguiu sua marcha pela rua, tão magoada que nem se lembrou de se despedir de mim. No dia seguinte, a caminho do trabalho, atraído por uma multidão de curiosos, achei-a caída na calçada. Os transeuntes, perplexos, paravam para fitar-lhe o corpo, que, já sem vida, finalmente deixara seu estado de invisibilidade. Procurei por algum sinal do Sr. Neves, mas não o encontrei.

— O Manchado, Sr. Artur? Dei-lhe um banho e o levei para casa. Minha menina, tadinha, estava doente por um cachorrinho — disse o porteiro.

E até hoje a resposta de Madalena ecoa em minha mente e em meu coração.

Rafael Mendes

 

 

 

 

 

 

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