Marcus Hemerly: ’50 anos de um clássico absoluto’

21/03/2022 20:43

Marcus Hemerly

“Não é pessoal, apenas negócios”

O Poderoso Chefão, 1972

O tempo transforma os filmes e a maneira como os vemos. Sabe-se, por exemplo, que à época de seu lançamento, “Vertigo – Um Corpo Que Cai”, de Alfred Hitchcock, não foi um de seus maiores sucessos, até mesmo fragilizando a relação entre o diretor e o Astro James Stewart. No entanto, atualmente Vertigo é considerado sua obra-prima, ao lado de Psicose. Tem-se observado no curso da história cinematográfica que algumas películas, a despeito de sua desastrosa bilheteria Inicial, tornaram-se clássicos absolutos; outros, ainda rentáveis num primeiro momento, foram facilmente relegados ao esquecimento nas décadas vindouras.

De outro giro, alguns títulos conseguiram a façanha de cotejar qualidade artística e sucesso comercial. Dentre eles, “O Poderoso Chefão”, baseado no bestseller de Mario Puzo, que assinou o roteiro ao lado do diretor, Francis Ford Copolla.  Outra peculiaridade é digna de nota, pois depreende-se um fator não detectável amiúde, pois a adaptação do roteiro supera até mesmo o romance original. Tal particularidade é igualmente percebida no blockbuster “Tubarão”, de 1995, baseado na obra de Peter Benchley. Assim como o romance de Puzo, ambos os livros possuem falhas, seja na ausência de personagens empáticos ou concentração de subtramas desnecessárias. Contudo, as mãos de habilidosos roteiristas desenharam uma nova roupagem e dinamismo que refletiu no sucesso das bilheterias e opinião da imprensa especializada.

Produção marcada por tensões, como ameaças constantes de demissão do diretor, substituição de elenco e pressão do estúdio sobre o prazo de filmagens, que não foram suficientes, todavia, a ilidir o potencial criativo da equipe. Inclusive, constou-se de cláusula contratual, o depósito de caução por Marlon Brando, como garantia, eis que o ator era conhecido por abandonar sets de filmagens bem como por seu temperamento difícil. No entanto, curiosamente, Brando foi uns fatores responsáveis pela manutenção de Francis Ford Copolla no projeto, ameaçando, ele próprio, deixar o filme em caso de substituição da regência.

As curiosidades não cessam por aí, assim como não limitam-se a questões logístico produtivas. Além dos familiares de Copolla, conhecidamente nepotista em seus filmes (atuam sua irmã, pai, filha, entre outros, em papéis chave ou figuração), o elenco de apoio contou com ex-lutadores, como Lenny Montana famoso por interpretar o matador Luca Brasi na trama, a cantora Morgana King, (Mama Corleone), e membros reais do crime organizado. Aliás, é possível notar que em nenhum momento as palavras “Máfia” ou “Cosa Nostra” são ditas ou aludidas da maneira direta, inclusive, por pressão do submundo, que à época “supervisiona” informalmente as gravações. Gianni Russo, intérprete do personagem Carlo Rizzi, que nunca havia trabalhado como ator, era integrante de uma das cinco famílias mafiosas de Nova York. Posteriormente, ele escreveria o Iivro “My Life in the Movies and the Mob” (Minha Vida nos Filmes e na Máfia).

Os cinéfilos e interessados pela sétima arte podem conferir inúmeras informações extras e cenas deletadas por meio do disco de apresentações especiais que acompanha o Box da trilogia, bem como uma featurette que equivale a seis meses do curso de cinema, na qual Copolla disseca a composição do roteiro a partir do romance original e o processo de transmutação a uma linguagem mais cinematográfica. Não apenas o original de 1972, que acompanha a família Corleone e sua edificação no panorama da máfia em terras americanas, se destaca na trilogia. O segundo filme, de 1974, O Poderoso Chefão, Parte II, foi a única sequência a receber a premiação de melhor filme, categoria na qual foi comtemplado o primeiro capítulo, além do Oscar de melhor
ator para Brando, dentre sete indicações.

A terceira e menos festejada parte do épico do diretor ítalo-americano, responsável pelo primeiro grande sucesso do então pouco conhecido Al Pacino, chegaria às salas de distribuição em 1990. Relançada em dezembro de 2020 em um circuito reduzido de cinemas e nos serviços de streaming, o público foi presenteado com uma pertinente releitura confeccionada pelo diretor. Pela alteração na sequência de algumas cenas fundamentais, bem como o decote de passagens e planos inócuos, montou-se um filme mais curto e objetivo, imprimindo significativas mudanças no início e final da trama. O que se alcança, na verdade, é a justiça que o filme merecia, tendo em vista que mesmo se tratando da menos impressionante das três partes, ainda se mostra como uma ótima película, especialmente se analisada de forma autônoma aos demais.

Transcorridas cinco décadas desde sua première no Loew´s State Theatre, O Poderoso Chefão permanece vivo na mística do cinema como um dos títulos mais citados na cultura pop, inspirando derivações em inúmeras vertentes artísticas, renovando-se a cada visitação. O filme ainda encontra-se em cartaz em salas selecionadas pelo Brasil, oportunizando às novas gerações o privilégio de assistir à essa pérola na tela do cinema. Novamente, repise-se, entregar um paralelo entre sucesso comercial, crítica, e inspiração artística em coro de vozes, apesar de não inaudito, é algo a ser duplamente rememorado e comemorado. Afinal, o que é bom não é apenas atemporal, mas inesquecível.

 

 

 

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