Fábio de Brito Ávila: ‘200 anos de Imigração suíça para o Brasil’ – Parte 7

22/03/2021 08:48

Fábio Ávila

IMIGRAÇÃO SUIÇA OFICIAL NO RIO DE JANEIRO

SUBINDO A SERRA DO MAR
12 Dias Terríveis
A Fazenda do Morro Queimado que dom João VI havia adquirido tinha uma capela, algumas casas e plantações, e lá foram erguidas as novas casas para abrigar os colonos. O trajeto de 136 km até lá era feito pela floresta fechada da Serra do Mar, portanto extremamente penoso de ser percorrido. A cavalo ou em lombo de burros, em carroças ou a pé, se levava 12 dias em média, com direito a subir o rio de Macacu até a vila de mesmo nome. Apenas nesse trajeto morreram 35 imigrantes, incluindo o vigário Jean Aeby, que de forma trágica se afogou no rio. Isso foi feito na pior época do ano, justamente em um dos meses mais chuvosos em que a floresta é quase intransponível.

A VILA DE NOVA FRIBURGO
Entre 1819 e 1820 chegavam em Nova Friburgo 261 famílias de colonos suíços, 161 a mais do que o combinado nos contratos oficiais, formando-se assim o núcleo inicial da povoação. Dos mais de dois mil colonos que partiram da Suíça, apenas 1631 chegaram à Fazenda do Morro Queimado. Na vila, de janeiro a junho de 1820, faleceram 131 pessoas.
A Vila de Macacu, seu nome oficial, foi criada oficialmente em 3 de janeiro de 1820 através do decreto de D. João VI e passou a chamar-se Vila de Nova Friburgo. Contudo, chegar não significou o fim dos problemas para os suíços, pelo contrário. Eram três quarteirões, com uma praça e um hospital, e as 100 casas com muros de pedra, janelas ainda sem vidraças e quartos pequenos que comportavam apenas quatro pessoas.

Nas casas pequenas, úmidas e frias, os imigrantes recém-chegados deviam dormir no chão. Não havia sequer camas, mantas e roupas, e a falta de água salubre também contribuía para piorar o humor dos colonos.

A inauguração oficial da vila ocorreu no dia 17 de abril de 1820, com a chegada do Inspetor de Colonização, Monsenhor Pedro Machado Miranda, desembargador do Paço e da mesa de Consciência e Ordens, chanceler-mor do Reino, encarregado pela Corte de inspecionar pessoalmente o projeto de colonização. Na festa de inauguração oficial, muita dança à moda dos cantões suíços.

Foi nomeado ainda o comissário provisório de Polícia, Charles Emmanuel Quévremont, e no dia 17 de abril suíços e portugueses passaram a dividir os cargos da primeira Câmara Municipal da Vila.

CONFLITOS, CRENÇAS E CONVERSÃO RELIGIOSA

O contrato assinado pelos dois governos estipulava que seriam enviados ao Brasil apenas católicos, mas parte dos colonos era de protestantes e isso desagradava as autoridades portuguesas locais.

Cerca de duas semanas após a inauguração da Colônia, em abril de 1820, os protestantes tiveram que abjurar sua fé em plena praça pública. Essa conversão forçada foi ordenada pelo Monsenhor Miranda, um católico fervoroso.

MONSENHOR MIRANDA
O Monsenhor Miranda, em maio de 1824, enviou a Francisco de Sales Ferreira de Souza, diretor da Colônia, uma correspondência reveladora, definindo o perfil de colonas bem educadas para servir a corte portuguesa como ama no Rio de Janeiro: “entre as Suissas d’essa Colônia, duas mulheres, casadas ou solteiras, que tenhão parido e estejão nas circunstâncias de serem amas do futuro príncipe ou Infanta que se espera; esclarecendo deverem ter essas mulheres, aquellas maneiras polidas que convêm ao exercício para a que se deseja, gozarem de boa saúde e não estarem actualmente acostumadas ao exercício da lavoura”.

“Entre todos os fatos que marcaram e distinguem o feliz Reino de Vossa Majestade, o deste dia terá lugar de destaque. Hoje foi inaugurada a Vila de Nova Friburgo e foi formado, segundo a lei, o Governo Municipal para os próximos três anos. Foi com solenidade que todos os respeitáveis atos decorreram. Como testemunhas ou autores desses acontecimentos, os antigos e os nossos vassalos de Vossa Majestade não cessaram de manifestar veneração e reconhecimento ao melhor de todos os soberanos”.

Instalados os suíços, logo trocavam com os brasileiros informações sobre a agricultura que ali se praticava: tipos de solos, culturas, cereais, árvores frutíferas e o correto manejo da terra num país tropical. Não era viável o plantio de uvas, pelas condições climáticas impróprias da região serrana.

Os colonos tiveram dificuldades para lidar com os terrenos cobertos de floresta e mata espessa, totalmente diferentes da flora suíça, o que dificultava a obtenção de boas colheitas. Com a chegada da estação das chuvas, a situação ficava ainda mais problemática. Alguns colonos passaram a embriagar-se e um certo descontentamento surgiu espontaneamente neste período.

 

Fábio de Brito Ávila

Dom João VI e Carlota Joaquina em pintura oficial – Wikimedia Commons

Nova Friburgo, Fazenda do Morro Queimado.

Mata Fechada, Rio de Janeiro

Câmara Municipal de Nova Friburgo

 

 

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