Fábio de Brito Ávila: ‘200 anos de Imigração suíça para o Brasil’ – Parte 6

06/03/2021 00:19

Fábio Ávila

IMIGRAÇÃO SUÍÇA OFICIAL NO RIO DE JANEIRO

DO CANTÃO DE FRIBURGO PARA NOVA FRIBURGO

Os sócios Gachet e Bremond trataram de recrutar 119 famílias (830 pessoas) do Cantão de Friburgo mas, de olho no alto lucro da empreitada, convenceram também suíços dos cantões de Berna, Valais, Lucerna, Argóvia, Soleure, Schwyz Cantão de Grisons e Vaud a emigrarem, totalizando 2.013 pessoas. Nesse grupo haviam inclusive protestantes calvinistas, em desacordo com o contrato inicial que estipulava apenas colonos católicos.

Estas pessoas saíram de suas vilas na Suíça e seguiram para Amsterdã, onde deveriam embarcar. Isso não ocorreu no tempo esperado e previsto. Os emigrantes suíços esperaram cerca de dois meses na Holanda e foram deixados à própria sorte; não puderam sequer contar com o apoio logístico que havia sido prometido por Bremond e Gachet. 

A espera ocorreu em condições insalubres, em região pantanosa; com doenças ameaçando a integridade física dos mais vulneráveis, ocorrendo inclusive mortes. Com isso, a irritação cresceu entre os colonos e o fato chegou até as autoridades do Cantão de Friburgo, que retiram as credenciais dos dois sócios, cassando as duas representações consulares junto à Coroa Portuguesa. A intermediação de Gachet e de Bremond na imigração para o Brasil estava encerrada mas as consequências dos seus atos perduram por mais tempo.

A TRAVESSIA DO OCEANO ATLÂNTICO E O PERFIL DOS PRIMEIROS IMIGRANTES

Finalmente, entre o fim de 1818 e o início de 1819, oito embarcações lotadas partiram da Europa levando famílias que se aventuraram bravamente na travessia do Atlântico.

Devido à saúde precária e às condições a bordo dos navios Daphné, Urânia, Deux Catherine, Debby-Elisa, Heureux Voyage, Elisabeth Marie e Camillus, 311 pessoas morreram na viagem. Uma oitava nau, a Trajan, levou apenas as bagagens e alguns poucos colonos retardatários.   

No dia 4 de novembro de 1819 chegaram ao Rio de Janeiro os primeiros imigrantes suíços no navio La Daphnée, que deixou a cidade de St. Gravendeel, na Holanda, com 197 colonos. Mais 6 embarcações trouxeram ao Brasil 1.916 pessoas, totalizando cerca de 2 mil suíços provindos de Friburgo e dos outros cantões.

A primeira leva de imigrantes era composta em sua maioria por homens. Seguiram para o Brasil 1.102 homens e 897 mulheres, entre as 1999 pessoas recenseadas oficialmente. A maior parte era de jovens, sendo que 1.140 colonos possuíam menos de 19 anos e apenas outros 22 tinham mais de 60 anos. O censo revelou 180 agricultores, além de pedreiros, açougueiros, tecelões, alfaiates, ferreiros, marceneiros, carpinteiros, pedreiros, professores, três médicos, dois agrônomos, um tabelião, um escritor e dois padres, Jacques Joye e Jean Aeby, já nomeados cura e vigário da nova colônia em terras brasileiras.

Dos sete navios que transportaram os colonos, destacava-se o Urânia, nome dado em homenagem à musa da astronomia e da geometria na mitologia grega. Tratava-se de um veleiro construído em 1785, de 600 toneladas, para o transporte de mercadorias e, provavelmente, um dos maiores entre todos os que vieram ao Brasil. Em 12 de setembro de 1819 esse navio mercante partiu da Holanda e navegou por 80 dias até chegar ao porto do Rio de Janeiro. O comandante era o experiente Capitão Frédéric Bock que conduzia 437 suíços, todos eles originários do Cantão de Friburgo, mas registrou uma macabra e triste estatística: 107 mortes, um número recorde entre todos os navios.

JACQUES JOYE

Um dos viajantes do Urânia era o religioso Jacques Joye, que nasceu em Villaz-Saint-Pierre, Cantão de Friburgo. Como padre ele realizou os ofícios fúnebres de 107 suíços, entre adultos e crianças, que morreram durante a viagem e posteriormente, em Nova Friburgo, foi o primeiro pároco da vila.

Jacques Joye escreveu um diário de bordo onde também narrou em detalhes a travessia da Holanda para o Brasil, de 12 de agosto a 30 de novembro de 1819, a bordo do Urânia.

Ao desembarcar no Rio de Janeiro, o padre Jacques Joye imediatamente ficou chocado com o tratamento desumano que os escravos recebiam e registrou isso em seu diário: Durante o dia não vimos senão negros, eles fazem todo o trabalho. A maneira como são tratados me causou uma impressão extremamente sensível, tanto que não podia esperar o momento de voltar a bordo”.

Denunciou também a forma como eram tratados os escravos nas fazendas próximas da colônia. Muito atuante na vila, foi responsável pela primeira loja maçônica de Nova Friburgo. Mudou-se para sua fazenda em São José do Ribeirão e os seus restos mortais hoje estão sepultados na igreja local.

Lançamento de falecido ao mar.

Rio de Janeiro: entrada da baía. Pão de Açúcar e Fortaleza de Santa Cruz.

Padre Jacob Joye Acervo da Paróquia de São José do Ribeirão – Bom Jardim – RJ

Interior do Navio Daphné

Cantão de Friburgo, 1835 – John Ruskin

Preta Quitandeira por Antônio Ferrigno (1900)

Negra por Almeida Júnior, 1891

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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