Concurso Almanaque FEBACLA 2021 – Saberes e Falares Regionais da Língua Portuguesa divulga resultados

18/06/2021 13:46

Atingindo plenamente seu objetivo, o concurso apresentou textos criativos, expressando a riqueza dos saberes e falares regionais!

O ‘Almanaque’

Um país que apresenta uma diversidade imensa de regionalismos que contribuem para a compreensão das influências históricas e variações linguísticas regionais sobre os falares e suas nuances no processo de aquisição do conhecimento, merecia uma reunião de textos expressando essa riqueza nacional.

Pensando desta forma, o acadêmico Alexandre Magno idealizou e organizou a compilação, à qual denominou de ‘Almanaque‘, uma vez que, além dos textos, também contaria com imagens.

Segundo Alexandre, o almanaque possui uma origem remota, que antecede aos tipos móveis e metálicos de Gutenberg e foi trazido do Oriente para o Ocidente, no final da Idade Média. Como diferencial, enquanto nos jornais predominavam textos, os almanaques eram repletos de imagens.

Nesta edição, as acadêmicas Juliana Tortorelli, Karla Mattos e os acadêmicos Fabrício Santos  e André Tietzmann e  participaram com pinturas, realizadas com técnicas como acrílico, acrílico e vidro líquido sobre tela, acrílico, resina e tinta à óleo e mista, resina e colagem. O acadêmico Abelardo Nogueira, com desenhos. E o almanaque apresentou também poesias justapostas a fotos.

Além dos acadêmicos nacionais, o concurso contou com a participação de estrangeiros, de países Lusófonos – Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor, Guiné Bissau e Equatorial, Portugal), e do público em geral, de quaisquer regiões do país, maiores de 18 (dezoito) anos.

O Regulamento do concurso, entre outras diretivas, previu que os textos deveriam incluir a tradução de palavras para uma melhor compreensão dos regionalismos ou português brasileiro da língua culta (se fosse necessário).

Apoio da FEBACLA

O projeto do almanaque contou com o apoio irrestrito do presidente da FEBACLA, Dom Alexandre Rurikovich Carvalho, que sugeriu oferecer Medalhas aos três primeiros lugares, além de Certificados de classificação e participação a todos os participantes, revestindo-se o projeto, desta forma, sob a forma de concurso literário.

Corpo de jurados

O corpo de jurados foi composto pela acadêmica Verônica Moreira e pelos acadêmicos Alexandre Magno, Celso Ricardo de Almeida, Fabrício Santos e Sergio Diniz, os quais elogiaram a qualidade dos textos e, por isso, a dificuldade de se escolher os três melhores trabalhos.

Resultado

1º lugar: 

‘Nuances do nosso falar’ – Ana Maria Castelo Branco – Recife/PE

Nuances do nosso falar
A nossa fala é bonita
Uma das riquezas do nordeste
E muitas vezes, o que falamos
De Norte a Sul, de Leste a Oeste
Soa um tanto diferente
Lá pras bandas do Sudeste
Fico aqui, imaginando…
Como seria a nossa linguagem
Bem no meio do Timor Leste.
Mas, vôte! não se aperreie
Se vez ou outra não entender
Pode até nos questionar
Porque se tem coisa fazemos
É explicar, esmiuçar,
pra nenhuma dúvida restar
e você compreender
Algo que nos tira do sério
É o preconceito linguístico
Que vez ou outra ressoa
de Norte a Sul do país
mas, já vou logo dizendo
Que o bonito do Brasil
É essa diversidade…
Embora existam alguns
que defendam uma linguagem
cheia de formalidade.
Então, pra esses respondemos
Com o nosso pernambuquês
De maneira um tanto ousada:
Deixa da tua fuleiragem
Para com essa peitica
E nem nos venha com pantim
Senão tu pega o beco
E vai pra baixa da égua
Eita bixiga lixa
Eita mulesta dos cachorros
Há tantas variações linguísticas
Por isso, não fique invocado
E para não comer brocha
Dê-me um abraço acochado.

Termos regionais

acochado – apertado
fuleiragem – sem-vergonhice, desfaçatez, desaforo.
peitica – sujeito insistente, renitente
vôte! – interjeição de espanto
bixiga lixa, estar muito “arretado”
arretado – irritado, com raiva de algo ou alguém
mulesta dos cachorros – está muito irritado, muito
bravo
muganga – palhaçada
baixa da égua: local distante, geograficamente desconhecido
pega o beco – ir embora
pantim – ficar com frescura, criar caso.
não se aperreie – não fique preocupado com problemas, agoniado
tirar do sério – deixar nervoso, irritado
invocado – difere no comportamento ou está com
raiva
comer brocha – passar por apuros, por dificuldades

2º lugar

‘Recordações de um matuto amor’ – Amanda Quintão Vitor Moraes – Caratinga/MG

Que sardade daquele tempim bão de adolescente.
Que nois inventava moda por aí,
Garrado na cacunda um do ôto,
Pulano que nem cabrito, felizes que nem pinto no lixo.
A gente proseava, cantava junto, contava causos e tu era memo enrabichado por mim.
Eu era moça lora, formosa, do lado do moço moreno, bunito que só veno.
Isturdia, rachei os bico ao lembrá das trapaiada que nois fazia.
Nois era igual carne e unha,
Era cada trem de doido!
Amor sem juizo, amor matuto,
Amor vivido na roça,
Ô lasqueira! Causdiquê que o tempo passô?
Agora só lembrança sobrô,
daquele amor treteiro, manhoso.
Daquele matuto amor.

3º Lugar

‘Campos’ – Rogério Trindade – Ijuí/RS

Sopra o minuano
Na Serra gaúcha
Inverno batendo a porta
“frio de renguia cusco” 1
Campos verdes
Guri a cavalo 2
O pala dobrado 3
No dorso, o pelego 4
O uivo do vento…
Na cumeeira do galpão
Fogo de chão
Arroz de carreteiro 5
Estrada de chão batido
Chora, carro de boi…
Guri a cavalo
Nos verdes campos
Leva a comida
Na mala de garupa 6
Arroz, cebola e charque.
Água quente para cevar o mate 8,
chimarrão 7 e erva mate,
planta nativa
tostada em carijo 9
Fogo de galpão
Pinhão a ferver
Meio da tarde, frio de arrepiar
Inverno no sul.
No calor do verão
Chimarrão não sai de cena
Bebida preferida
Água quente e roda de conversa.

Termos regionais

1 – “frio de renguia cusco” (Muito frio – zero
graus)
2- Guri a cavalo (menino a cavalo)
3- O pala dobrado (Agasalho de inverno sem mangas e sem pernas, parece um cobertor com um furo
no centro para cabeça, normalmente é redondo ou
arredondado)
4- pelego (couro de ovelha com a lã tratada)
5- Arroz de carreteiro (Arroz misturado com cebola, e carne frita e depois cozida, hoje com tempero
a gosto)
6- Na mala de garupa (Pano com dois grandes bolsos)
7- chimarrão (bebida feita em um porongo e é servido com uma bomba e água a temperatura ideal
para ser ingerida)
8- Mate, sinônimo de Chimarrão
9- tostada em carijo (desidratada em fogo de chão
com uma armação feita de madeira onde em cima
coloca-se os galhos de erva mate para a desidratação)

 

 

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