Célio Pezza: ‘Comedor de pecados’

13/05/2022 08:02

Célio Pezza

Crônica # 510: Comedor de pecados

Antigamente, muitas pessoas prestes a morrer tinham o costume de fazer uma última confissão a um sacerdote e, desta forma, se ver livre dos seus pecados. Também acreditavam que, no caso de uma morte inesperada, sem que o falecido tivesse a chance de se confessar, ele teria problemas para entrar no Céu. Exatamente para solucionar esse problema, apareceu na Europa, em especial na Inglaterra, Escócia, Irlanda e  Países Baixos, durante a Idade Média, a figura do “comedor de pecados”. Este curandeiro colocava em cima do morto um pedaço de pão, fazia algumas invocações e todos os pecados do falecido se transportariam para esse pedaço de pão. Em seguida, o curandeiro comia esse pão geralmente com um copo de vinho ou cerveja, e os pecados sairiam do falecido e iriam para quem o tivesse comido. Esse serviço era feito a troco de alguns centavos e normalmente as pessoas que o executavam eram mal vistos por todos, por ser uma pessoa cheia de pecados em seu corpo. Apesar dessa discriminação, esses seres estranhos eram sempre chamados pela família do falecido, quando havia uma morte inesperada. Um detalhe interessante é que, logo após esse ritual, o comedor ia de volta para sua morada, com um membro da família do falecido, para assegurar que o curandeiro não vomitasse o pão logo em seguida, o que faria com que os pecados voltassem para seu dono original. Na África existia um ritual semelhante onde, em vez do pão, era cozido um pedaço do cadáver e consumido pela família do falecido para aliviar os seus pecados e para que sua morte fosse assimilada por todos. Esses comedores de pecados eram mal vistos pela Igreja Católica, pois essa prática era contrária aos ensinamentos da Igreja, que exigia a presença de um sacerdote reconhecido para a absolvição dos pecados. Os devoradores de pecados foram desaparecendo durante os séculos XIX e XX, e hoje não se ouve mais falar nesse ritual estranho. Uma lenda local, em Shropshire, na Inglaterra,  fala sobre o túmulo de Richard Munslow, um dos últimos comedores de pecados, que faleceu em 1906. O livro Funeral Customs (Práticas Funerais), Bertram Puckle, 1926, também fala sobre a figura do comedor de pecados e vemos um artigo sobre essa figura estranha na Encyclopaedia Britannica de 1911

Célio Pezza      celiopezza@yahoo.com.br      maio/2022

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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