Angela Fiorenzo: ‘Histórias que Ella contou – O abraço’

06/06/2021 13:40

Angela Fiorenzo

Histórias que Ella contou – O abraço

Sua vida, Ella dizia, se fosse transformada em texto, até o final da adolescência não renderia nem ao menos um gibi, quanto mais um livro!!! “Em compensação, depois disso… daria um best seller!”, era sua frase predileta para descrever o passado, com bom humor sempre.

Ri muito quando ela me contou. Não porque as lembranças fossem engraçadas, pelo contrário, mas pelo seu jeito leve de enxergar a vida, levando um sorriso contagiante no rosto, o brilho no olhar e um alto astral invejável! Eu a conhecia há tempos, e não era raro perguntarem se Ella não tinha problemas! Sim,  mas “se eu alimentar cada um deles, vai ser difícil afastá-los de mim”, brincava.

Aprendi muito com Ella em todos esses anos de convivência. Às vezes nos encontrávamos para tomar um vinho ou um café, para um almoço ou jantar. E não que precisássemos de motivo, simplesmente gostávamos de conversar.

Talvez se eu disser que quando estávamos juntas nós nos sentíamos como se estivéssemos conosco mesmas, fique mais fácil para você avaliar o grau empatia e afinidade que nos unia. Irmãs? Acredito que sim. De alma!

E foi em um desses encontros que falamos sobre o abraço. Enquanto podíamos nos abraçar à vontade, quantas vezes não deixamos passar oportunidades como essa, que agora, com o isolamento social e necessidade de mantermos a distância uns dos outros, está fazendo uma falta danada!?! Se fosse um bem que tivesse preço, seria, certamente “incomprável”, considerando o aumento abusivo dos valores cobrados pelos produtos essenciais. E o abraço, estaria entre eles!

“Aquele não foi um simples abraço”, falou, “não foi um abraço qualquer. Aquele abraço merecia um poema que se eu fosse poeta teria colocado em versos.”

Assim Ella começou a contar essa página de sua história. Falou sobre a separação, a volta para a casa de sua mãe, com os filhos, a arrumação e o jeito dado para acomodá-los da melhor maneira. “Foi um corre-corre para providenciar e arrumar o quarto improvisado, com camas e guarda-roupas emprestados. Tudo aconteceu rápido demais, sem falar da preocupação para que nos sentíssemos acolhidos com amor, em meio à turbulência que qualquer rompimento traz.”

Só a respeito disso, comentei, teríamos não sei quantas mais horas de conversa, mas pedi que continuasse!!

“A vida seguiu. Segue sempre. E a minha e a dos meus filhos também. Aos poucos, como diz o ditado, vivendo um dia de cada vez, fomos vencendo as dificuldades maiores, e em breve mudaríamos todos para um apartamento. Um apartamento, não! O apartamento dos sonhos!!

“E o abraço?”, perguntei. Esqueceu dele?

Não. Não esqueci. Foi um momento único que tenho entre as boas lembranças. Eu estava na sala e me avisaram que minha mãe estava me chamando.  Abri a porta da suíte, encontrei um quarto decorado com um lindo armário modulado, espelho, duas camas bem arrumadas com lençóis novos e edredons, e próxima à janela, minha mãe, em pé, com o olhar marejado – eram lágrimas de realização e felicidade -, um sorriso puro amor no rosto e os braços abertos para me abraçar dizendo “agora estou feliz com este quarto pra vocês!”. Aquele gesto e todo o contexto mexem comigo até hoje. Sempre gostei de abraços e de abraçar, mas a partir daquele dia, o abraço pra mim vale muito mais.

Nos abraçamos e cada vez que abraço alguém, penso na linguagem muda do abraço e ao mesmo tempo eloquente, com mensagens diferentes para os diferentes momentos. Insubstituível para expressar amor, alegria, e aquele delicioso e aconchegante “você não esta só, estou com você!”.

 

Angela Fiorenzo

amsfiorenzo@gmail.com

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