Teatro Escola Mario Persico apresenta, neste final de semana (11 e 12), as peças ‘O Beijo no Asfalto’ e ‘Vereda da Salvação’

09/05/2019 14:17

‘O Beijo no Asfalto’ (11/05 – 20h); ‘Vereda da Salvação (12/05 – 19h)

O BEIJO NO ASFALTO

Escrita em apenas 21 dias, a peça O Beijo no Asfalto foi inspirada na história de um repórter do jornal “O Globo”, Pereira Rego, que foi atropelado por um arrasta-sandália, espécie de ônibus antigo. No chão o velho jornalista percebeu que estava perto da morte e pediu um beijo a uma jovem que tentava socorrê-lo.

Nelson Rodrigues mudou “um pouquinho” da história. Na trama do dramaturgo, o atropelado da Praça da Bandeira pede um beijo a Arandir, figura jovem e de coração puro e atormentado. Amado Ribeiro, repórter do jornal “Última Hora” retratado por Nelson no folhetim Asfalto Selvagem, presencia o beijo e, junto com o delegado corrupto Cunha, transforma a história do último desejo de um agonizante em manchete principal. O sensacionalismo da “Última Hora” muda completamente a história, retratando Arandir como um criminoso que empurrou o amante e depois o beijou. A vida do jovem se transforma num inferno e nem mesmo sua mulher acredita que ele é inocente.

Por trás de uma história aparentemente simples, O Beijo no Asfalto discute questões fundamentais à condição humana. Nelson Rodrigues aproveitou o beijo espontâneo dado por Arandir, homem de coração puro, no atropelado, para fazer um libelo contra a falsidade, o juízo baseado na aparência e as convicções erradas de parte da sociedade.

A pior de todas as personagens é, sem dúvida, o repórter corrupto Amado Ribeiro, resumido por Nelson Rodrigues como um “cafajeste dionisíaco”. Cruel, maligno, inescrupuloso e sensacionalista, ele compensa seu vazio interior com abuso de poder. Compra provas, inventa testemunhas, se aproveita de situações e ingenuidades, planta informações, enfim, é uma escola sobre como o Jornalismo não deve ser exercido. Não deixa de ser mais uma personagem frustrada das tragédias rodrigueanas. Figura real, Amado Ribeiro esteve presente também no folhetim Asfalto Selvagem, e foi retratado desta mesma forma. Em vez de se incomodar, o colega do dramaturgo dizia sempre que era ainda muito pior.

A peça tem um clima de pesadelo. Todas as pessoas que envolvem Arandir voltam-se contra ele depois da publicação da foto no jornal. Werneck, colega de escritório, lidera o coro dos detratores e começa a constranger Arandir no dia seguinte à manchete do Última Hora. Dona Judith, a datilógrafa, acha que um dia um homem parecido com o atropelado foi até o jornal e transforma sua dúvida em certeza absoluta. A posição da viúva é ainda pior: com medo de ver publicado no jornal o fato de ter um amante, testemunha contra Arandir. É justamente através de seu falso testemunho sobre a ligação dos dois homens que a polícia consegue a prova que necessitava para dar verossimilhança à farsa.

O detetive Aruba representa o policial burro, que não consegue acertar uma única vez. E dona Matilde, vizinha, simboliza o coro dos fofoqueiros, típicas figuras que adoram bisbilhotar a tragédia alheia.. No meio de tanta gente cruel e preconceituosa, é inevitável que uma figura pura e espontânea como Arandir acabasse soterrado. Típica vítima inocente, ele beijou o atropelado para realizar seu último desejo. Arandir só aceitou dar o beijo no asfalto por generosidade e piedade. Não tinha nenhuma maldade impulsionando suas atitudes. Sua bondade, entretanto, não poderia ter futuro num ambiente dominado pela degradação moral e ética. Por isso acaba sozinho, sendo o único homem da terra a acreditar na verdade dos fatos.

A surpresa é um elemento bastante explorado por Nelson Rodrigues em O Beijo no Asfalto. Além da paixão de duas irmãs pelo mesmo homem, tema sempre recorrente em sua obra, Nelson Rodrigues retratou mais uma vez a imprensa. Criticando o Jornalismo onde ele próprio se criou o autor pinta o retrato de uma imprensa sem um mínimo de qualidade e ética.

Ficha Técnica:

 Elenco:

Arandir:                          Wellington Firmino

Amado Ribeiro               Jefferson Pereira

Cunha                            Marcos Sanson

Detetive Aruba               Tiske Reis

Werneck                         Edgar Sewaibrick

Selminha                        Rai Queiros

Dália                               Amanda Faicar

Viúva                              Gabriele Clemente

Matilde                            Mara Solange

                                       Gabriele Clemente

                                       Lenice Gomes

Aprígio                            Mario Persico

Direção                          Mario Persico

 

 Serviço:

Espetáculo: Beijo no Asfalto

Local: Teatro Escola Mario Persico

Horário: 20h00

Data: 11/05/2019 (Sábado)

Endereço: Rua da Penha, 823, Sala C. R. Mantovani

Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00

Indicação Etária: 14 anos

 

  

 VEREDA DA SALVAÇÃO

A nova montagem da Cia Clássica de Repertório foi agraciada com o Edital de Formação da Prefeitura Municipal de Sorocaba – Secretaria de Cultura e Turismo, que premiou o Projeto Ator em Construção que durante todo o ano de 2018 aconteceu no Teatro Escola Mario Persico, sede da Cia Clássica de Repertório e que termina com três montagens distintas dirigidas por Mario Persico, Tiske Reis e Marcos Sanson. Veredas da Salvação, com base no texto potente de Jorge Andrade é o primeiro que vem a cena com direção de Mario Persico.

Vereda da Salvação foi escrita entre os anos de 1957 e 1963, e estreou em 1964 pelas mãos de Antunes Filhos. Considerada um marco da dramaturgia nacional, ela representa uma virada na dramaturgia de Jorge Andrade que se volta para a classe brasileira mais desfavorecida.

Inspirado em um episódio verídico ocorrido na cidade de Malacacheta, no sertão de Minas Gerais, Vereda da Salvação é o símbolo do desamparo, do descaso e da crendice dessa parte excluída da sociedade brasileira. Árida como o sertão euclidiano de Canudos; miserável como os posseiros que perderam suas terras tornando-se agregados; mergulhada em um lamaçal de infertilidade, doença e misticismo, a peça retrata um Brasil vítima do isolamento e da ignorância.

São as agruras da miséria e a total impossibilidade de melhora de vida no plano social que adubam o solo tornando-o fértil, não para o alimento que mata a fome, mas sim para o messianismo e o fanatismo religioso que tomam conta da alma.

Jorge Andrade consegue, em Vereda da Salvação, reproduzir com maestria essa combinação da degradação humana com a promessa da salvação divina que, repetidas vezes na história do Brasil, resultou em verdadeiras catástrofes sociais. Vereda infelizmente parece ter sido escrita para o Brasil atual. Tanta coisa se mostra como realidade nos dias de hoje. Até mesmo a opção estética dos atores com o corpo coberto de lama ganhou novos contornos com a tragédia recente de Brumadinho. Enfim, um espetáculo necessário e urgente.

 

Serviço:

Espetáculo: Veredas da Salvação

Local: Teatro Escola Mario Persico

Horário: 19h00

Data: 12/05/2019 (Domingo)

Endereço: Rua da Penha, 823, Sala C. R. Mantovani

Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00

Indicação Etária: 14 anos

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