Sônyah Moreira: ‘Tartufos reais’

18/10/2019 17:18

Sônyah Moreira

Tartufos reais

Tartufo é uma peça cômica  de Molière, (1622-1673), um dramaturgo francês, considerado o mestre da comédia satírica.

Foi encenada pela primeira vez em 1664, e imediatamente desgostou a  elite de religiosos da época, pois Tartufo os representava muito bem como falsos e enganadores; a Igreja, sentiu-se  muito ofendida, e pediu a censura imediata  da apresentação.

Um assunto que  me  fascina   é a  religião, gosto de  estudar os  diversos fatores da religiosidade humana,  principalmente   os  escárnios produzidos pelos Tartufos reais.

Tartufo  tornou-se  sinônimo  de um ser  hipócrita e dissimulado,  que usa o nome de Deus para se beneficiar e  enganar os incautos e desesperados fiéis de alguma denominação religiosa.

Todas as  religiões vão muito bem, obrigado! São isentas de impostos, e quando existe a mistura de Estado e religião,  os privilégios alcançados  ultrapassam a moralidade e os ensinamentos básicos de respeito ao próximo.

Os impostores Tartufos usam o nome de Deus em defesa da violência, criam um Deus como se este fosse um amigo imaginário, aquele personagem  do qual uma criança ingênua  faz tudo que lhe é ordenado, e vice-versa.

A fé  torna-se importante ou fundamentada de acordo com o  número de likes que recebem; quanto mais gostam, mais religiosos nos tornaram. É a quantidade relegando a qualidade.

Os Tartufos dizem a todos que devem falar a sua língua, são religiosos nas palavras  e ateus nas atitudes.

Para os Tartufos,  religiosidade é o ápice do ser humano; todavia, ser um ateu não é uma evolução do entendimento, e nem ser religioso um retrocesso evolutivo, estando este  cada qual dentro de suas limitações para a  compreensão do que é divino, ou não.

JC, um expert, ao tornar-se carne e sangue, preferiu os excluídos, em agonia na cruz  escolheu  um ladrão porque se arrependera, canonizou-o, ao dizer-lhe que,  em breve, estaria ao lado do Pai. O filho pródigo é quem recebe festa ao retornar para casa do pai.  O Cristo escolheu  pecadores, rejeitados e excluídos,  e os filhos pródigos mundo afora.

Que diriam as redes sociais a um ser que defende  prostitutas, ladrões, e todos aqueles  que vivem à margem? O cristianismo de Cristo era para todos os seres humanos e  não apenas aos frequentadores dos templos.

Hoje os textos bíblicos são publicados a exaustão e sempre acompanhados por um kkkk (riso da era tecnológica),  isso   dá  o aval para ser religioso,   bondoso, caridoso  e todos os “osos”, eloquentes das vaidades.

Um cristão não julga, pois  isso é um atributo divino,  condição essa que  JC abriu mão ao  esvaziar-se de sua vontade, e aceitando o desejo divino, ou seja, a   kenosis.

Portanto, o mundo está repleto de Tartufos anônimos ou  famosos,  seres enganadores que transformam  a fé em água que escorre ralo abaixo. Esses algozes se igualam a Deus. Hoje, com a modernidade,  se escondem  atrás de suas redes sociais, ferramenta muitas vezes  demoníaca do século XXI;  são juízes que não respeitam leis e  promovem linchamentos on-line.

Tartufo, de Molière  continua a ser  um personagem atual  e representado  em diversos segmentos religiosos e seus astutos  líderes. Não há dúvida em   dizer que a vida imita a arte, ou será a arte que imita a vida? Ontem, hoje e sempre!

Que seja feita a vossa vontade, assim na terra como… Na tartufice. Amém!

 

Sônyah Moreira  –   sonyah.moreira@gmail.com

Tags: