Sônyah Moreira: ‘Esqueletos de armário’

08/12/2019 21:11

Sônyah Moreira

Esqueletos de armário

Gosto muito de lembrar um escritor famoso pelos seus versos fúnebres, Augusto dos Anjos, (1884-1914), que usava a morte como sua principal personagem.

Seus poemas demonstravam certa melancolia,  é conhecido como um dos poetas mais críticos do seu tempo, focando suas críticas ao idealismo egocentrista que emergia em sua época, e até hoje sua obra é admirada tanto por leigos como por críticos literários.

Talvez,  eu esteja enveredando por essa vertente da crítica ao egocentrismo atual, porque percebo pessoas tão preocupadas em esconder seus esqueletos, digamos, segredos guardados lá no fundo de seus armários inconscientes.

Se voltarmos um pouco na História, perceberemos que famílias poderosas tinham seus esqueletos muito  bem chaveados em seus armários blindados, longe dos olhos curiosos da sociedade hipócrita. Esqueciam-se  esses homens arrogantes  que somos dotados dos mais abomináveis defeitos de fabricação, porquanto não há perfeição!

Não muito longe, ali do outro lado do oceano, uma bela família, poderosa, ansiosa por grandeza e poder, escondeu  sua   filha primogênita, Rosemary Kennedy, (1918-2005) que sofria de   problemas neurológicos. Pelo simples fato de  não aceitarem que os meros plebeus descobrissem que eram  simplesmente mortais, ou iguais, eles a esconderam por décadas.

É,  penso que a Família Kennedy tinha muitos esqueletos em seus armários, e esse pode ser o menos podre, de uns  dos maiores  clãs norte-americanos.

Sempre que escrevo, busco uma analogia com tempos atuais; temos hoje diversos poderosos, ansiosos por demonstrar que podem tudo. Governos desqualificados tentando dominar a massa desesperada por serem ouvidas e respeitadas em suas mínimas exigências para uma sobrevivência digna.

Essa ânsia de  poder não é privilégio de pessoas destinadas à liderança  de grandes nações; não, podemos  trazê-las para o mundo corporativo, digamos, um mundinho pequenininho de uma empresa.

Os esqueletos de armários podem ser daquele chefe que chega, dizendo uma frase célebre: “─ Ah! Mas, se eu fosse você, eu faria assim, ou, assado, sim porque lá, eu fazia assim”.  Esqueçam esse “se eu fosse você”! Faria nada, todos têm seus  esqueletos; incorremos, talvez, até  nos mesmos erros, o duro é admitir onde enfiaremos a nossa arrogância?Olha! Penso onde? Não,  talvez  aí não caiba!

Assim como os Kennedy, nós, meros mortais, precisamos aceitar nossas deficiências,   não somos isentos de cometer erros.  Estamos todos  numa  escalada evolutiva, seja aqui, ou naquela  qualquer empresa.   Somos apenas aprendizes, sempre vamos nos deparar  com pessoas mais capazes, mais perfeitas que nós,   e,  talvez  por nossa arrogância, decidiremos extirpá-las de nosso convívio, para  que não nos faça  sombra, ou,  como no caso dos Kennedy, para não mostrar aos outros que somos iguais!

Talvez, o tão sonhado poder seja muito mais fácil conseguir  através da cooperação, com trabalho em equipe, e, quem sabe, aprender, ou apenas  livrar-se de seus esqueletos!

 

Sônyah Moreira

   sonyah.moreira@gmail.com

Tags: