Sônyah Moreira: ‘Dois mundos’

18/07/2018 09:19

As condições de trabalho deixam a desejar, não há o menor  conforto nem para as refeições, pessoas indo e vindo num frenesi louco, cada um com seus dramas, suas histórias, seres humanos iguais a mim,  e a você.”

 

Caríssimos! Vocês já pararam pra pensar nas diferenças que existem no mundo?

Não estou dizendo em diferenças raciais, ou de gêneros, essas não podem sem consideradas diferenças,  estou dizendo as  sociais.

Em um tour pela cidade, entramos  em  uma zona  onde se respira uma  atmosfera de labuta diária, pessoas lutando, cada uma a seu modo pelo pão de cada dia, literalmente com o suor de seus rostos. Neste lugar,  sentimos como se estivéssemos em uma guerra, porém,  uma batalha saudável, pessoas no auge de suas forças físicas buscando  seu ganho,  e que  mágica essa sensação de vitoria no fim do dia! Esse lugar especificamente é uma das ruas mais conhecidas de São Paulo (capital), a 25 de Março.

As condições de trabalho deixam a desejar, não há o menor  conforto nem para as refeições, pessoas indo e vindo num frenesi louco, cada um com seus dramas, suas histórias, seres humanos iguais a mim,  e a você.

Talvez, nesse lado do mundo em  que vivemos as condições de trabalho, pode-se dizer que  são de privilegiados, não existe um lugar como aquele cá pelos lados de nosso interiorzão.

Aqui a vida é mais vagarosa, as distancias são  menores, claro que   existe a correria diária pelo ganho do pão, todavia, é mais confortável e  menos agressiva.

Dois mundos! A mesma cidade, uma metrópole como São Paulo, com divisões extremas,  um lugar onde se ganha  o pão nosso de cada dia, literalmente com o suor do rosto. Subindo  a ladeira Porto Geral, chega-se  ao centro velho da magnífica cidade, onde antes,   existia o glamour das elites, hoje contempla a miséria humana. O cenário é desolador, digamos, que a impressão é que entramos em um filme apocalíptico, figuras esquálidas, se misturam ao concreto das construções em decadência.

É extremamente dolorido, ver que semelhantes vivem em condições subumanas. Mais  triste ainda,  ver um bebê, que nem ao menos se  apercebeu  de sua existência terrena, engatinhar no  chão fétido.

Os prédios em ruínas, as calçadas imundas, corpos decrépitos estendidos pelo chão, uma mistura de fezes, lixo, restos de comida. Uma  visão impossível de não tocar o coração,  e que nos  faz perceber nossa imoralidade como seres humanos.

Dois mundos! Há de perceber que nesse ambiente, o suor é  de dor, de febre, de fome, a tristeza nos olhos desesperançados é nítida, dois mundos!

As cenas apocalípticas lembram o  final dos tempos, jovens sem perspectiva alguma, andam como  zumbis.  Criaturas bípedes, misturadas aos quadrúpedes caninos e felinos,  á procura  de comida em lixos espalhados pelo chão, uma selva de pedra, um submundo, seres em uma condenação perpetua de um  purgatório.

Dois mundos! Há quem diga  que são seres acomodados, pode ser! Não há dúvida; que no meio desse quadro desolador, existam sim,  aqueles que já se entregaram de maneira irreversível, como se o lixo impregnasse em sua pele e  em  suas almas. Entretanto, não podemos achar que estejam felizes e satisfeitos com tal situação, e deixar  de  nos incomodar, ficando apenas  a indiferença.

Gostaria muito de ver pessoas,  que estão sempre  insatisfeitas com suas vidas, gente que reclama de tudo, até do  brilho Sol, ir lá, interagir entre  esses dois  mundos.De um lado  o da luta, da guerra diária, e do outro o da desesperança, do desespero, da fome, um verdadeiro inferno, como o descrito por   Dante Alighieri (1265-1321).

Hoje, não precisamos sair do conforto do lar, para contemplar a miséria, ela  estampa diariamente os noticiários televisivos, podemos fingir não enxergar. Na minha visão de fim de mundo, não adianta alguns possuir conforto se a nossa volta, a maioria não tem o mínimo necessário  para a sobrevivência digna, somos seres gregários, precisamos uns dos outros.

A solução está em nossas  mãos. Não podemos buscar ajuda em outra espécie, que não a nossa. No reino animal, somos os únicos que agride  o semelhante gratuitamente.

Estamos no topo da cadeia alimentar, e por conseqüência, na base de sustentação da vida no planeta Terra!

Dois mundos,  com  os mesmos protagonistas e antagonistas;  apenas os seres humanos! A única  diferença está no enredo!

Será que viemos ao mundo apenas como passageiros? Nossa breve história poderá ser apagada com um simples movimento dos eixos terrestres.

Será esse o  final da história de protagonistas tão especiais?

 

Sônyah Moreira  –  sonyah.moreira@gmail.com

 

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