Sônyah Moreira: ‘1964… Oi!’

24/05/2020 17:47

Sônyah Moreira

1964… Oi!

“O tempo é o único bem irrecuperável. Recupera-se uma posição, um exército e até um país, mas o tempo perdido, esse, jamais!” (Napoleão Bonaparte).

 

Group of Multi-Ethnic Arms Raised and a Flag of Brazil as a Background

Diante de uma calamidade sanitária da qual está passando o planeta Terra, ainda conseguimos nos indignar com atitudes autoritárias de cunho político.  Senhores engravatados, engomados e, com cara de pau, se aproveitam da confusão, para prosaicamente, passar a boiada!  E, no afã da desesperança, arquitetar mudanças estruturais que, afetam a vida de todos, ou seja, eu, você, nós!

Vamos voltar aos dias, não tão longe assim, do fatídico ano de 1964! Hoje, podemos constatar algumas semelhanças com aqueles dias nebulosos. Estão com dúvida? Vamos relembrar um pouquinho!

O então empossado presidente, por força de uma renúncia, João Goulart (Jango), para os íntimos, tinha entre 45% e 49% de aprovação da população, porcentagem essa, considerada muito baixa.  Com isso, os aniquiladores e oportunistas das instituições democráticas, sempre de   plantão, para insuflar a plebe, para inconscientemente, pedirem aos gritos uma   intervenção militar.  Com isso, se agigantaram diante da crise. Conspiraram, e, rapidamente destituíram o então presidente Jango. Caímos então, nas garras da ditadura, anos sombrios! Perdeu-se a liberdade de imprensa, pessoas perseguidas, exiladas e mortas pelo regime ditatorial de militares. Por décadas nos esquecemos de nossos direitos, perdemos a capacidade de divergir e discutir ideias, aceitamos tudo como normal. Passamos de mão em mão de generais, cada um, mais autoritário e sangrento do que o antecessor. O que podemos dizer dos dias atuais com ínfimos 30%? Perigo iminente sem dúvida!  O que dizer de reuniões ministeriais realizadas com palavras chulas, iguais as usadas em bordéis de quinta categoria! Palavras pesadas e ameaças diretas aos poderes constituídos pela democracia. Palavreado deselegante, proferido por pessoas das quais espera-se, um mínimo de lisura e postura, não como parias da sociedade, ao invés de defensores ferrenhos da Carta Magna! Homens, no sentido masculino de gênero, pois, havia apenas uma mulher, e, todos, inclusive a referida senhora, sem o menor preparado para ocupar cargos executivos. Pouco, ou nenhum apreço com a sociedade, desrespeitando o bem comum. Deboche e confronto total a população sofrida, que lhes concede conforto, e, magníficos banquetes faraônicos.

Nos anos de chumbo, houve perdas, e haja vista, irrecuperáveis, pessoas, liberdade e principalmente, transparência de informações, coisas essas, que jamais recuperaremos. Será que teremos que passar por tudo isso novamente?

Pessoas foram mortas e enterradas em valas comuns, sem nome, sem o choro de seus entes queridos, esses, jamais voltarão! Vidas ceifadas pelo autoritarismo intolerante de ditadores. Uma luta inglória para chegarmos ao século XXI, e ouvir imbecis, gritar e pedir uma desgraça, chamada AI5!  Assistimos perplexos, um presidente eleito democraticamente, receber no    palácio, custeado por pessoas que moram em casebres de chão de terra batido; um torturador da Guerra do Araguaia! Que país é esse?

Um país onde a maioria da população não se interessa por história! São como gados na invernada a seguir um capataz! Não conseguem ler uma breve história dos anos 60 ou 70, tão próximos da geração ainda vivente, quiça, voltar aos tempos do Brasil colônia!

Liberdade ainda que tardia! Palavras símbolo de um mártir da inconfidência mineira! Esse cidadão traído por seus pares, esse corajoso homem, morreu por nada? Perdeu a vida, por uma palavra linda chamada liberdade! Hoje, um bando de acéfalos, seguidores cegos de um líder autoritário, que se autodenomina religioso e ético, apenas da boca pra fora, esses discípulos do autoritarismo e   ignorantes da história,  estão  querendo jogar tudo o que conquistamos na privada,  e, simplesmente,  puxar a descarga! A liberdade inclusive de crenças religiosas, é um bem precioso. Um presidente precisa governar para todos, religiosos, ateus, agnósticos, e, todos, somos iguais, como bem descreve nossa Constituição (1988), a Lei das leis. Encontra-se lá também que, o estado, deve ser laico!

Voltar aos tempos negros e escuros da ditadura, e com ares de modernidade, é retrocesso sem igual, seria como  andar para trás como caranguejos. Isso é bem provável de acontecer! Principalmente, quando se possui com um demente à frente da nação! É coisa de piscar de olhos. Percebam a necessidade quase que diária, das forças armadas, divulgando notas em cima de notas, acerca da defesa da constituição. Ora! Se estamos assim, tão consolidados em nossa democracia, qual motivo, razão, ou, circunstancia de tanta ênfase nisso? Parece-me autoafirmação! Ou, como uma necessidade, de se, afirmar diariamente sua honestidade, desnecessário! Visto que, quando se é, dispensa-se comentários.

Neste turbilhão de acontecimentos, valores como, confiança e admiração por algumas pessoas, essas coisas quando perdidas, jamais são recuperadas. Vamos trazer tudo isso    para o nosso pequeno círculo, seja, em uma empresa, ou, no meio familiar.

Confiança, lealdade, parceria, comprometimento com a coisa publica ou privada, esses valores jamais serão recuperados em meio a esse caos. Pense nisso! Suas relações são sadias ou tóxicas?

Sairemos dessa pandemia, ou, fortalecidos como uma nação democrática, ou, como funcionários necessários ou desnecessários, e, com o real valor diante de seus patrões. Sairemos sim! De que forma? É outra história!  Hoje, simplesmente, habitamos um país desgovernado, com cidadãos desesperançados, que caminham para o desemprego e decepção, com as atitudes da maioria dos empresários sedentos pelos lucros estratosféricos que, poderão obter nessa situação. Ricos mais ricos, e, pobres mais pobres!

Hoje, ressuscita-se ditadores amantes das correntes militarizadas, patriotas entre aspas, loucos para perpetuar-se no cargo.

Um povo que nasceu da luta de guerreiros forjados no sangue de seus mártires, não pode pisar nessa pilha de esqueletos.

Em meio a todas as mazelas enfrentadas pelos habitantes do planeta Terra, precisamos ter esperança que nada é eterno, e tudo tem um fim, inclusive, cargos, sejam eles, em empresas, ou…!

O ano é 2020, não podemos esquecer isso! O Brasil aos trancos e barrancos constituiu-se em uma democracia, há exatos 31 anos,  com isso, o  respeito aos poderes é essencial para a harmonia e a governança.

“Choramos ao nascer porque chegamos a esse imenso cenário de dementes”! (Willian Shakespeare)

 

Sônyah Moreira    sonyah.moreira@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

Tags: