Silmara Lopes: ‘Nossos infernos podem ser os outros’

12/08/2020 11:02

Silmara Lopes

Nossos infernos podem ser os outros

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O trocadilho com a famosa frase do filósofo françês John-Paul Sartre de que “O inferno são os outros”, tem a finalidade de levantar reflexões sobre as relações interpessoais. Como somos afetados pelos afetos dos outros (emoções, sentimentos bons ou ruins, positivos e negativos) e, também, afetamos com nossos diversos tipos de afetos, busca-se, ainda, levantar reflexões sobre a nossa relação com os outros e a questão da liberdade. Sartre defendeu que “estamos condenados a ser livres”, no entanto, nossos interesses, projetos, sonhos e necessidades pessoais, por exemplo, podem entrar em conflito com os sonhos, interesses, necessidades e projetos dos outros. Isso nos leva a entender que a liberdade, palavra tão perseguida e desejada por todos nós, é sempre uma liberdade sitiada e em relação aos outros. Porém, devemos a cada dia de nossas vidas conquistar mais e mais liberdades, procurando nos libertar das prisões sociais (tipos de morais, preconceitos, discriminações, entre outros, que prejudicam uns em favor de outros).

Não se fala em liberdade sem os outros. Portanto, a liberdade é algo que se constrói no coletivo, mas é, também, uma conquista pessoal que nunca é total! A liberdade pessoal, entre outros, requer que não nos preocupemos tanto com aquilo que os outros vão pensar se resolvermos mudar de ideias, planos ou caso queiramos fazer aquilo que os outros não gostam, mas que nós gostamos. Buscar aumentar a cada dia mais as nossas liberdades no âmbito pessoal é não permitir que os outros possam tornar nossas vidas num inferno! Buscar a liberdade pessoal é a conquista de não permitir que os outros comandem nossas vidas; é saber e poder fazer escolhas que nos agradam; é permitir experimentar momentos de felicidade mesmo não agradando aos outros. É não permitir que os outros se tornem nossos infernos! Certamente essa conquista não é nada fácil, mas é possível! O bom de sermos humanos é que sabemos, temos consciência de que existem possibilidades para mudanças!

A liberdade pessoal não deve ter como finalidade ferir princípios da ética universal do ser humano (ética defendida por Paulo Freire). Porém, objetiva desconstruir e livrar-se de tipos de morais que prejudicam uns em benefício de outros.  Afinal ética e moral  não significam a mesma coisa! Enquanto a ética é voltada para o coletivo, o universal; a moral é voltada para grupos, costumes, hábitos e nem sempre favorece a todos, pelo contrário, há regras, normas que são consideradas normais (morais), no entanto, prejudicam uns e beneficiam outros. Cabe à ética questionar, contestar alguns tipos de regras morais que são aceitas como naturais, mas que na realidade são construções históricas, sociais e culturais que privilegiam alguns em detrimento de outros.

Não há liberdade total, posto que a liberdade existe na relação com os outros. No entanto, por múltiplas determinações e condicionamentos, uns têm mais liberdades do que outros.  A liberdade de não permitirmos que os outros possam se tornar nossos infernos é algo que, também, pode e deve ser conquistado. É necessário não permitirmos que aquilo que os outros acham de nós interfira nas nossas escolhas, atrapalhe nossos sonhos e necessidades! Devemos diuturnamente lutar para aumentar as nossas liberdades pessoais, não permitindo que os outros se tornem nossos infernos!

Referências:

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia.

SARTRE, J. P. O Ser e o Nada.

 

Silmara Lopes 

 silmaralopes2008@hotmail.com

 

 

 

 

 

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