Sergio Diniz da Costa ‘O conhecimento num clicar do mouse’

15/05/2018 12:15

“Causa surpresa observar comentários redigidos com total afronta à gramática e mesmo no que diz respeito a citações de terceiros, regra geral, escritores, poetas e pensadores.”

 

Artigo publicado originariamente na Revista ‘Hipnose em Foco’ – edição de maio de 2018

Eu pertenço à Geração Pré-Computador-Internet. Estudei em cartilhas de miolo em preto e branco, pesquisei em livros comprados nas livrarias ou das bibliotecas públicas e escrevi textos em máquinas de escrever, daquelas manuais, com acionamento mecânico das teclas e fitas em preto e vermelho.

Naquela época, e apesar de toda a morosidade e até mesmo a falta de um incentivo visual para a aquisição de conhecimentos e a expressão profissional ou cultural, não tinha – como provavelmente a maior parte das pessoas – uma consciência de como tudo era mais lento e demorado. Era um tempo em que o relógio parecia girar seus ponteiros mais lentamente.

A humanidade, porém, a partir de 1946, conheceu, então, uma tecnologia que traria a revolução mais importante de toda a História: o computador!

Desde o ENIAC (Electrical Numerical Integrator and Computer), primeiro computador digital eletrônico de grande escala no mundo, criado em fevereiro de 1946 pelos cientistas norte-americanos John Eckert e John Mauchly, da Electronic Control Company, desenvolvido em 1943 durante a II Guerra Mundial para computar trajetórias táticas que exigissem conhecimento substancial em matemática, mas só se tornou operacional após o final da guerra, e que pesava 30 toneladas, media 5,50 m de altura e 25 m de comprimento e ocupava 180 m² de área construída, até a terceira geração dos computadores (1964-1970), cujas tecnologias LSI, VLSI e ULSI abrigam milhões de componentes eletrônicos em um pequeno espaço ou chip, iniciando a quarta geração, que vem até os dias de hoje, gradualmente o mundo ‘real’ foi dando a vez para o mundo ‘virtual’. E os ponteiros do relógio começaram a girar mais rapidamente.

No Brasil, o ano de 1995 marcou a exploração comercial da internet e, em apenas um quarto de século, mais de 100 milhões de brasileiros acessam a internet, segundo dados da 11ª edição da pesquisa TIC Domicílios 2015, que mede a posse, o uso, o acesso e os hábitos da população brasileira em relação às tecnologias de informação e de comunicação.

Definitivamente, e cada vez mais, os brasileiros (e o mundo todo, de uma forma geral), vivem numa era em que o conhecimento, até onde o homem atual o desvendou, está ao alcance dos usuários de computadores e da internet num clicar do mouse.

Com isso, e ainda que se façam ressalvas à qualidade e comprobabilidade de algumas informações veiculadas na internet, qualquer pessoa que detenha o básico de escolaridade pode construir, subsidiariamente, ao lado dos estudos acadêmicos, uma gama de conhecimentos até então jamais conseguido pelos nossos antepassados.

Tal realidade, no entanto, destoa do que observamos nas redes sociais, em termos de manifestação quanto a fatos diários ou mesmo a relacionamentos meramente informais, como, por exemplo, no Facebook.

Causa surpresa observar comentários redigidos com total afronta à gramática e mesmo no que diz respeito a citações de terceiros, regra geral, escritores, poetas e pensadores.

Personagens célebres, como o bardo inglês Shakespeare ou a escritora nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, Clarice Lispector, são citados constantemente por facebuquianos afoitos por demonstrar cultura. E tais citações, compartilhadas por outros tantos ‘amigos do Face’.

E essa prática, infelizmente, não ocorre somente com pessoas aparentemente com nível escolar mais baixo, porém, até mesmo com mestres e doutores, como pude comprovar, há pouco tempo, ao fazer a revisão de uma coletânea de textos técnicos.

Diante desta constatação, emerge uma preocupação, uma perplexidade, baseada no que poderíamos chamar de ‘Ironia da Alta Tecnologia’: num simples clicar do mouse, em poucos minutos o mundo do conhecimento humano atual chega ao seu consulente, com uma variadíssima gama de pesquisas, que, no século XX, demandava muito tempo e, às vezes muito investimento financeiro. Não obstante, um fenômeno que merece estudo mais aprofundado revela a prática de manifestações escritas – e até verbais – próprias de pessoas incultas, avessas ao conhecimento.

O conhecimento, de fato, está ao alcance de todos, num clicar do mouse. O problema, talvez, não seja o mouse, mas dos dedos!

 

Sergio Diniz da Costa – jornalculturalrol@gmail.com

Escritor, poeta, revisor de livros, membro da Academia sorocabana de Letras e editor do jornal cultural ROL – Região On Line

 

 

 

 

 

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