Sandra Vasconcelos: História de assombração: ‘Lendas Urbanas IV’

06/04/2021 12:16

Sandra Vasconcelos

História de assombração: ‘Lendas Urbanas IV’

Numa rua triste e feia, depois da linha do trem, moravam Dona Ditinha, Seu Heitor, Dona Rosa e José Carlos.

Senhor Heitor, marido de Dona Ditinha, aposentado por invalidez porque não escutava do ouvido direito, passava o dia todo jogando bingo no bar do Orlando.

José Carlos, menino de onze anos, filho de Dona Ditinha, saía todos os dias para vender, de porta em porta, a linguiça feita pela avó.

Era de grande ajuda, pois Dona Ditinha ganhava pouco, costurava para fora, mas havia muita gente que não pagava ou que atrasava o pagamento.

O menino estudava de manhã e vendia a linguiça à tarde.

Estávamos no mês de junho, e toda a comunidade se preparava para a festa de São João.

As ruas eram enfeitadas com bandeirinhas e balões que não iam para o céu para evitar alguma tragédia, mas que enfeitavam as calçadas e as deixavam lindas.

A fogueira de São João era enorme, no meio da rua, imponente.

Dona Teresa, vizinha mais antiga da comunidade, pedia um Alvará na Prefeitura para que o baile acontecesse e o povo pudesse dançar ao som da sanfona do Tião.

Tião tocava a sanfona e abria um sorriso largo sem dente, mas muito simpático.

 Acontecia um casamento caipira que matava a gente de tanto rir.

O Nicanor era o padre e a Solange se enfeitava de caipirinha, para viver a noiva que forçava o noivo a se casar.

 O pai da noiva, munido de uma espingarda velha, perseguia o noivo.

O casal caipira chegava de carroça e o povo aplaudia e se divertia muito.

 Mas, infelizmente, naquele ano foi diferente….Dois dias antes da festa de São João…

Dona Rosa desencarnou. E todos foram velar o corpo, na casa de Dona Ditinha e seu Heitor.

O corpo de Dona Rosa foi colocado na sala que antecede a cozinha e o banheiro.

Depois de rezarem o terço, a prosa rolou solta por toda a madrugada.

No meio da noite, como fazia muito frio, o Zé da Tita resolveu fazer uma fogueira na rua, em frente à casa da morta para “espantar” o frio.

O senhor Toninho barbeiro levou uma garrafa de pinga para aquecer o pessoal.

Sentaram-se em volta da fogueira e a “branquinha “passava de mão em mão, de boca em boca e o riso saía solto.

 De repente o Jorginho  filho da Dona Cida, sentiu uma dor de barriga daquelas de dar nó e dó. Perguntou onde era o banheiro da casa e saiu correndo.

Ao passar pela cozinha viu penduradas em cima do fogão de lenha, as deliciosas linguiças feitas um dia antes pela defunta.

Não titubeou. Mesmo sabendo que não era correto, pegou as linguiças e colocou no bolso, a fome era intensa. Chegou perto da fogueira…assou… e comeu com vontade.

Os outros foram um a um se levantando para irem ao banheiro e voltavam com a linguiça escondida no bolso.

E então começou um churrasco animado.

Enquanto Dona Ditinha chorava, os amigos a consolavam e depois saíam ” com todo respeito”, para o churrasco lá fora.

A branquinha passando de mão em mão…

A  fogueira esquentando…

A linguiça assando…

Dona Ditinha com sua dor nua e crua…

Dona Rosa em um mundo melhor…

E os amigos comemorando.

Porque a vida continua…

No dia seguinte Dona Ditinha deu pela falta das linguiças, mas não se importou.

Afinal, o mais importante são as pessoas e não as coisas materiais.

Mas seu Toninho Barbeiro, depois da ressaca, viu o que tinha acontecido, foi à casa de Dona Ditinha e assumiu a culpa de todos e pagou as linguiças.

Com medo do fantasma de Dona Rosa vir cobrar as linguiças, os outros fizeram uma “vaquinha” e ajudaram seu Toninho.

Dona Ditinha agradeceu e disse comovida:

-Não precisava seu Toninho, era só pedir que eu dava.

– Precisava sim, disse seu Toninho barbeiro.

-As amizades são mais importantes que as linguiças.

…e a festa junina ficou para o ano seguinte.

 

Sandra Vasconcelos

sandraluzalbits@gmail.com

 

 

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