Sandra Vasconcelos: ‘História de assombração II: A procissão’

16/01/2021 10:38

Sandra Vasconcelos

LENDAS URBANAS

História de Assombração II: Estranha procissão

          Numa pacata cidadezinha do interior de São Paulo, toda sexta-feira da paixão, aconteciam coisas muito estranhas.

         A partir das vinte e duas horas, ninguém mais saía de casa.

        As pessoas faziam tudo depressa, falavam baixo, faziam pressurosos seus deveres e se refugiavam em seus lares, fechando portas e janelas com cuidado e zelo.

         As escolas dispensavam as crianças mais cedo. O comércio era fechado depois do almoço e nem o cinema exibia seus filmes de terror.

         Rosinha estava na cidade há dois meses e não sabia de nada. Ela morava num bairro bem afastado, depois da linha do trem. Ela não tinha amigas, não conhecia quase ninguém.

          Helinho, filho de Rosinha, brincava tranquilamente na casinha de dois cômodos alugada, onde Rosinha costurava para sobreviver.

           Ela era viúva e sentia muita falta do esposo que há um ano teve um AVC e desencarnou, deixando Rosinha sozinha com um filho para criar.

            Naquela sexta-feira da paixão, ela acordou sentindo nostalgia e uma profunda saudade de seu esposo.

            Trabalhou o dia todo.

            Costurou, tentou cantar para tapear a tristeza, mas não conseguiu. Nada estava bem, nem mesmo Helinho conseguiu distraí-la.

             O cansaço tomou conta de Rosinha e ela resolveu tomar um café para despertar do sono que a envolvia.

             Levantou-se, esticou as pernas e os braços e pegou Helinho no colo, que adormecera em cima de seus brinquedos, para levá-lo para cama.

            Tomou café e colocou a xícara na pia.

          De repente, um cheiro de vela invadiu a pequena casa. Era um cheiro de vela misturado com flores velhas.

            Rosinha achou estranho, mas voltou à máquina de costura, pois tinha que terminar as encomendas.

            Repentinamente, o som de um relógio, vindo não se sabe de onde, bateu meia-noite. Em seguida, Rosinha ouviu três batidas na porta.

            Assustou-se, era meia-noite e quem bateria assim? A cada minuto, as batidas aumentavam, até que foram doze batidas.

           Rosinha, assustada, olhou pela fresta da janela e quase não acreditou no que viu.

           Uma procissão de esqueletos humanos, caminhando lentamente, segurando velas acesas e flores murchas.

           Alguns cantavam, outros conversavam.

           A rua ficara iluminada com tantas velas.

          Quando a procissão passou e Rosinha já estava se refazendo do susto, novamente outra batida na porta.

          Rosinha, assustada, levantou-se devagarinho, caminhando indecisa e pensando ser algum vizinho assustado pedindo ajuda, abriu a janela…. Oh! Meu Deus! Ela não acreditou no que viu e com a boca aberta e os cabelos em pé, enxergou diante de si a última caveira da procissão que lhe entregou uma cruz com a mão direita e, com a esquerda, uma vela acesa. Rosinha pegou a vela e percebeu que era um osso humano.

            Rosinha caiu desmaiada.

          Com o tombo, Helinho acordou e, gritando, acudiu pressuroso sua mãe.

           Rosinha despertou e conseguiu tranquilizar o filho dizendo que sonhara, não, não foi um sonho, ela teve um pesadelo terrível.

          – É, acho que preciso de umas férias. Tenho trabalhado demais.

          Enquanto servia o leite de Helinho, seus olhos se fixaram na janela do quarto.

          No lugar da vela, havia um osso de defunto. Observando melhor, percebeu que uma cruz e um osso enfeitavam a janela entreaberta.

          Será mentira? Será verdade? O que você acha? Já viu alguma procissão assim? Conte e nos envie.

 

Sandra Vasconcelos

sandraluzalbits@gmail.com

 

 

 

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