Sandra Vasconcelos entrevista a artista plástica Irene da Rocha

18/11/2021 22:38

“… quando vejo alguém com uma face interessante, dá vontade de pintar, gosto de retratar as pessoas. Mesmo achando que tenho muito que apreender sobre arte, gosto de retratar alguém.” (Irene da Rocha)

Cruzeiro é uma linda e pequena cidade do Estado de São Paulo.

Foi chamada primeiramente de ‘Povoado da Estação’. Surgiu ao lado da linha da Central do Brasil, construída em 1890.

A população cresceu rapidamente e em 1901 foi elevada à categoria de sede do Município, sendo desapropriada uma área em volta da Estação, pertencente à Fazenda “Boa Vista”, propriedade do Major Novaes.

O traçado do Município segue um trajeto quadriculado, feito pelos engenheiros da Rede Ferroviária.

O núcleo urbano da cidade de Cruzeiro está a oito (8) Km da Rodovia Presidente Dutra (BR- 116) e é servido pelas Rodovias Dr. Hamilton Vieira Mendes, Avelino Junior (SP- 52 e Nesralla Rubez (SP – 58), outrossim das Estradas de Ferro Central do Brasil e viação Férrea Centro – Oeste.

Cruzeiro fica próximo das divisas com o Estado do Rio de Janeiro e Minas Gerais e a meio caminho dos dois principais centros consumidores dos pais: São Paulo e Rio de Janeiro.

Em 02 de outubro de 1901, houve a emancipação político e administrativo de Cruzeiro.

A ‘cidade menina’ como sempre é chamada, tem suas terras emolduradas pelos belos contornos da Serra da Mantiqueira, maciço de rara beleza e rico em recursos naturais.

O PICO DO FOCINHO DO CÃO é um ponto turístico que encanta as pessoas pela deslumbrante vegetação que emoldura o formato de um focinho de cão.

O Pico, possuí altitude de 1.219 metros. Um lugar de raríssima beleza natural, dada a sua formação. Possui grande semelhança com um focinho de cão. A água corre sobre as rochas possuindo uma caverna perfurada pelo próprio riacho que segue por baixo de um morro a cerca de 500 metros, voltando a ser remanso novamente. É um local para camping rústico, piquenique e estacionamento. Está localizado na Serra da Mantiqueira.

É bem perto dessa exuberância que vamos encontrar a artista plástica Irene Rocha, que nos encanta com sua arte e gentileza. O Jornal Rol, instigado por tanta beleza, foi conferir de perto. Vejamos, pela entrevista concedida por Irene da Rocha.

JR – Bom dia, Dra. Irene!
IT – Bom dia!

JR – Que curso você fez? Qual sua formação?
I R – Minha primeira formação foi em contabilidade e a 2ª foi em fonoaudiologia, me especializei em MO-MOTRICIDADE ORO FACIAL.

JR – Qual é sua fonte de inspiração?
IR-Hoje são as pessoas, quando vejo alguém com uma face interessante, dá vontade de pintar, gosto de retratar as pessoas. Mesmo achando que tenho muito que apreender sobre arte, gosto de retratar alguém.

JR – Como você entrou para o mundo da Arte?
IR – Quando fiz faculdade de fonoaudiologia, durante as aulas eu desenhava as peças cadavéricas e nas aulas de laboratório desenhava as células vista no microscópio, mas a frente do curso no 3º ano, tínhamos que ver o paciente e fazer um diagnóstico, achar as alterações por hábitos respiratórios ou por hábitos orais e outras causas. Neste momento comecei a ver o envelhecimento e as alterações musculares das pessoas quando era de natureza normal e as que eram por hábitos orais ou respiratórios entre outros hábitos errados de usar a musculatura, e a maneira mais fácil de guardar os nomes das alterações musculares, era pintar e escrever o nome.

JR – Como você começa um quadro?
IR– Preparo a tela e vejo o motivo que vou pintar e faço uma marcação a lápis ou “fusem carvão” vegetal para figura ter um equilíbrio do rosto na tela, quando é uma paisagem eu não desenho, já vou pintando e marcando a tela com pincel.

JR – Que experiência com a arte foi importante para você?
IR-Tive também na faculdade, o exemplo de uma irmã de caridade que lá vivia. Era artista e pintava com muita dificuldade, pintava escondido da irmã Olga. Nos intervalos eu ia ver a irmã pintando no porão da faculdade do Sta. Tereza. Achava lindas as coisas que ela fazia, detalhe: mesmo pintando escondido, eu achava deslumbrante sua pintura. A Irma Olga achava um tempo perdido da irmã. Até quando os cartões da irmã começaram a ser vendidos na papelaria que tinha lá dentro da Faculdade. Tinha também um professor de fotografia o Sr. Botelho marido da Dona Ruth, escritora de Cacheira Paulista, fazia fotos artísticas, eu os admirava muito.

JR – Já pensou em ilustrar um livro?
IR – Ainda não, mas você acaba de me dar uma grande ideia, vou pensar! Vou começar a organizar a sua ideia!

Michelangelo Buonarroti (6 de março de 1475, Caprese /Itália – 18 de fevereiro de 1564 – Roma/Itália

JR – Que artista exerceu maior influência em sua arte?
IR – Michelangelo. Quando visitei a Capela Sistina, comecei a ver figuras humanas pintadas e fui querendo fazer igual! Gosto muito de Cláudio Monet, gosto de retratar figuras, não gosto do abstrato.

JR– A cultura de massa e o constante apelo mediático pelo consumo, se veem refletidos nas expressões artísticas contemporânea? Como?
IR – A cultura em massa está estreitamente ligada ao consumismo, atende a lógica mercadológica para satisfazer os anseios de um mercado capitalista de vender tais produtos e utilizá-los para a propagação de um ideal de vida capitalista e consumista. Que é a realidade atual, aí a reprodutibilidade fácil da indústria, e temos os elementos industriais. Os filósofos e sociólogos alemães da Escola de Frankfurt (representantes da teoria crítica) Theodor e Max Horkheimer foram os primeiros a falar de uma cultura de massa. Para os teóricos, a indústria cultural foi um meio de propagar-se o capitalismo e os seus ideais via arte e cultura.

JR – Como você vê o momento cultural?
 IR – O nosso momento cultural está decadente, perdendo os valores.

JR- A arte está empobrecendo ou apenas cumpre o papel de refletir a sociedade?
IR– As indústrias mantem a população magnetizada pelos domínios consumistas. Nesse sentido, várias distorções sociais foram provocadas concomitantemente à indústria cultural e fez com que distorções culturais fossem normalizadas. Um exemplo dessas distorções foi o holocausto judeu. Manteve a população magnetizada pelos domínios consumistas.

A ideia de cultura de massa perfaz uma noção de que existe um tipo de produção cultural industrial para satisfazer as necessidades de uma indústria capitalista que vende os seus produtos culturais como se fossem algo que se compra em um supermercado. A cultura em massa não é autentica, hoje segue um mercado de vendas da indústria, o povo tem que se sustentar.

A lógica de mercado e venda, como exemplos de cultura popular brasileiras, podemos elencar o samba, a música sertaneja de raiz, a literatura de cordel o axé e o funk carioca, e o clássico foi se perdendo ao longo do tempo. Todos esses elementos são frutos de uma cultura popular autêntica e representam as pessoas que os originaram.

JR – Compartilhe conosco uma qualidade sua que fez com que você chegasse até aqui?
IR – A primeira qualidade é gostar de arte e persistência, ter acessibilidade a arte, querer fazer, ter acesso a arte, ter condições de pagar porque é caro pintar e ter um equilíbrio pela busca do gosto de fazer. O primeiro quadro que fiz, dei para Lilian Magalhães.

JR – Quais são as habilidades fundamentais para o artista de hoje?
IR – Tem que conhecer alguma técnica de pintura para começar, depois por si só vai buscando o conhecimento da pintura, para conhecer arte tem que ter sensibilidade e a acessibilidade à arte, saber algumas técnicas e gostar….

JR – Qual a mensagem você gostaria de passar para os amantes da arte?
IR – Primeiro gostar de arte e ter muita persistência, e ter como sustentar ou pagar, porque é difícil viver de arte.

 JR – Pra você, pichação é arte?
IR – Existe a pichação de vandalismo e a arte de rua, eu particularmente não gosto, vejo para muitos artistas é a forma de expressar a rebeldia, ou a juventude mostrando sua rebeldia, contestação do mundo de hoje.

JR – Como sobreviver de arte no Brasil?
IR – Não sobrevivemos de arte, tem uma minoria que vende arte como a minha, eu não vendo arte, uma ou outra somente. A arte vendida hoje é o papel industrializado, por isso essa distorção cultural sobre a arte.

JR – O que falta para incentivar mais o gosto dos jovens pala arte?
IR – Na verdade, a arte é uma forma de demonstrar, representar uma cultura e o meio que vivemos nos moldam o conhecimento, e vivemos num país pobre. Falta incentivo de todos, família e governo, escola, hoje está difícil até de conservar o patrimônio público.

 JR – Que conselho você daria a um jovem aspirante à artista plástica?
IR- Querer, ter sensibilidade para arte, gostar e ter muita persistência.

JR – Você tem alguma história ou curiosidade que envolva seu trabalho artístico?
IR – A curiosidade que envolve meu trabalho é que quando fiz faculdade eu comecei a pintar as peças cadavérica e as lâminas de estudo em laboratório, neste momento vi que podia fazer uma pintura artística, pintava as lâminas de estudos de laboratório, nas aulas de anatomia pintava os ossos e músculos, essa era a maneira que encontrei de memorizar o conteúdo aprendido. Quando vou fazer um rosto é difícil para eu fazer o que vejo, geralmente estou sempre tentando corrigir as alterações do rosto da pessoa.

JR- Fique à vontade para falar o que quiser.
IR – Par finalizar digo: que hoje meu trabalho de fonoaudiologia que me conduziu a fazer arte. E pinto como hobby, é um passatempo que faço com muito prazer.

JR – MUITÍSSIMO OBRIGADA.
E olhando o sol se pondo no ‘Focinho do cão’, terminamos essa entrevista com emoção e alegria.

 

 

 

 

 

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