Rejane Nascimento: ‘Um amor estranho’

05/04/2021 19:54

Rejane Nascimento

Um amor estranho

Se te perguntassem agora: “o que é o amor?”  O que você responderia?

A maioria de nós relacionaria o amor à felicidade, a alegria, ao acolhimento, diríamos de um amor que compreende, é compensador, que não julga, e está sempre pronto para perdoar caso necessário. Assim o amor foi ensinado sendo relacionado somente a qualidades, não pensamos em um amor com defeitos, que machuca, desaponta, que dói e é feito de uma inquietude que tumultua e como se não fosse o bastante, podemos relacioná-lo a vários outros sofrimentos que também podem ser trazidos juntos com amor; que mesmo sendo estranho, não deixa de ser amor. Sim, parece esquisito falar que são formas de amar. Acreditem! O amor também tem sua forma estranha de ser.

Como assim?  Que amor é esse? Você poderia me perguntar. Eu te diria que talvez seja um amor que vem para ensinar como viver em paz consigo. Porém, para chegarmos até essa paz devemos estar de olhos abertos para enxergar o que esse amor quer nos mostrar.  Este tipo de amor pode causar danos, mas também pode ser fonte de aprendizado se olhamos cuidadosamente, talvez ele venha dizer que precisamos nos valorizar e que não devemos continuar com essa crueldade com nós mesmos.  Este movimento apreensivo do amor nos encaminha para que vejamos os abismos que estão a nossa volta, portanto ele vem como um alerta fazendo que olhemos de frente e de forma verdadeira ao nosso redor. Sim, quando percebemos essa realidade, talvez fiquemos em pedaços.

Precisamos nos reconhecer e ser reconhecidos e por questões da vida nos perdemos de nós mesmos, podemos aqui citar uma frase da música de Arnaldo Antunes, “O seu olhar me olha… O seu olhar melhora o meu…” quando ainda bem pequemos e sem muitos saberes, podemos ver um outro que nos olha e que, como um espelho, nos confirma que somos um, um inteiro no mundo. Com o tempo e acontecimentos da vida podemos perder este olhar e talvez precisar de um “amor estranho” para novamente nos olhar como um inteiro e nos reconstruir e deste modo ter uma vida leve e mais harmônica.

Quando sentimos esse amor, temos a sensação de estar à beira de um despenhadeiro e isso pode ser tão profundo e intenso a ponto de trazer a claridade, então abrimos os olhos e podemos procurar novamente o nosso lugar. Quando encontramos esse lugar, passamos a existir onde nunca existimos, podemos ser vistos onde nunca nos viram e assim somos acolhidos e não excluídos. Um amor que de maneira distorcida nos faz ter o olhar de cada um e nos convoca a olharmos para cada um e isso não é o bastante, então olhamos para nós mesmos. Aqui percebemos que podemos chamar de amor o que nos trouxe o movimento fazendo-nos descobrir que podemos sair do lugar para ter uma vida melhor. Um amor que nos leva para além e nos conduz a traçarmos o nosso próprio caminho, por conta própria, mas ao mesmo tempo conectados a tudo que é necessário para uma vida mais plena.

Deste modo, podemos compreender que esse amor mesmo inicialmente nos fazendo sentir uma dor profunda, uma inquietação, um medo inexplicável, raivas, tristezas… É um amor que vem mostrar algo maior, que só foi possível enxergar pela vivência deste “amor estranho”, mas que guia-nos, dando-nos a direção na qual devemos olhar e seguir, de tal modo, que é possível aceita-lo, reconhecê-lo e ainda agradecê-lo por guiar-nos para um caminho melhor e mais livre, o nosso caminho. Um caminho de crescimento com um amor muito mais saudável, o amor próprio.

No entanto, não podemos ignorar que neste contexto do amor próprio também é necessário, em determinado momento, o olhar do outro trazendo a construção da autoestima que se dá pela repetição desse olhar no transcorrer de nossas vidas, do mesmo modo que nossa identidade é construída na relação com o outro, o amor próprio também só pode ser construído e sentido através das experiências vividas com o outro.  Então, cabe a nós, a partir desta descoberta, buscarmos experiências mais saudáveis que promovam o nosso crescimento melhorando as versões de nós mesmos das quais poderemos nos orgulhar sentindo um amor próprio significativo.

Texto publicado no livro: ‘Além  da palavra’, volume V  

Rejane Nascimento

rejane.d@hotmail.com

 

 

 

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