Ranielton (Rannie) Lucarelli Dario Colle: ‘Rita’

14/11/2017 13:44

“Rita tinha vinte e dois anos de idade. Era bonita. Não era alta, tinha cabelos e olhos escuros. A pele morena realçava o seu corpo e o conjunto fazia dela uma mulher atraente.”

 

– Eu não concordo contigo – disse Rita um pouco antes de partir para casa. Sem ação, João ficou observando-a partir. Queria entender as mulheres. Sua paixão e sua frieza. Afinal, o comportamento de Rita não fazia sentido para ele.

Rita tinha vinte e dois anos de idade. Era bonita. Não era alta, tinha cabelos e olhos escuros. A pele morena realçava o seu corpo e o conjunto fazia dela uma mulher atraente.

Quando criança, Rita gostava de brincar com as outras meninas e meninos do bairro, como qualquer criança normal. Seu mundo mudou drasticamente, porém, quando, aos doze anos de idade, inadvertidamente ao entrar no quarto de sua mãe a encontrou fazendo sexo com o seu namorado. Ela pediu desculpas, saiu, fechou a porta rapidamente, mas três dias depois do ocorrido, quando sua mãe estava no trabalho, ela recebeu uma visita inesperada:

– Oi, tudo bem?

– Oi, a minha mãe tá no trabalho.

– Eu sei é que eu… Eu queria falar com você…

– Fala…

– Você não vai me deixar entrar?

– Entra…

E logo depois de entrar, ele, o namorado de sua mãe, fitando-a como um lobo fita um cordeiro encurralado e indefeso, disse em tom despreocupado e casual:

– Você é muito bonita, sabia?

– Ah?

– Sabe, aquele dia que você abriu a porta do quarto? Naquele momento eu fiquei hipnotizado… depois daquilo eu não conseguia mais parar de pensar em você. – Ele disse isso, aproximando o seu braço e tocando levemente com a mão em seu rosto, logo descendo para os seus seios, no que Rita recuou, assustada.

– Calma! – ele disse – Eu não vou te fazer mal… você é tão atraente, como eu poderia machucá-la? Você não gosta quando eu te toco?

– Não!

– Ah, é só porque você não está acostumada e está com medo… mas eu te garanto que é muito bom… sabe, eu tenho pensado em deixar a sua mãe, ela já não é boa o suficiente para mim…

– Mas por quê? Ela gosta tanto de ti…

– Eu também gosto muito dela sabe… mas eu tenho outras necessidades, sabe? – Ele disse isso de tal forma, tocando-a, que Rita se encheu de repulsa, mas ficou ali, parada, olhando para ele, aterrorizada, até que criou coragem e disse:

– A mamãe vai ficar muito triste… – Ele parou de tocá-la e recuou um pouco, observando-a antes de dizer:

– É, eu também vou ficar triste… mas ela vai ficar mais triste ainda quando souber que eu a deixei por sua culpa.

– Minha culpa? – Rita não sabia o que fazer ou o que dizer. Lembrava-se de como o seu pai espancava sua mãe, e de como sua mãe demorou em se recuperar da separação. Lembrava-se das noites de choro e desespero de sua mãe, da sua solidão e de sua amargura, até estar namorando novamente. Sua mãe era um tipo de mulher que não sabia viver sem estar em um relacionamento. Quando estava sozinha, vivia bebendo e caindo pelos cantos, estava sempre triste e chorando, desanimada. Ela não fazia comida, não arrumava a casa, e vivia brigando com Rita e a culpando por tudo que havia dado de errado em sua vida.

Por isso, o simples vislumbre de sua mãe decadente de novo fazia Rita entrar em pânico:

– Minha culpa? O que foi que eu fiz? Foi por causa daquele dia? Desculpa…

Vendo a vulnerabilidade de Rita, ele disse: – Não exatamente.–tocando novamente com suas mãos ásperas em sua pele macia e delicada. Rita estava com nojo, mas não sabia exatamente o porquê, e com medo, deixou que ele avançasse com a boca em seus seios e a levasse para o quarto. Enquanto a violava ele a enchia de elogios, e dizia que aquele seria um segredo só deles, que enquanto eles pudessem ter momentos como aquele, ele jamais deixaria sua mãe… Após ejacular, ele saiu de cima dela, beijando o seu rosto, elogiando novamente sua beleza, dizendo também que a amava muito, muito mais do que a sua mãe…

Depois se vestiu, pedindo desculpas por ter que ir embora.

Rita tinha permitido a tudo imóvel, paralisada como uma boneca. Enquanto ele a penetrava, e dolorosamente rompia o seu hímen, duas lágrimas saíram solitárias por seus olhos. E um mundo de alegrias e ilusões infantis morria para ela.

Ela gemeu de dor, e isso deve tê-lo excitado, pois ele sorriu e se tornou mais voraz em seu ato. Rita queria dizer para sua mãe, queria que ela nunca mais o visse, queria fugir, se esconder, morrer… estava triste, vencida e humilhada. Mas, acima de tudo tinha medo! Não sabia como sua mãe poderia reagir… ele havia dito que a culpa era dela. E ela tinha medo de que sua mãe a culpasse também… porque ela se sentia culpada. E por isso, sua mãe nunca soube do que ocorreu naquela tarde, nem em tantas outras…

João ainda estava com a frase de Rita na cabeça: “Eu não concordo contigo”… Mas o que havia para concordar? Ele apenas tinha-lhe dito, ao ver um casal de namorados na rua, enquanto ele a acompanhava até sua casa, que achava tão bom quando as pessoas estavam se amando. Que não havia nada mais puro que isso.

João sabia que Rita sabia que ele tinha uma quedinha por ela. Mais do que uma quedinha, para falar a verdade. E talvez aquela fosse a forma dela lhe dizer que não estava a fim dele.

Eles eram vizinhos desde sempre e, desde sempre, Rita fora sua grande paixão… ele viu Rita crescer e se tornar uma mulher e viu o sofrimento dela quando seu padrasto morreu. E, naquele dia, vendo suas lágrimas no velório, há pouco mais dois anos, ele decidiu que faria de tudo para que ela nunca mais ficasse triste daquele jeito, e para tê-la como sua mulher.

Rita realmente gostava de João. Ele era seu melhor amigo. No entanto, ela jamais conseguiria se sentir atraída por um homem. E ela não queria que ele tivesse falsas esperanças. Há pouco mais de dois anos seu algoz morrera e ela estava livre. Sua mãe, todavia, entrara em depressão profunda e mal saia da cama agora. Assim, cabia a ela cuidar de sua mãe. E, quando via sua mãe, ela jurava para si mesma que nunca seria como ela. Nunca colocaria sua felicidade nas mãos de outra pessoa.

Rita ainda lembrava-se de tudo… daquela última tarde em que seu padrasto chegara bêbado, e além dos abusos aos quais ela já estava acostumada, ele começou a batê-la e xingá-la. Ele havia perdido o emprego e estava fora de si.

Naquele dia, ela já não era uma menininha indefesa, e o empurrou com força em uma de suas investidas contra ela. E foi só isso. Tonto, ele caiu para trás batendo com a cabeça na quina da mesa antes de desabar no chão. Ele pedia ajuda debilmente enquanto o sangue escorria de sua cabeça, e ela foi sobre ele e apertou o seu pescoço até que ele não dissesse mais nada.

Ela ligou para sua mãe em seu serviço e lhe falou do terrível acidente…

Todos os dias Rita ia com João para o trabalho, e voltava com ele e, embora ele fosse seu melhor amigo, nem ele, nem ninguém, sabia de seus segredos.

E ainda se passaria muito tempo até eles saíssem juntos pela primeira vez quando ele tentaria beijá-la e ela recuaria assustada e o deixaria sozinho, pedindo-lhe desculpas no dia seguinte. E, somente muito tempo depois ela se deixaria tocar novamente, mas ela se tornara fria…

Rita nunca teria uma vida normal, nunca seria como as outras garotas de sua idade, mas havia descoberto que ela não era culpada de nada e que, apesar de tudo, poderia ainda ser feliz!

 

Ranielton (Rannie) Lucarelli Dario Colle – rannyhell@hotmail.com

 

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N.A. Rita é uma personagem de ficção, mas basta uma rápida pesquisa no Google para conhecermos a história de outras tantas Ritas que sofrem diariamente o abuso masculino, muitas vezes por parte daqueles em quem mais confiam e que deveriam protegê-las.

O Brasil ainda sofre com uma extrema carência de dados sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes. O que sabemos é que existem fatores de vulnerabilidade que incidem diretamente sobre o problema, aumentando os casos de violação sobre os direitos.

Dos 13 tipos de violações registradas pelo Disque Denuncia, a violência sexual está em 4º lugar, (25.595 casos registrados em 2014) sendo que, quando ocorre, outros direitos também foram negligenciados, sendo também a criança ou adolescente vítima de violência física e psicológica. O pior é que, em 65% dos casos, pelo menos em 2014, o agressor era alguém do grupo familiar. E a violação se deu na casa dele ou da vítima…

Em muitos casos porém, na maioria deles, como no caso de Rita, nunca ninguém jamais ficará sabendo do que ocorreu porque a própria denúncia envolve a estigmatização da vítima e toda uma dolorosa exposição social…

* Os dados estatísticos foram recolhidos do site www.childwood.org.br

 

 

 

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