Ranielton (Rannie) Lucarelli Dario Colle: ‘O resumo de uma paixão, 1997’

10/10/2017 18:46

Ranielton (Rannie) Lucarelli Dario Colle:

‘O RESUMO DE UMA PAIXÃO, 1997’

 

Ela me olhava de uma forma estranha. Era noite, estávamos felizes, e sentíamos a vida correr em nossas veias. Seus olhos, de um castanho amendoado, eram profundos e me atraiam para a confusão de sua alma. E embora nos conhecêssemos há pouco, ela sabia que me tinha, que me possuía e, ah, éramos tão jovens! Eu estava entregue a ela, era um eterno refém da dependência de seu sorriso… eu seria seu lacaio fiel se ela assim o quisesse. Ela era o meu vício.

Se nossas ações nos definem, como eu poderia ser definido naquela época? Eu não era nada. E não me importava com nada. Não me importava comigo, com meus estudos, com meus pais, meus irmãos, amigos, ninguém! Apenas ela… Eu era um zumbi quando estava sozinho, e me transformava ao vê-la. Nunca havíamos trocado um beijo sequer. Mas eu queria… ah como eu queria! Daria minha vida para apenas tocá-la.

Mas havia uma trava em mim, um medo, um terror de que, depois que eu a tocasse, tudo mudaria e eu perderia aquele encanto mágico para sempre. Então, eu simplesmente andava ao seu lado como o seu melhor amigo. E infelizmente isso não poderia durar. (Ou felizmente, olhando com os olhos de hoje)

Era sexta feira quando o inusitado aconteceu… ela me chamou para ficar comigo a sós, e nos afastamos do casal de amigos que nos acompanhava indo para os fundos do estacionamento do barzinho onde estávamos. Foi ai que ela puxou uma buchinha de pó. E naquele instante eu tive medo. Eu sabia que ela cheirava ocasionalmente, porém, mesmo que nunca houvesse dito isso, eu jamais o fizera.

Foi com uma destreza profissional que ela preparou as duas carreiras, enrolou a nota de cinco reais e cheirou a sua, me passando o canudo em seguida. E, ainda que com medo daquilo e de suas consequências, inexperiente que eu era, eu peguei e cheirei a cocaína pela primeira vez na minha vida. E não senti nada.

Então, depois disso, nos levantamos, ela me olhou em meus olhos, e me pediu um beijo. E eu, perdido de desejo, com uma felicidade transcendental, a beijei, abraçando-a com força e a sentindo, querendo que aquele momento não acabasse…  e foi estranho, porque eu não sabia direito o que fazer, eu não estava preparado para isso. O que aconteceu depois me deixou arrasado:

Como se nada tivesse acontecido, ela me convidou para voltar ao barzinho junto aos outros! E momentos depois, quando eu a perguntei porque ela fizera aquilo, sua resposta me apunhalou: Curiosidade. Aquela pequena morte daquela noite, no entanto, me prendeu ainda mais a ela. Despertou algo que nunca deveria ter sido despertado, algo como a esperança que deveria ficar eternamente encerrada em sua Caixa de Pandora.

A partir daquele dia eu a seguiria ao Inferno se ela lá estivesse. De bar em bar, pelo pequeno mundo underground de Florianópolis até acabar o dinheiro, depois mangueando em pontos de ônibus por dinheiro ou passagens até ter o suficiente para mais uma buchinha de pó… E você deve saber que isso não poderia durar muito tempo.

Na verdade, três dias depois daquele beijo foi o tempo que durou… Na última noite que a vi havíamos conseguido passe de ônibus de um vendedor de cachorro quente, e nos vangloriávamos de nossa performance teatral enquanto cheirávamos a última da noite. Depois nos despedimos, e eu fui para casa pensando que ela estava profundamente viciada e que eu precisava achar um jeito de livrá-la daquilo…

Só que ela não apareceu mais… nem no dia seguinte, nem na semana, nem no mês… E quando tentava entrar em contato, eu era muito mal recebido por seus pais, tendo apenas a informação de que ela viajou…  E, só depois de muito insistir, por meio de carta, é que soube que, aquela fatídica noite não terminara para ela com nossa despedida, mas que, saindo com outras pessoas, ela cheirou ainda mais, e teve uma overdose, com parada respiratória. Ela estava internada em uma clínica de recuperação… e eu, de certa forma, fiquei feliz com isso.

Nossa amizade nos dias que viriam atingiria outro nível. Eu chegaria a ser secretário do N.A. mesmo tendo cheirado apenas três vezes em minha vida e nunca tendo sequer experimentado outra droga… E, infelizmente, fatalmente seis meses depois ela voltaria a recair, e eu desempenharia meu papel na tentativa de trazê-la de volta à sobriedade…

Ela foi novamente internada e eu sonhava com ela morando comigo depois que saísse de lá… Porém a vida deu voltas nesse meio tempo e nós morarmos juntos é algo que nunca aconteceu. E embora tenhamos trocado bastante cartas no período, nós nos afastamos quase que de forma natural.

 

E tudo isso foi há vinte anos… hoje, ela é casada e mãe de família e vive na Itália, e eu, também casado, e feliz com a minha esposa, nunca mais a vi. Ela é, todavia, o registro de um tempo, uma marca na memória, a doce lembrança de alguém que já não somos mais há muito…

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