Ranielton (Rannie) Lucarelli Dario Colle: ‘O que somos?’

07/03/2018 15:49

“O que somos? Durante milênios fomos apenas uma forma de energia, poeira cósmica, sem nenhum poder no universo, vagando de forma aleatória em sua expansão. Sem nenhuma pulsão, sem nenhum desejo, ou sentido além do existir. Até que nos organizarmos, em nossa cegueira, e criarmos um meio de interferir na matéria…”

 

O que somos? Durante milênios fomos apenas uma forma de energia, poeira cósmica, sem nenhum poder no universo, vagando de forma aleatória em sua expansão. Sem nenhuma pulsão, sem nenhum desejo, ou sentido além do existir. Até que nos organizarmos, em nossa cegueira, e criarmos um meio de interferir na matéria…

– Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades…

– E para a Clara o que é que é?

– É tudo.

– É nada.

– Então como é que é?

– É  big, é big…

O tempo. O espaço. As datas. A lógica. A estatística. Os elementos. E tudo aquilo que a humanidade criou para medir sua existência. A própria existência da humanidade. A vida. Nós, todos nós, somos anteriores a isso tudo. Somos a centelha divina.

O que as pessoas hoje chamam de vírus, foi a nossa forma primeira, o nosso primeiro passo para interferirmos no mundo físico. E a partir dai, desse quase nada, demos um salto, pudemos criar e habitar as células, e com as células pudemos nos organizar em formas mais complexas a partir delas, e criamos a vida. E a consciência primitiva. Até que criamos, e habitamos, os corpos, corpos capazes de carregar nossa complexidade e nos dar mais sentidos para percebermos e sentirmos esse outro mundo inédito para nós.

Tudo isso com uma paciência que apenas a imortalidade pode nos dar, com uma organização de milhares e milhares de células diferentes que precisamos agrupar, tudo isso para termos um corpo mais apropriado para poder nos carrega; para podermos sentir o mundo da matéria com as habilidades desenvolvidas nos corpos que criamos.

O problema? Em todas essas formas que criamos, do vírus às células, e delas aos corpos… tudo têm uma existência limitada. Porque tudo está em mutação…

– Olha mãe… eu passei de ano!

– E dai? Não fez mais que a obrigação…

– Me empresta o carro essa noite?

Nossa consciência zerada, a nova ingenuidade da existência física… Você nunca vai entender. Um vínculo tão frágil. Uma linha tão tênue. Só mais uma distração, só mais um acidente… A matéria que utilizamos é muito instável, o corpo frágil e, portanto, só podemos habitá-la por um curto período de tempo. Tão pouco tempo… Tudo tem que estar em ordem, do contrário o corpo se perde, as memórias se perdem, e precisamos de outro corpo, o que não é tão simples assim…

Nosso maior obstáculo, por milênios, foi que todas nossas memórias de nossa existência material se perdiam com o corpo assim que este perecia. E cada vez que entrávamos em um novo precisávamos reaprender tudo de novo, desde como controlá-lo, mexer as pernas, braços, as mãos, e até mesmo os códigos de comunicação que desenvolvemos para nos comunicarmos entre nós nesse universo de matéria… Não podíamos nem mesmo afirmar sermos os mesmos.

– Você já viu o meu apartamento?

– Ah pedro… deixa pra outro dia tá? Já é tarde e eu trabalho amanhã

Com uma organização já bastante complexa, desenvolvemos linguagens faladas, e escritas, de forma a preservar os conhecimentos que adquirimos sobre a nossa existência, e a forma como conseguimos manipular o universo físico. E avançamos tanto… crescendo coletivamente, mas perdendo, pessoalmente, tudo a cada corpo abandonado.

– Não chora, a vovó é agora uma estrelinha lá no céu…

– Mas mãe, eu estou com saudades

– Eu também estou meu anjo, eu também estou.

Precisávamos crescer energeticamente também na forma imaterial, e tivemos que descobrir uma forma de não perdermos tudo quando deixamos o corpo, de modo que nossa existência não fosse mais fragmentada como apenas milhares de partículas irracionalmente ansiosas por habitar um corpo, e poder sentir com o tato, a visão, o olfato e o paladar… e interferir no mundo material enquanto milhares de outras partículas se desprendiam dos seus corpos, e perdiam sua memória e o poder de interferir, num eterno ciclo de começo e fim…

Foram milhões de anos, quase nada, ainda assim uma eternidade perto do tempo de existência de um corpo físico. Mas, finalmente conseguimos isso…

*          *          *

– Eu não sei porque você está fazendo isso, Márcia. Por quê?

– Não tem um porque, eu só não quero mais te ver, é isso, eu não te amo…

– Mas o que é que eu te fiz?

– Nada, é só que… eu não gosto de ti tanto quanto eu deveria… é melhor terminar assim, um dia você ainda vai me agradecer por isso.

– Por favor, não, me dá uma chance…

– Não torna isso mais difícil do que já é Pedro, por favor, vai embora, eu vou entrar…

– Por favor, eu só queria entender…

– Não apareça mais aqui, ok? Vai ser melhor para nós dois.

Quem disse que as coisas precisam de uma explicação? Pedro saiu da frende da casa onde Márcia morava, e caminhou cambaleando até uma pracinha onde chorou exaustivamente sob uma pérgola, onde crescia uma parreira de uvas que hibernava naquele inverno. O dia estava nublado. Pedro só queria deixar de existir, de sofrer, de sentir, de ser… naquela tarde há tantos anos.

As coisas nem sempre são possíveis de explicar, mas nossos sentimentos são uma forma de energia, uma energia que se desprende de nosso corpo e atinge as coisas ao nosso redor. Eu tentei não ser o Pedro naquele momento e nas semanas que se seguiram, por meses… Eu tentei.

Tanto sofrimento, tanta energia negativa lançada no ar naqueles dias em que tantas flores morreram, em que tantos sonhos foram arquivados no ficheiro da memória, no passado, sob o signo da derrota e da desilusão. E todos esses sentimentos foram mascarados, transmutados, de tristeza em revolta, na dor que deu a Pedro uma razão para continuar. E esse era só mais um desfecho, no fim de mais um dia qualquer, em que nada mudaria.

Você vai querer sair de sua casa. Vai sentar no barzinho com seu amigo, o seu melhor amigo, e pedir uma jarra de vinho. Você vai olhar as mesas ao redor. Vai vê-la com as amigas. Léia. A princesa Léia. Vai comentar com o Ricardo. E por um istmo também vai perceber, observar, que as pessoas estão fantasiadas com seus melhores disfarces, nesta noite, para conquistar um flerte, uma companhia ou simplesmente um sorriso e um pouco de diversão, alegria. Tudo para a vida, uma vida construída em bases tão insólitas…

Você vai ouvir as pessoas tentando mostrar o melhor de si, e se perdendo em contradições num jogo onde a mentira e a verdade são circunstanciais, como tudo, nesse minúsculo intervalo de tempo em que habitamos um corpo, e podemos experimentar sensações como a dor, sob suas múltiplas faces, e o prazer, os sabores, os orgasmos, e essa coisa imaterial que se manifesta nos corpos sob a forma de uma química cerebral chamada amor. Também multifacetada, e outras formas, como o ódio

– Oi estranho!

– Oi amor

– Ei… o que você está fazendo?

– Não está óbvio? Estou te empurrando pro quarto…

– Mas calma, já? Assim? Eu nem cheguei em casa direito…

– Eu também não… mas estou com saudade…

*          *          *

– Vai embora! Eu queria que você morresse!

– Adeus, sua vadia egoísta! Espero nunca mais te ver na vida.

Milhões de anos de evolução para terminar aqui. Numa piadinha numa rede social. Num meme. Numa sociedade sem memória, que repete milhares de vezes os mesmos erros. E nenhuma certeza. Mas a dor diminuiu, é fato! Existe menos injustiças no mundo…

Não para aqueles que estão em guerra. Não para os refugiados. Não para as crianças que perderam os pais e os irmãos. Não para os que são discriminados todos os dias, por sua cor, seu sexo, sua sexualidade, ou sua classe. Não para os ofendidos, os rejeitados, os humilhados.

Temos mais conforto do que em qualquer outra época, temos ao nosso alcance mais conhecimento do que jamais tivemos. Porém o medo continua. A ignorância continua. A vaidade continua. A ganância continua. E continuamos suas vítimas, continuamos vítimas de nós mesmos. De nossa pequenez de poeira cósmica, de nossa fraqueza que nos leva a uma vida defendendo os nossos próprios privilégios.

Continuamos imunes a empatia por aquele que não está tão próximo. Intimamente próximo. Continuamos incapazes de compreensão…

– Olha, a coisa está ruim mesmo. Em desde meus quatorze anos de idade eu nunca fiquei tanto tempo sem um emprego…

– Eu sei cara… tu vistes o quanto tem de gente pedindo nos sinais? E o absurdo número de sem tetos nas praças? A situação tá feia…

– É, mas não para todo mundo, você viu? Os bancos bateram recordes de lucros outra vez! E aumentou também o número de bilionários…

– É, mas dinheiro não compra tudo… não compra uma consciência tranquila.

– De qualquer forma seria bom ter um pouco né?

– Sem dúvida.

O pensamento único. Estamos convergindo para uma nova era. Observem e aprendam. O joio e o trigo. Ainda nos dividimos. Estamos morrendo. Quanto tempo até que possamos nos ver outra vez? Despidos de máscaras e de enfeites? Quanto tempo?

A palavra. No princípio era o verbo. O mercado de trabalho não nos aceita mais. Estamos velhos. Mendigar ou morrer.

“Morrer… dormir… ai eis a dúvida ao perpétuo sono…”

– Cara, eu chorei umas três vezes lendo e relendo o teu trabalho.

–Ah, obrigado, nem sei o que dizer…

– Não, ficou muito bom mesmo, sério, excelente!

Os fragmentos da existência que nos formam. Somos a soma de nossas experiências, e os resultados dela. Somos coisas que as palavras não conseguem captar. E somos mais, e muito menos, somos outra coisa, outra história. Não tenha medo de viver…

– Vamos embora?

– Tudo bem, já estou cansado…

Eu fecho os olhos. Apagam-se as luzes… boa noite.

Faz anos que eu não vejo um vaga-lume ou um louva deus… precisamos de outro planeta, e outros corpos, para invadir, devastar, poluir, e abandonar…

Pedro casou e tem três filhos.

 

 

 

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