Ranielton (Rannie) Lucarelli Dario Colle: ‘O gato preto’

02/12/2017 22:00

Ao que tudo indica, havia a crença de que gatos pretos eram bruxas disfarçadas. A associação do bichano com as trevas começou no século XI, ironicamente hoje conhecido como parte do período histórico nomeado como Idade Média e popularmente chamado de ‘Idade das Trevas’.”

 

Tudo começou quando eu vi aquele lindo gato gordo e preto no telhado. Eu não acreditava em superstições, mas naquele dia eu quase bati o carro umas três vezes, e quando eu voltei para casa percebi que o gato me observava sinistramente de cima do telhado.

Apesar de minha impressão, a verdade é que nada me aconteceu aquele dia; tirando esses infelizes infortúnios que não passaram de sustos, estava tudo bem…

Depois, no entanto, eu comecei a ver aquele gato todos os dias, em locais diferentes, e havia algo de estranho e místico em seu olhar, algo que me deixava com medo, e comecei a desconfiar que o bichano me seguia. O pior é que eu comecei a sofrer uma série de pequenos infortúnios que não tardei a associar à visão do bichano. Era muito azar. Então, comecei a procurar na internet as associações que poderiam ter entre minha má sorte e o gato.

E não foi muito difícil de encontrar. Centenas de textos. E mesmo um conto de Edgar Alan Poe, que li, intrigado…

Ao que tudo indica, havia a crença de que gatos pretos eram bruxas disfarçadas. A associação do bichano com as trevas começou no século XI, ironicamente hoje conhecido como parte do período histórico nomeado como Idade Média e popularmente chamado de ‘Idade das Trevas’. Em outras palavras, a associação do gato preto com as trevas, na nossa mentalidade, se iniciou na “Idade das Trevas” o que é, no mínimo, uma ironia…

Tal associação levou o papa Inocêncio VII, no século XIV a colocar esses felinos na lista de seres hereges perseguidos e queimados, ainda vivos, pela Inquisição, que também fazia isso com muitas mulheres acusadas de bruxaria. Antes disso, o papa Gregório IX, em 1233, emitiu uma bula papal, Vox in Rama, que já condenava os gatos pretos como a encarnação de Satanás.

Saber disso me levou a me perguntar: não teriam os antigos um conhecimento sobre esse animal que nós hoje perdemos? Afinal, não era qualquer ignorante que afirmava, mas os próprios Papas da época! A minha pesquisa parecia apenas confirmar minha crença de que todos os meus infortúnios estavam associados à visão desse pequeno mamífero. Bobagem ou não, a lista de coisas ruins que começaram a me ocorrer logo depois de ter visto aquele animal eram enormes, eram grandes demais para que eu pudesse ignorar.

Por isso, à medida que os dias passavam, e eu comecei a perceber que o gato estava emagrecendo e já não era tão vistoso e forte quanto da primeira vez que o vi, eu esbocei um sorriso de malévola felicidade. Eu ainda negava para os outros, e para mim mesmo, que o gato preto tivesse qualquer associação com os males que me aconteciam, todavia, eu sabia que secretamente nutria essa crença.

Os dias foram passando, e eu não tinha mais paz, já não me alimentava direito e comecei a perder peso. Eu vivia nervoso e com medo de cruzar novamente com aquele gato, coisa que acontecia com frequência, e então passava horas a imaginar os males que poderiam me acontecer por causa daquilo, e como eu poderia evitá-los…

O que tornou toda aquela situação insuportável para mim foi quando, ao voltar para casa, depois de uma tarde horrível no trabalho, encontrei a minha esposa de malas prontas:

– Oi! Que malas são essas, Marta? – perguntei, perplexo.

– Eu estou indo embora, não dá mais…- me disse ela, com um misto de cansaço e tristeza que me comoveram. E o diálogo continuou:

– O quê? Mas o que foi que aconteceu?

– Nada, na verdade já venho pensando nisso há bastante tempo… Eu preciso de um tempo, Carlos! Eu não sei se ainda te amo. E você não está ajudando com essa história de azar. Você precisa crescer e assumir a responsabilidade por seus atos. Não existe uma conspiração do universo contra você…

– Não, não do universo, mas… – interrompi minha fala, percebendo o quanto pareceria ridículo dizer que era um gato que estava fazendo aquilo.

– Mas o quê?

– Nada… deixa pra lá…

– Sabe, Carlos, quase bater o carro não é azar! Azar é bater o carro! E você encontrar a mesa do bar onde você costuma tomar uma cervejinha nos fins de tarde de sexta feira ocupada também não é uma má sorte terrível, porque a única mesa disponível é uma ao lado da caixa de som. Essas coisas não são uma prova de que o universo está conspirando contra ti… Vê se cresce, poxa!

– Mas, Marta, você não entende? Aquela mesa sempre esteve vazia antes!

– Ora! Por favor…

E com essas palavras, ela pegou a mala e se foi. Eu comecei a chorar e implorei a ela, mas não teve volta, e aquilo me deixou ainda mais triste e revoltado. A culpa era daquele gato, daquele maldito gato preto. E agora eu tinha a prova cabal de que aquele bichano me amaldiçoara!

No dia seguinte, uma terça-feira a tarde, quando eu estava indo de carro para o trabalho, me deparei com o felino mancando tentando atravessar a rua, visivelmente abatido. Aquilo mexeu comigo. Eu sorri e, tomado de ódio, acelerei o carro e acabei com a raça daquele infeliz.

Eu estava certo de que minha vida agora voltaria ao normal, e cantarolava feliz no carro, na volta do trabalho, naquele mesmo dia…

Não foi bem isso que aconteceu…

Um caminhão cruzou à minha frente.

Hoje faz exatamente sete dias que voltei para casa… os médicos me disseram que tenho muito poucas chances de recuperar o movimento nas minhas pernas e que talvez demore até que eu consiga recuperar a coordenação motora de meu braço esquerdo.

Eu, no entanto, tento ser positivo. O gato estava morto, e com ele meus dias de azar haviam acabado. A prova disso é que minha esposa voltou para casa para cuidar de mim por um tempo até eu estar um pouco melhor.  Ela disse isso, mas essa é também uma prova de que ela ainda me ama. Pelo menos um pouco… E talvez eu consiga convencê-la a voltar para mim…

*     *     *

– É, ele está catatônico, seus olhos não respondem aos estímulos, o que aconteceu?

– Não sei explicar… hoje pela manhã, quando sai para apanhar o jornal, havia um pequeno gato preto em frente a nossa casa dentro de uma caixa de sapatos. Era provavelmente um Bombaim… o pobrezinho parece ter sofrido um acidente e sido socorrido por alguém, que depois o abandonou aqui em frente. O bichinho está com as patas traseiras quebradas e imobilizadas e eu o tranquei no quarto, porque o Carlos começa a tremer se o vê.

– Como assim? Você pode me explicar melhor?

– Foi só isso. Eu não resisti ver o bichinho naquele estado sabe? Eu adoro gatos! Então eu peguei o bichano e o levei para dentro. Achei que o Carlos fosse ficar feliz de ter um companheiro… eu não imaginava, sabe… eu não imaginava… – As lágrimas escorriam pelo rosto de Marta enquanto ela falava. – Eu peguei o gatinho e o coloquei em seu colo, sorrindo… eu disse a ele que agora ele teríamos um companheiro…

– Tá, mas o que é que isso tem a ver?

– É que, quando ele viu o bichano, doutor, ele começou a gritar, seus olhos pareciam os de um lunático, e ele começou a enforcar o pobrezinho… ele quase o matou… Consegui tirar o bichinho de suas mãos, mas desde então ele está assim, paralisado como uma múmia…

– Bem, pode ser um trauma, mas essa é uma história realmente estranha, de qualquer forma nós vamos levá-lo e fazer novos exames… talvez ele tenha que ficar internado por tempo indeterminado.

– Tudo bem doutor… o que for melhor para ele…

*     *     *

Enquanto os médicos carregavam o paciente paraplégico e catatônico, em sua cadeira de rodas, para a ambulância, Marta segurava e acariciava o gatinho contra o seu peito, que ronronava feliz para ela, e abria um sorriso em seu rosto lavado pelas lágrimas ante a tragédia que acometera aquele que, até bem pouco tempo, havia sido o amor de sua vida…

*     *     *

Para além das crenças de que o Gato Preto dá azar, iniciadas na idade média, existe também uma crença que remonta à Pérsia Antiga e, segundo essa crença, alguém ao atingir um gato preto, ao fazer-lhe qualquer mal, na verdade estaria fazendo mal a si mesmo.

Isso porque, na Pérsia, acreditava-se que o Gato Preto era um espírito amigo, criado especialmente para fazer companhia ao homem em sua passagem pela terra…

 Alguns historiadores também acreditam que a perseguição aos gatos, não apenas os pretos, na Idade Média, tenha contribuído para a epidemia da peste negra. Isso porque, uma vez que se  dizimou a população de gatos, predadores naturais dos ratos, que eram os transmissores da doença, sua população cresceu assustadoramente…

 

Ranielton (Rannie) Lucazrelli Dario Colle – rannyhell@hotmail.com

 

 

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