Ranielton (Rannie) Lucarelli Dario Colle: ‘Era tarde…?’

08/02/2018 22:18

“Estava difícil pensar com lógica. A dor era tanta que parecia que eu havia perdido tudo, que toda minha vida não passava de uma farsa. Mas não foi bem assim que aconteceu…”

 

Estava difícil pensar com lógica. A dor era tanta que parecia que eu havia perdido tudo, que toda minha vida não passava de uma farsa. Mas não foi bem assim que aconteceu…

Quando eu conheci Anne, há tantos anos, ela era noiva de meu amigo Rafael. E é difícil explicar, pois nunca senti a menor atração por mulheres; por vezes, só ao imaginar o corpo de uma mulher nua, eu tinha nojo. Por quê? Eu não sei… Mas não é meu interesse aqui entrar nessas questões de gênero, mesmo porque eu não tinha verdadeiramente uma vida sexual ativa na época.

Mas Anne, Anne era diferente. Havia uma sintonia entre nós. Era nos encontrarmos e a conversa fluía naturalmente. Eu não conseguia desviar a atenção de seu rosto e de seu sorriso. Seus olhos tinham um brilho intenso, e ela me passava uma energia que era difícil de compreender. Então, naturalmente, nos tornamos “quase que” melhores amigos. E acho que eu só não admitia isso abertamente porque não fazia sentido, ela era “apenas” a noiva de um velho amigo meu.

Anne era linda, tinha cabelos e olhos escuros, além de um corpo cuja beleza estava em total harmonia com o grande ser humano que ela era. Tinha um bonito quadril, não era gorda, e seus seios eram relativamente pequenos. E dizer isso é o suficiente, não gosto muito da ideia de descrevê-la, de compartilhar sua imagem, e tenho vontade de guardá-la só para mim, pois é tudo que me restou…

Todavia, o que é o amor? Eu não a amava! E isso está muito claro. Na época em que nos conhecemos eu estava começando a descobrir minha sexualidade. E me interessar por alguns garotos. Mas tem coisas que são inexplicáveis e que fogem ao nosso controle. E a nossa conexão era uma delas. Em qualquer grupo de pessoas que se reunisse, e em que estávamos nós dois, invariavelmente, terminávamos juntos, alegres, rindo e conversando um com o outro. E, óbvio, depois de algum tempo, até o próprio Rafael começou a sentir ciúmes. Volta e meia ele me falava:

– É, Daniel, se tu gostasse de mulheres eu ia ficar realmente desconfiado de vocês dois… Poxa, vê se deixa um pouquinho da minha noiva para mim…

Naquele tempo eu não entendia, mas creio que ele estava certo em ter ciúmes, pois juntos parecíamos nos divertir mais que todos. E ela parecia muito mais feliz quando estava comigo do que quando ele estava com ela. E, confesso, não sei por que me senti mau quando ela me falou que eles haviam marcado a data do casamento. Eu fiquei muito triste, sem saber explicar o motivo quando recebi o convite de casamento.

Naqueles dias, três anos depois de ter conhecido Anne, eu namorava um garoto chamado César. Ele era um fofo. E ele não conseguia entender por que eu me transformara de um cara alegre e gentil, numa pessoa grosseira e baixo-astral, e por que não queria mais fazer sexo, e por que eu o repelia quando ele tentava me abraçar e me beijar…

Não vou descrevê-lo aqui… eu fui injusto e ingrato com ele. E, um mês depois de ter recebido o convite do casamento de Anne, nós terminamos. Foram dias tristes aqueles. De sorriso forçado. E, não sei o porquê, mas na festa de casamento me pareceu que ela também não estava tão feliz, e que ficou visivelmente triste ou abalada ao me ver. E isso fez com que eu me retirasse…

Nos primeiros meses de seu casamento nós nos afastamos; eu cai na boemia e até numa certa promiscuidade, coisa difícil de entender para alguém como eu que nunca foi muito ligado em sexo.

E depois conheci Tiago, e tivemos um romance, quase que praticamente passando a morar juntos. Mas foi nesse tempo, com um ano e meio de casada, que ela me procurou, chorando. Anne e Rafael haviam tido sua primeira grande briga. Lembro-me de suas lágrimas e de meu desejo de abraçá-las, bebê-las, de guardá-las e protegê-las de todo mal em sua pureza liquida e salgada. Lembro-me da  cabeça de Anne deitada sobre o meu colo, com os olhos vermelhos de tanto chorar, e da tristeza de seu coração…

O Tiago estava em casa aquele dia, eu os apresentei, e ele teve a sensibilidade de deixar-nos a sós… eu e Anne. E ela nunca soube, mas aquele dia senti um dos maiores constrangimentos, embaraço e vergonha de minha vida: ela dormiu abraçada a mim, e eu também adormeci num misto de tristeza e felicidade; felicidade, por vê-la novamente depois de tanto tempo, e tristeza por saber que ela estava triste e sofrendo. E foi extremamente embaraçoso para mim acordar junto a Anne com o meu pênis ereto.

Eu me recordo que rimos da situação… “Ops, ereção matinal”, eu disse com o rosto rosado de vergonha, desencostando o meu corpo do dela. E ela riu puxando o elástico do pijama, olhando para ele, e dizendo de forma jocosa: “que bonitinho!”

Depois, eu me levantei e fui ao banheiro fazer xixi, e não sai de lá até que a ereção estivesse acabado…

O que acontece é que, depois daquele dia, suas visitas se tornaram frequentes. E isso começou a irritar o Tiago, que se sentia incomodado com aquela invasão em nosso ninho. E eu, pelo contrário, estava feliz, tão feliz que achava que o Tiago estava também, ou no mínimo indiferente… e assim ele foi se afastando aos poucos até que saiu definitivamente de minha vida.

Um pouco mais de um ano depois de Anne voltar a entrar em contato comigo, eu estava novamente sozinho, embora não sentisse a menor vontade de entrar em um relacionamento, e Rafael pediu o divórcio. Ai ela veio morar provisoriamente comigo. E, apesar do mar de lágrimas que é todo divórcio, e da tristeza de Anne, eu estava cheio de felicidade em meu íntimo.

Dormíamos abraçados ou de conchinha, e eu comecei a sentir-me traído por meu corpo, e atraído pelo dela. Mas não fizemos sexo. Nunca fizemos sexo. O que nós tínhamos era muito maior que isso, e eu não tinha atração por mulheres, e eu não queria arriscar…

Começamos a sair à noite, e eu até tentei ficar com alguns garotos e mesmo com garotas, mas eles me eram indiferentes, e elas me davam nojo… no fim, voltávamos para casa sozinhos, bêbados e rindo.

Planejamos viagens em nossas férias e viajamos pelo mundo, fizemos curso de fotografia, e creio que nunca nos divertimos tanto em nossas vidas. Éramos dois pássaros livres… Por isso tentei de toda a forma dissuadi-la quando ela me disse que ia sair com o Rafael… estávamos morando juntos já há uns três anos naquela época… Naquela ocasião, antes que ela saísse, eu a puxei e a beijei demoradamente. Ela parou e me olhou fixo, eu ia começar a sorrir de alegria quando ela me deu um tapa na cara. E disse que aquilo era covardia. Que eu nunca mais deveria fazer aquilo. Escondi o meu rosto e fui para o meu quarto onde chorei como uma criança. O que havia dado em mim?

Na madrugada daquele dia, Anne chegou a casa chorando, eu já havia bebido uma garrafa de vinho, mas ao vê-la naquele estado abri outra garrafa, e bebemos juntos, e dessa vez ela me beijou, e eu a afastei, e ela me pediu desculpas… e então nos beijamos de novo.

E eu realmente não posso dizer se fizemos sexo porque bebemos muito, mas quando eu acordei no dia seguinte, com a cabeça doendo, estávamos nus e entrelaçados na cama… Como era comum dormirmos juntos, eu não posso afirmar o que aconteceu… Naquele dia ela me deixou.

Soube depois que ela e Rafael haviam voltado, e ela teve um filho no final daquele mesmo ano…

Nunca mais, depois daquele dia fiquei com um garoto… até tentei pagar profissionais do sexo, mas os homens que me davam tesão me deixavam com uma sensação de vazio depois do coito, quando eles iam embora… e com as mulheres, eu, mesmo fingindo que era Anne, eu não conseguia ter nem mesmo ereção.

Fiquei por quase dez anos sem vê-la, quando encontrei com ela em um supermercado. Ela estava com seu filho. E estava separada já de Rafael novamente por uns sete anos. Ficamos nos olhando por um tempo sem saber o que dizer um para o outro. Eu tinha uma vontade imensa de abraçá-la, mas me contive, e acho que ela se conteve também. Foi embaraçoso porque tudo que eu queria era que ela me dissesse que estava tudo bem, que ela me perdoava e que voltaríamos a morar juntos como se todos aqueles anos não tivessem se passado. Mas havia, e ela tinha uma criança, uma menina de dez anos que me lembrava muito alguém, alguém que só reconheci mais tarde, num dia em que olhava para minhas fotos na infância…

Por isso a dor é insuportável. Se eu não a tivesse reencontrado no supermercado aquele dia, há duas semanas atrás, talvez não doesse tanto ter sabido de seu acidente. Não doesse tanto vê-la em coma… não doesse tanto ver Rafael e sua filha… e talvez eu não estivesse com tanto ódio dele. Vê-la apagada num quarto de hospital fez com que eu revesse toda a minha história

 

*          *          *

Anne acordou hoje depois de quase uma semana. O médico disse que vai haver sequelas… e consegui autorização para visitá-la no quarto. Ela abriu um sorriso quando me viu:

– Oi…

– Oi…

– Quer casar comigo? – eu disse e ela abriu um sorriso ainda maior:

– Seu bobo…

– Por quê? É sério… – ai, ela riu:

– A tá… não, mas nós, eu e Jéssica podemos ficar com você enquanto eu me recupero? Vou precisar fazer muita fisioterapia…

Aquilo foi a melhor coisa que eu ouvi em anos! Só não foi melhor que um sim… mas ela estaria comigo, estaríamos juntos novamente… e talvez eu conseguisse a convencer a continuarmos morando juntos…

 

*          *          *

 

O presente conto foi escrito baseado em um antigo poema meu, da década de noventa do século passado chamado Era Tarde.

Abaixo o poema:

 

Era Tarde

 

Começamos já era tarde,

E começamos já errado!

Sem confiabilidade, sem verdade…

Com um prazer superficial,

Nunca tivemos amor…

 

Mas corremos em busca de aventuras,

Conquistando a cada momento,

Nosso espaço e lazer!

Vivendo intensamente cada minuto

Que estivemos juntos,

E morrendo separados em solidão!

 

Fomos como que perfeitos:

Um observador diria; um casal ideal!

E se houvesse amor realmente o seria…

No entanto, fingíamos bem.

 

Você era perfeita:

Nossa máscara ideal…

Destruiu o que sentíamos,

Pois nos gostávamos como irmãos!

Até isso matamos para nos termos…

 

Como erramos em nosso pouco tempo!

Mas, e como vivemos!

Só não tivemos um amor…

Nossa frustração.

 

Era muito bom e,

Muito vazio…

Muita dor e muito ódio!

 

Mas eras linda e corajosa,

Uma grande companheira fiel.

Muito mais do que eu realmente quis para mim.

Eras demais…

 

* * *

 

Hoje distante de ti,

O quão sinto falta da amiga,

Da companheira na solidão que,

Agora é o álcool!

 

Por que padeceste cedo?

Me arrependo de meu egoísmo,

Me arrependo de estar vivo…

 

Sinto falta da tua alma,

Da tua voz, teu jeito de me olhar!

Sou um cadáver ambulante…

 

Começamos já tarde,

Mas corremos em busca de aventuras!

Fomos como que perfeitos…

Você era perfeita!

Como erramos em nosso pouco tempo…

E eu não te… amava.

Acho…

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