Ranielton (Rannie) Lucarelli Dario Colle: ‘A troca’

05/01/2018 23:28

“Um mês e duas semanas… uma enfermeira estranha, e mais ninguém. Tudo que eu lembrava era do homem cruzando a frente de meu carro. A morte. A freada. E as pessoas se avolumando ao redor do carro como abelhas em torno do mel.”

 

Era um dia nublado. Eu precisei tomar um café bem forte para me obrigar a acordar. Minha cabeça ainda doía como se eu estivesse com uma forte ressaca. Porém, eu tinha que ir para o trabalho. Havia uma importante reunião de negócios com toda a diretoria da empresa. Eu tinha uma sensação esquisita. Sonhara muito durante a noite. E tudo que eu pensava é que precisava correr. Que estava atrasado.

Fui dirigindo agradecido pelas nuvens. A luz me incomodava. O fato do sol não bater diretamente em meus olhos era uma benção. Um dia bonito, eu diria. Temperatura agradável. Tudo certo, não fosse pela minha cabeça. Eu não saíra na noite anterior. E também não bebera. O único incidente foi uma briga com minha namorada, ex-namorada agora. E, como isso não me incomodava nem um pouco (fazia tempo que eu procurava desculpas para terminar) duvidava que pudesse ser a causa de minha enxaqueca. Era mais provável que fosse o início de um resfriado.

O sinal vermelho. A rua vazia. Um cão vadio. Quando o sinal abriu, eu acelerei, e do nada, como num passe de mágica, um homem surgiu atravessando a rua. Eu freei. Não deu tempo.

Eu não podia perder aquela reunião por nada. O homem, cabelos castanhos, óculos escuros, vestindo um terno preto, carregando uma maleta preta, caiu na frente do carro. E não se mexeu mais. Sangue escorria de sua cabeça. E tudo se passava como se fosse em câmera lenta. Era como a cena de um filme. Eu não sai de trás do volante. O airbag fora acionado. Eu olhava tudo, estático, paralisado, sem conseguir me mover.

Do nada, começaram a brotar pessoas. Algumas falavam comigo, mas eu não conseguia distinguir os sons, que pareciam confusos e distantes. Outras se acercavam do homem que se colocara na minha frente e selara o nosso destino. Terno preto. Maleta preta. Óculos escuros. Tinha alguém tentando reanimá-lo. As sirenes ecoavam de longe. Havia uma névoa na minha visão. Ninguém seria chamado em caso de minha morte. Uma coroa de flores mandada pela empresa. Todavia, duvido que meu irmão, com quem eu não falo há anos, vá viajar para comparecer ao meu enterro. Um homem de terno preto. E uma maleta…

No quarto do hospital, eu acordei no momento que a enfermeira limpava o meu corpo com um pano úmido. Foi constrangedor. Forcei um sorriso sem graça e a cumprimentei:

– Oi…

– Ah? Oi… eu vou chamar o doutor…

– Não, primeiro me diz, eu estou há quanto tempo aqui?

– O quê?

– Eu estou há quanto tempo aqui?

– Bem… hoje faz um mês e duas semanas exatamente. É um milagre que você tenha acordado.

– Como assim?

– Eu vou chamar o médico de plantão, e ai você conversa com ele, e ele lhe explica tudo, OK? Um minutinho só…

Um mês e duas semanas… uma enfermeira estranha, e mais ninguém. Tudo que eu lembrava era do homem cruzando a frente de meu carro. A morte. A freada. E as pessoas se avolumando ao redor do carro como abelhas em torno do mel. Eu tinha uma reunião importante naquele dia. A empresa… como será que eles resolveram tudo sem mim? Bem, eu logo descobriria. Quando o médico chegou:

– Boa tarde senhor  Moisés, tudo bem com o senhor?

– Não sei, você que me diga.

– Então… você se lembra do que aconteceu?

– Lembro.

– Bem, você foi atropelado e o carro o atingiu próximo ao quadril. Quando você caiu, bateu com força a cabeça no asfalto fraturando o crânio e rompendo um aneurisma. Você está há um mês e meio de coma e…

– Espere um pouco, você disse Moisés? E eu fui atropelado… eu estava dirigindo o carro…

– Sinto muito senhor, o hospital está em reforma, talvez tenha havido alguma confusão nos prontuários, amanhã cedo o médico responsável virá vê-lo e aí o senhor pode esclarecer tudo com ele…

No dia seguinte o médico apareceu, ele parecia mais jovem do que eu considerava necessário para que fosse confiável, porém eu não tinha muita escolha. O que ele contou era uma loucura total. Eles me trataram o tempo todo como se eu fosse o homem que havia sido atropelado. E não o motorista do carro. Eu fiquei um mês e meio no hospital sendo tratado como senhor Moisés. Era surreal! Eu precisava esclarecer aquilo, porque a empresa poderia pensar que eu morrera no acidente e, consequentemente, ter me substituído.

Fiquei imaginando se eles teriam enviado uma coroa de flores para o cadáver. E depois pensei porque ninguém, mesmo da empresa, não reconhecendo o outro cadáver, não corrigira o erro… E minha ex-namorada, fiquei triste ao saber que ela não foi nem me ver; havíamos brigado, mas eu achava que ela deveria sentir alguma coisinha por mim, afinal tínhamos acabado de romper e as coisas não se apagam assim.

* – * – *

– Oi, filho…

– Quem é você?

– Eu sou sua mãe, Moisés. Você não imagina a minha felicidade quando o médico ligou dizendo que você acordou. Ele só me deixou vê-lo agora, só que disse que você está tendo um problema de identidade…

– Como assim, Moisés? Meu nome é André, e eu estava dirigindo meu carro quando atropelei um cara e desmaiei, só isso. Que loucura é essa? Eu, definitivamente, não conheço a senhora, nem esse tal de Moisés. É alguma brincadeira de mau gosto? Por favor, chame o responsável, eu quero falar com o responsável…

A mulher se desfazia em lágrimas, e eu não sabia o que fazer, era uma estranha e eu precisava provar que eu era eu! Ou não era…

Pesquisando na internet pelo celular que disseram que era o meu (um aparelho que eu nunca vi) descobri que o motorista que supostamente me atropelou havia tido um derrame e falecido no local do acidente. Encostei a cabeça no ombro daquela estranha que disse que era minha mãe, e ainda estava lá, sentada ao lado da cama, e comecei a chorar também…

 

Ranielton (Rannie) Lucarelli Dario Colle – rannyhell@hotmail.com

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