Ranielton (Rannie) Dario Colle: ‘O sonho de Ana’

17/05/2017 14:20

Ranielton (Rannie) Dario Cole: ‘O sonho de Ana’

 

Aquele sábado era um dia diferente. Ao chegar a casa após o trabalho, Ana só pensava em descansar. Dormir. Dormir. E dormir. Afinal, ser atendente de telemarketing não era nada fácil. Fazia dias que ela sonhava uns sonhos estranhos como se fosse outra pessoa e, nesses sonhos, ela era realmente feliz, pois não levava desaforo para casa, não escutava nenhum insulto, e era realmente amada.

Há pouco menos de um ano, Ana perdera sua filha num acidente de trânsito e, não bastasse isso, havia sempre a sociedade a lhe cobrar que ela fosse melhor. E que estivesse melhor! Afinal, a vida tinha que continuar e as pessoas vivem conforme os seus méritos. Ao menos é o que pregava a sociedade na qual ela estava inserida. E a luta pela sobrevivência não deixava à Ana muito tempo para pensar a respeito disso.

Quando sua filha morreu, seu mundo virou de cabeça para baixo. Ana pediu demissão do banco onde trabalhava como gerente pessoal e ficou em casa… foram meses até que a necessidade a fez procurar um emprego, mesmo que ela ainda se sentisse morta por dentro.

 

– Oi, o que você está fazendo?

– Fugindo! E você?

– Ah, queria poder ficar junto contigo. Posso fugir também?

– Pode, vem, vamos…

– Obrigado, mamãe!

 

Atendente de telemarketing é fácil, os outros diziam. É só não levar para o lado pessoal. Você veste uma máscara ao entrar, e tira ao sair. Pronto! Mas, como não levar para o lado pessoal as injúrias machistas? As cantadas ignóbeis? As ofensas a sua inteligência? Era difícil, raro, o dia em que ela não saia de lá pesada.

 

– Do que você está fugindo?

– Da vida!

– Por que você está fugindo da vida?

– Porque você foi embora e eu não consigo viver sem você.

– Ah, não fica assim não. Eu sempre estarei com você, mamãe

– Promete…

– Prometo.

 

Há várias teorias aceitas sobre os sonhos. A mais comum é que eles são a forma de nosso subconsciente se comunicar conosco através de fragmentos de imagens acumuladas ao longo do dia ou de nossa vida. Uma forma de dar vazão a medos e desejos que estão reprimidos. Outra teoria, mais boba, é que nos sonhos saímos de nosso corpo e viajamos para outra dimensão. Uma bobagem, é claro. Como a teoria de que nos comunicamos com os mortos… tudo superstições bobas.

Ana se deitou em sua cama e fechou os olhos. Mas, por mais cansada que estivesse, ela não conseguia dormir. Ela tentou rezar, contar carneirinhos, tomou Rivotril, mas, nada! E, de repente, parece que o cansaço sumiu de vez. Ela se levantou e foi até a cozinha.

 

– Oi, querida, o que você vai querer para o café?

– Oi!… hum, eu estou meio sonolenta ainda… mas pode ser uma torradinha com geleia de framboesa?

– Uma torradinha com geleia de framboesa saindo.

– E você?

– Eu quero o mesmo que a mamãe

 

Ana se virou para a mesa e lá estava Francine, sua filha. Olhou novamente para Jorge, o seu marido, e sorriu. O acidente ocorrera há mais de um ano, e depois dele seu casamento se espatifou. O casal não resistiu nem dois meses sem sua filha. E Jorge voltara para sua cidade natal, em Minas Gerais… E, no entanto, estavam todos ali. Ela, sua filha, e seu marido. Ela pensou um pouco. Ficou assustada. Estava com medo.

O bom senso, porém, lhe dizia para que, se fosse um sonho, ela deveria aproveitá-lo ao máximo, porque esse era diferente dos outros e era a melhor coisa que poderia acontecer em sua vida… ainda que fosse só um sonho. Era estranho, porque nada parecia fragmentado e tudo fazia sentido, era claro e simples. Enfim, o mais importante de tudo: ela estava verdadeiramente feliz! Ela só queria muito que tudo fosse real. Deus! Por que aquilo não era real? Uma lágrima começava a escorrer por seu rosto, quando seus pensamentos foram abortados por Jorge, que chegou sorrateiramente por suas costas, abraçou-a e disse:

– O que houve, amor? Você está tão estranha hoje… você parece distante.

Ana teve um arrepio ao sentir os braços de Jorge envolverem seu corpo, e as lágrimas correram soltas através de sua face: sentir o seu calor humano depois de tanto tempo era a melhor sensação que ela tinha em meses, e não obstante, parecia a melhor sensação de toda a sua vida:

– Não, nada… é que, eu estava pensando; como a gente é feliz, não? Olha que filha perfeita nós temos! Podia ser assim sempre, né?

– Ah, querida não chore… nada dura para sempre…

– O quê?

De repente Ana entrou em pânico e tudo escureceu à sua frente: Ela achou que fosse cair. E ela viu tudo desmoronando à sua frente. Só que Jorge estava ali e a segurou.

– Ana? O que houve? Está tudo bem?

– Ã? – disse Ana, olhando ao redor e vendo que tudo estava intacto – está tudo bem sim, acho que tive uma queda de pressão. O que você disse?

– Eu disse que nada dura para sempre, que a Fran vai crescer e talvez você tenha netinhos… vai lá, senta lá com a Fran enquanto eu termino de fazer o nosso café…

– É verdade que a gente vai visitar a vovó hoje, mamãe?

Aquela pergunta de sua filha a colocou novamente em choque: No dia do acidente, Jorge e sua filha tinham ido visitar sua mãe, e ela tinha ficado em casa, porque tinha que rever uns papéis do trabalho. Foi por isso que ela mentiu alegando não estava se sentindo muito bem, e os estimulou a irem sem ela. Será que ela estava revivendo tudo? Não era possível! Até nos sonhos! Nem mesmo neles ela se livraria de sua culpa e de sua inutilidade? Ela olhou tristemente para sua filha, e lhe disse com a voz pesarosa:

– Não, filhinha, a mamãe não está se sentindo muito bem hoje, mamãe quase caiu ainda agora. Vamos deixar para outro dia, tá?

– Ah, Ana! Nós já tínhamos combinado isso há tanto tempo amor! Poxa, eu quero muito ver a minha mãe… deixa eu ir com a Fran então… amanhã à tarde já estamos de volta. – disse Jorge.

– Por favor, Jorge, fica comigo… eu estou me sentindo tão carente hoje! Por favor…

E era verdade. Ela não pensava no trabalho, nos papéis do banco, ela não pensava em nada… sua única vontade era ficar ali, junto com o seu marido e sua filha, os seus tesouros, e se na segunda feira ela perdesse o emprego, isso não tinha mais a menor importância.

Aquela noite de sábado foi uma noite diferente. Pela primeira vez em muito tempo Ana não se preocupou com mais nada, a não ser estar com as duas pessoas mais importantes de sua vida…

 

Domingo pela manhã ela abriu o jornal e deu de cara com a notícia de um acidente no qual morrera uma menininha de cinco anos, a idade de sua filha, e o motorista, o pai da criança, estava internado embora não corresse risco de vida.

Ana teve uma estranha sensação de déjà vu… tentou lembrar-se de alguma coisa. Nada! Ela tinha a sensação de já ter visto aquela notícia em algum lugar. Mas não… Então lamentou pela família que perdera sua filha, e depois de folhear o resto do jornal, teve uma ideia:

– Ei, Jorge, que tal se a gente for no Hopi Hari com a Fran hoje?

– Hoje? Você se recuperou bem, hem?

– É, sei lá… faz tempo que a gente não faz um mimo pra Fran… Que tal?

– Obaaa! Vamos, papai?

– Ok! Vocês venceram, vamos! Mas no próximo fim de semana a gente vai visitar a vovó, ok?

– EEEE…

– Então tomem esse café rápido!

– Sabe, amor… eu tive um sonho tão estranho… eu era atendente de telemarketing e a Fran tinha morrido…

– Ei, vira essa boca pra lá! Credo! – disse Jorge, batendo três vezes na madeira; e depois, com um sorriso, complementou:

– Se bem que dizem que quando a gente sonha que alguém morre quer dizer ao contrário, que essa pessoa ainda vai viver bastante, né? Então foi uma coisa boa…

– É… é sim – disse Ana pensativa.

Tags: