Ranielton (Ranie) Dario Colle: ‘Capitulina’

10/08/2017 04:55

Ranielton (Rannie) Dario) Colle: ‘CAPITULINA’

 

Não havia muitas chances de a verdade ser dita. Pelo menos não ali, naquela tarde, sob aquele céu. E eu sabia disso: Capitu chorava porque não conseguia entender o que estava acontecendo e, embora eu soubesse, e pudesse lhe explicar, temia que a revelação dos fatos pudesse ser insuportável para ela, uma vez que era insuportável para mim. Eu não a amava mais. Por que eu não a amava mais? Isso nem mesmo eu sabia…

Tudo tivera início há muitos anos, quando eu havia lido Dom Casmurro, de Machado de Assis. A obra em si é intrigante por vários aspectos, mas o que me chamou a atenção foi sua descrição de Capitu. Eu fiquei embriagado. Apaixonado. Capitu, para mim, era uma mulher livre. O tipo de mulher que eu secretamente admirava. E eu queria como minha esposa… não uma mulher livre qualquer, mas Capitu. Eu sonhava em me casar com Capitu.

E, como consequência disso, odiei o tal Bentinho Santiago por suas desconfianças e, depois, por seu crime. E odiei Machado de Assis por tê-la preso naquele romance, e a assassinado, entre suas páginas. A coisa virou uma obsessão para mim. Eu tinha que resgatá-la. Eu precisava salvá-la e tornar-me o seu marido. Mas eu já era um adolescente prestando o vestibular naquela época, e sabia que só poderia fazer isso em minha imaginação…

Alguns meses mais tarde, porém, descobri que existe outro romance que fala de minha amada: “Amor de Capitu” do Fernando Sabino, mas resolvi ignorá-lo. A meu ver, o tal Bentinho já a tinha destruído o bastante, e difamara irremediavelmente o seu nome. Eu não queria que minha amada de “olhos de cigana oblíquos e dissimulados” fosse ainda mais injuriada por qualquer outra leitura. Queria preservá-la inteira, como a percebi na primeira vez que a vi, em sua infância, quando era amiga de Santiago e Escobar.

Comecei o meu plano para resgatá-la, para reescrever a história… nela havia outro garoto que Capitu conhecia além de Santiago e Escobar, eu… e nela, minha amada jamais casaria com Bentinho…

Só que eu já cursava História nesse tempo, e logo vieram as provas semestrais e outras atividades acadêmicas. Além disso, constatei que minha criatividade era muito menor do que eu supusera e, conhecendo mulheres de verdade, esqueci Capitu e sua nova história, mal esboçada, em uma gaveta. Com o passar dos anos, jamais voltei a pensar nisso, e tudo se perdeu…

Sete anos. Eu já cursava meu doutorado em Antropologia Cultural. E, um dia, no café da universidade, eu a vi pela primeira vez:

Juro que pensei que enlouquecia. E não preciso dizer o quanto fiquei chocado: ela era alta e tinha os cabelos grossos, feito em duas tranças, uma atada a outra, morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, boca fina e o queixo largo.

Essa era a exata descrição que Machado de Assis fazia dela em seu livro, então eu tinha certeza de que era ela. Nenhuma ponta de dúvida, por mais absurdo que possa parecer.

Fui até a mesa em que ela conversava com umas amigas, pedi licença e perguntei:

– Capitu?

– Sou eu… mas de onde nos conhecemos? – eu abri um sorriso… aquilo era um milagre:

– Do livro do Machado…

– Rá-Rá-Rá… engraçadinho. Mas sério, da onde nos conhecemos?

– Bem… na verdade nós não nos conhecemos, pelo menos não pessoalmente. Fui amigo de um ex-namorado seu… você está estudando aqui?

– Sim, Língua e Literatura Portuguesa e Alemã… e você?

– Bem, eu faço o Doutorado em Antropologia… talvez nos encontremos ainda? – Eu perguntei, com um sorriso…

– É, pode ser…

Sai daquela mesa com meus olhos brilhando de alegria e satisfação. Tinha a certeza de ter encontrado a mulher da minha vida. Por isso joguei todas as minhas fichas naquele semestre para conquistá-la. E conquistei! Namoramos por dois anos, e nos casamos…

Agora chegamos ao ponto onde começou essa história, depois de quatro anos de casados. Capitu tivera um filho. E, não sei por que diabos, eu enfiei na cabeça que o filho não era meu, mas de meu melhor amigo! Eu, apesar dela nunca ter me dado motivos para desconfiar, tinha certeza de que ela e Escobar estavam tendo um caso. A prova? A impossibilidade de provar! (Alguns procuradores do Bananil me dariam razão com os seus power-points)

Capitu era muito bonita, muito sociável, muito alegre, ao contrário de mim.

E ela chorava agora. E sua antiga felicidade sumira de vez. E, embora eu tentasse, eu não conseguia tratá-la bem. Era um inferno, porque eu me sentia como alguém que corta as asas de um pássaro para que ele não possa mais voar. Só que eu não conseguia fazer nada.

Como eu explicaria para ela a verdade? Como eu diria: – Capitu, você não existe!? Você é apenas uma imaginação antiga minha que se tornou realidade, primeiro como sonho e, agora, como pesadelo? Seria um diálogo surreal demais para que ela suportasse…

Como eu diria para ela: – Capitu, esse seu filho não é meu filho, e ele não existe, assim como você não existe em nenhum outro lugar além da minha imaginação? Isso a destruiria. Eu sei. Seria uma realidade dura demais para ela suportar. Por isso eu não dizia a verdade a ela…

Por isso eu só ficava ali, olhando suas lágrimas enquanto imaginava uma forma de me livrar definitivamente dela, da criança, e de meu melhor amigo…