Rafael Mendes: ‘Constelação Familiar’

17/09/2021 23:12

Rafael Mendes

Constelação Familiar

No ano de 1978 [1], o psicoterapeuta alemão Bert Hellinger criou “um método psicoterapêutico de abordagem sistêmica, energética e fenomenológica [2]” denominado de Constelação Familiar, que visa estudar padrões de comportamento presentes ao longo das gerações de um grupo familiar [3].

A motivação de Hellinger para a criação do método surgiu durante seu tempo como missionário católico entre os zulus da África do Sul. Advindo de uma família cristã, Hellinger estudou em um monastério católico aos 10 anos de idade. Após ser preso em um campo de concentração na Bélgica durante a Segunda Guerra Mundial, adentrou, já na fase adulta, na tradicional Ordem dos Jesuítas [4].

Ao todo, Hellinger permaneceu 16 anos em missão. Nesse tempo, envolveu-se de maneira proeminente na dinâmica social do grupo em que se encontrava. Ademais, formou-se em Educação na Universidade da África do Sul [5], tornando-se responsável por mais de 150 escolas da diocese [6].

Além de sua experiência de missionário em território sul-africano, uma das principais bases do método criado por Hellinger tem origem nas pesquisas da psicoterapeuta norte-americana Virginia Satir sobre as relações familiares [7]. Ele também foi um estudioso da teologia, da filosofia, das artes e da psicanálise, sofrendo, portanto, grande influência dessas áreas.

A Constelação Familiar procura demonstrar como um indivíduo, mesmo que de modo inconsciente, tende a repetir e replicar comportamentos comuns de seu grupo familiar [8]. Assim, o método  […] busca reconhecer a origem dos problemas e/ou alterações trazidas pelo usuário, bem como o que está encoberto nas relações familiares para, por meio do conhecimento das forças que atuam no inconsciente familiar e das leis do relacionamento humano, encontrar a ordem, o pertencimento e o equilíbrio, criando condições para que a pessoa reoriente o seu movimento em direção à cura e ao crescimento [9].

O funcionamento da Constelação Familiar se baseia nas leis básicas do relacionamento humano, chamadas por Hellinger de Ordens do Amor (Familienstellen) [10]. Essas ordens são estruturas que promovem a harmonia nos princípios naturais da vida e dentro do grupo familiar, norteando o rumo dos relacionamentos interpessoais. As Ordens do Amor de Hellinger se dividem entre a “do pertencimento ou vínculo, a da ordem de chegada ou hierarquia, e a do equilíbrio – […] atuam ao mesmo tempo, onde houver pessoas convivendo [11]”. Hellinger afirmava que as ações humanas, quando realizadas segundo as leis básicas do relacionamento humano, propiciam um fluxo harmônico e equilibrado da vida. Se houver dissonância durante esse processo, problemas de saúde, de realização e de relacionamentos podem ocorrer [12]. 

O método, que se faz presente no Sistema Único de Saúde (SUS) enquanto terapia pertencente às Práticas Integrativas e Complementares (PICS), tem por intuito prevenir doenças como a depressão [13]. Também é utilizado, no âmbito judiciário, para a resolução de conflitos. As sessões de terapia podem ser realizadas individualmente ou em grupo, presencialmente ou a distância [14].

Ao longo de sua história, a Constelação Familiar se dividiu em cinco fases. A primeira, denominada de “Constelação Familiar Clássica” (Klassisches Familienstellen), estendeu-se dos anos 1980 até 2002. Nesta fase, uma sessão de Constelação era realizada da seguinte maneira:

Depois que os representantes dos clientes tinham sido posicionados na constelação, eles eram perguntados como eles se sentiam. Depois, eles eram reposicionados até que ao final todos se sentissem bem. Frequentemente, outros representantes ainda eram acrescentados à constelação se necessário. Quando, por exemplo, todos os representantes olhavam para a mesma direção, isso queria dizer: eles estavam olhando para alguém que tinha sido excluído da família ou esquecido. Quando alguém era posicionado para essa pessoa desconhecida, as outras pessoas consteladas respiravam aliviadas. Pois muitos problemas em uma família, inclusive doenças, têm suas raízes na exclusão de um ou mais membros da família – por exemplo, quando uma criança foi doada ou omitida. 

Ao final de uma constelação, perguntava-se a todos os representantes sobre como se sentiam. Então, perguntava-se o mesmo ao cliente. Via de regra, ele ficava muito tocado pelo resultado, pois este era totalmente diferente do que ele tinha imaginado [15].

Já na segunda fase, que se estendeu de 2002 a 2006, Hellinger e sua esposa, Sophie, usavam um método de movimentos da alma. Nesse tipo de procedimento, quase não havia perguntas sobre os sentimentos, expectativas e medos dos envolvidos. A Constelação não era conduzida por um objetivo pré-estabelecido pelo cliente; por isso, era importante que o representante apenas se entregasse ao movimento que o tomava de dentro para fora. Hellinger explica:

Minha esposa e eu tínhamos descoberto que os movimentos dos representantes chegavam a uma maior profundidade quando os perguntava cada vez menos sobre como se sentiam. Cada um que observava tal constelação era profundamente tocado e movido. (…) De repente se revelava algo que acontecia realmente e de forma oculta nas famílias, quando eles se sentiam movidos por uma outra força. Os representantes se sentiam como mediadores, tomados e movidos por uma outra força. Também o constelador se entregava a esses movimentos. Também ele se deixava tomar, levar e conduzir por eles [16].

De 2006 a 2016, dá-se a terceira fase, denominada de Constelação Familiar Espiritual (Geistiges Familienstellen). Tal procedimento foi desenvolvido após as novas descobertas sobre a alma e o espírito e, sobretudo, os novos entendimentos dos limites da consciência. Suas compreensões se aplicam a todas as relações, muito além das esferas individual e familiar.

Nesse caso, o constelador necessita de pouquíssimas informações do cliente, mas se requer muita experiência no trabalho de Constelação. O facilitador se conecta com o grande campo espiritual e escolhe intuitivamente os representantes, que são orientados a desligar a mente e esperar até que sejam tomados por impulsos internos de movimento. Não deve o facilitador interferir muito, mas tão somente posicionar um representante que falta ou substituir alguém que não esteja totalmente centrado. No fim, o próprio constelador coloca o cliente na Constelação. Esse tipo de Constelação pode permanecer “aberto” ou atuar de forma “inacabada”; porém, o estímulo continua a atuar no campo e na alma por anos. Apenas o facilitador decide quando a Constelação está finalizada [17].

A partir de 2017, Bert e Sophie Hellinger passaram a praticar as chamadas “Constelações Familiares Originais Hellinger” (Original Hellinger Familienstellen). Na Hellingerschule, instituição criada para a formação em Constelação Familiar [18], essa modalidade foi exclusivamente difundida junto ao Cosmic Power, uma técnica energética e espiritual de percepção e respiração desenvolvida por Sophie [19].

Durante o novo processo, os representantes e facilitadores da constelação são conduzidos por uma força capaz de superar qualquer separação ou desconexão sem motivo aparente, deixando-se levar pelos movimentos das emoções e do espírito e ultrapassando seus interesses pessoais. Tudo o que se espera alcançar com boa consciência e razão comum passa para um segundo plano. Essas Constelações ocorrem diante dos olhos dos presentes, sem intervenção externa, e são vivenciadas como uma revelação. Soluções que antes sequer seriam consideradas agora se tornam as mais óbvias. A modalidade atual se diferencia ainda mais das anteriores pela consideração de que cada pessoa e seu problema são tão únicos quanto uma impressão digital, por mais semelhantes que os problemas possam ser.

Em 2018, após sofrer um acidente de trânsito aos 93 anos de idade, Bert retirou-se da vida pública e passou a sua esposa, Sophie, a responsabilidade de continuar sua obra e todas as tarefas relacionadas a ela [20].

O uso de Constelações Familiares causa muitos mal-entendidos e opiniões divergentes acerca de como as doenças se relacionam com as desordens familiares e como esse tipo de procedimento pode influenciar na cura. Do ponto de vista de Bert e Sophie, Constelações Familiares não curam doenças; elas curam algo na alma.

As Constelações Familiares Originais Hellinger movimentam aquilo que era “deslocado” no indivíduo e no sistema familiar para sua alma e, dessa forma, chegam ao evento ou pessoa relacionada aos sentimentos e sintomas desse indivíduo [21]. Com o conhecimento dessas ligações e o restabelecimento da ordem no sistema, é possível que a doença se torne supérflua.

Deve-se lembrar que nem todas as doenças significam desordem no sistema familiar e que tais desordens não são as únicas causas de doenças. Isso se mostra verdadeiro especialmente em doenças graves, como o câncer, que não irá desaparecer após uma sessão de Constelação Familiar.

A Constelação é útil e curativa de diversas maneiras, mas não se sabe até onde isso realmente influencia no curso da doença. No entanto, curas extraordinárias podem ocorrer (e não é raro que ocorram), e uma Constelação pode contribuir para que a alma esteja preparada para tal situação.

De maneira geral, a Constelação Familiar serve para desvendar os antecedentes de situações negativas, como vícios e desorientações, levando à percepção de que nunca é tarde demais para encontrar o próprio lugar no mundo e ter uma vida feliz [22].

NOTAS

[1] Disponível em < https://www.hellinger.com/pt/constelacao-familiar/ >. Acessado em 04/09/2021.
[2] Disponível em < https://aps.saude.gov.br/ape/pics/praticasintegrativas >. Acessado em 04/09/2021.
[3] Disponível em < https://www.ibnd.com.br/blog/o-que-e-e-como-funciona-o-processo-de-constelacao-familiar.html >. Acessado em 04/09/2021.
[4] Disponível em < https://iperoxo.com/2017/06/27/era-uma-vez-um-alemao-bert-hellinger/ >. Acessado em 04/09/2021.
[5] Disponível em < https://iperoxo.com/2017/06/27/era-uma-vez-um-alemao-bert-hellinger/ >. Acessado em 04/09/2021.
[6] Disponível em < https://www.hellinger.com/pt/bert-hellinger-o-original/bert-hellinger/biografia-breve/ >. Acessado em 04/09/2021.
[7] Disponível em < https://www.ibnd.com.br/blog/o-que-e-e-como-funciona-o-processo-de-constelacao-familiar.html >. Acessado em 04/09/2021.
[8] Disponível em < https://www.ibnd.com.br/blog/o-que-e-e-como-funciona-o-processo-de-constelacao-familiar.html >. Acessado em 04/09/2021.
[9] Disponível em < https://aps.saude.gov.br/ape/pics/praticasintegrativas >. Acessado em 04/09/2021.
[10] Disponível em < https://www.hellinger.com/pt/constelacao-familiar/ >. Acessado em 04/09/2021.
[11] Disponível em < https://aps.saude.gov.br/ape/pics/praticasintegrativas >. Acessado em 04/09/2021.
[12] Disponível em < https://aps.saude.gov.br/ape/pics/praticasintegrativas >. Acessado em 04/09/2021.
[13] Disponível em < https://aps.saude.gov.br/ape/pics/praticasintegrativas >. Acessado em 04/09/2021.
[14] Disponível em < https://aps.saude.gov.br/ape/pics/praticasintegrativas >. Acessado em 04/09/2021.
[15] Disponível em < https://www.hellinger.com/pt/constelacao-familiar/o-que-e-constelacao-familiar/a-evolucao-de-familienstellen/ >. Acessado em 04/09/2021.
[16] Disponível em < https://www.hellinger.com/pt/constelacao-familiar/o-que-e-constelacao-familiar/a-evolucao-de-familienstellen/ >. Acessado em 04/09/2021.
[17] Disponível em < https://www.hellinger.com/pt/constelacao-familiar/o-que-e-constelacao-familiar/a-evolucao-de-familienstellen/ >. Acessado em 04/09/2021.
[18] Disponível em < https://www.hellinger.com/pt/hellinger-schule/ >. Acessado em 04/09/2021.
[19] Disponível em < https://www.hellinger.com/pt/hellinger-schule/sophie-hellinger/ > Acessado em 04/09/2021.
[20] Disponível em < https://www.hellinger.com/pt/constelacao-familiar/o-que-e-constelacao-familiar/a-evolucao-de-familienstellen/ >. Acessado em 04/09/2021.
[21] Disponível em < https://www.hellinger.com/pt/areas-de-aplicacao/saude-e-doenca/ >. Acessado em 04/09/2021.
[22] Disponível em < https://www.hellinger.com/pt/constelacao-familiar/ >. Acessado em 04/09/2021.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. HELLINGER, B. Constelação Familiar (Familienstellen). In: HELLINGER, B. Hellinger Schule. [S. l.]. Disponível em: https://www.hellinger.com/pt/constelacao-familiar/. Acesso em: 3 set. 2021.
2. HELLINGER, B. A evolução de Familienstellen até o atual Original Hellinger® Familienstellen In: HELLINGER, B. Hellinger Schule. [S. l.]. Disponível em: https://www.hellinger.com/pt/constelacao-familiar/o-que-e-constelacao-familiar/a-evolucao-de-familienstellen/. Acesso em: 3 set. 2021.
3. HELLINGER, S. Sophie Hellinger In: HELLINGER, B. Hellinger Schule. [S. l.]. Disponível em: https://www.hellinger.com/pt/hellinger-schule/sophie-hellinger/. Acesso em: 3 set. 2021.
4. HELLINGER, S. Saúde e Doença In: HELLINGER, B. Hellinger Schule. [S. l.]. Disponível em: https://www.hellinger.com/pt/areas-de-aplicacao/saude-e-doenca/. Acesso em: 3 set. 2021.
5. HELLINGER, S. Biografia de Bert Hellinger * 1925 † 2019 In: HELLINGER, B. Hellinger Schule. [S. l.]. Disponível em: https://www.hellinger.com/pt/bert-hellinger-o-original/bert-hellinger/biografia-breve/. Acesso em: 4 set. 2021.
6. HUBACK, R. O que é e como funciona o processo de Constelação Familiar?. In: IBND: Instituto Brasileiro de Neurodesenvolvimento. [S. l.], 6 maio 2020. Disponível em: https://www.ibnd.com.br/blog/o-que-e-e-como-funciona-o-processo-de-constelacao-familiar.html. Acesso em: 3 set. 2021.
7. ROXO, I. Era uma vez um jovem alemão: uma história sobre Bert Hellinger. In: ROXO, I. Ipê Roxo Instituto. [S. l.], 27 jun. 2017. Disponível em: https://iperoxo.com/2017/06/27/era-uma-vez-um-alemao-bert-hellinger/. Acesso em: 4 set. 2021.
8. SUS. As práticas. In: SUS. Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS). [S. l.]. Disponível em: https://aps.saude.gov.br/ape/pics/praticasintegrativas. Acesso em: 3 set. 2021.

 

 

 

 

 

 

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