Rafael Mendes: ‘A metonímia em textos argumentativos’

02/08/2021 18:51

Rafael Mendes

A metonímia em textos argumentativos

A utilização da linguagem humana no processo de comunicação ultrapassa os limites de uma simples atividade de codificação e decodificação de signos. Através da língua, é possível, aliás, agir sobre o outro e sobre o mundo; afinal, ela está inserida num local de constante interação entre os sujeitos que dela se utilizam. Logo, uma importante estratégia para a elaboração de um texto argumentativo é pensá-lo e colocá-lo como um instrumento de comunicação que visa construir um efeito sobre o interlocutor que o lê, que interage com ele. A construção da argumentação tem por objetivo estabelecer conexões entre fatos, a fim de convencer o interlocutor de que o que está exposto é verdadeiro, trazendo-o para sua perspectiva.

Ao falar em argumentação, é importante salientar a linha tênue que esse tipo textual pode possuir com a produção meramente expositiva. A argumentação requer recursos linguísticos para que se atinja o objetivo de convencimento, para que não se parta para uma simples apresentação de dados e fatos que apenas informe o leitor. Daí a necessidade de, a todo momento, situar o texto num contexto que requer um locutor e um receptor, de modo que o autor consiga manter claros os objetivos que pretende cumprir e os efeitos que pretende causar: convencer o leitor de um ponto de vista ou meramente informá-lo acerca de algo. É aquilo que KOCH (2004, pp. 36-38) apresenta como a intencionalidade instaurada no texto, dando destaque à utilização dos recursos necessários para determinada intenção comunicativa. Por meio da argumentação, não só induzimos alguém a uma perspectiva, mas também assumimos e conduzimos um ponto de vista.

Dada uma breve evocação do que vem a ser um texto argumentativo, vale destacar dois recursos textuais bastante citados em seu ensino e produção: a coesão e a coerência. Ambas tratam de conferir que o texto seguirá apenas em um sentido, garantindo que ele siga uma mesma linha de raciocínio do início ao fim. É a partir desses recursos linguísticos que o texto se organiza; é a partir deles que é possível estabelecer um determinado efeito de sentido. Segundo KOCH (2004, pp. 36-38), a metonímia pode ser uma maneira de conferir coesão a um texto, resgatando elementos ditos anteriormente, dado seu efeito de contiguidade dos termos e de continuidade de sentido.

A metonímia, quando usada na construção textual, é uma figura de linguagem que nos permite resgatar determinado elemento anteriormente citado a partir das partes que o compõem, que continuam dele e nele. Um dos exemplos mais tradicionais é o do autor pela obra: “Eu adoro Machado de Assis”. Na verdade, são os livros do autor que o sujeito adora, e não a pessoa do autor em si. Também se emprega a metonímia ao mencionar “a primeira mulher a ganhar um Nobel” para referir-se à cientista Marie Curie. Essa relação contígua pode se firmar de diversas maneiras. Diferentemente da metáfora, que acaba por abstrair um termo já dito nas relações de semelhança que estabelece, a metonímia confere, na construção da argumentação, a concreticidade necessária a esse tipo textual; afinal, a argumentação e o convencimento se dão com a apresentação de condições de verdade, e não de abstrações metafóricas.

Além de poder ser usada como recurso estrutural na construção do texto e de sua coesão, conforme anteriormente mencionamos, a metonímia pode ser um recurso argumentativo que confere criticidade e proporciona evidências de um ponto de vista por meio da possibilidade de construir referências estratégicas. Vamos a um exemplo. Num texto argumentativo hipotético que trate sobre o processo de vacinação contra a COVID-19 no Brasil e no qual o locutor pretenda argumentar como este está caminhando lentamente, seria oportuno retomar o país referindo-se a ele como “o país que vacinou 88 milhões de habitantes em um mês durante a epidemia de H1N1”  para, em seguida, contrastar essa informação com dados sobre o ritmo da atual vacinação em massa. Esse processo ainda é, de um modo ou de outro, coesivo, pois interliga elementos linguísticos por meio da metonímia; no entanto, isso se faz de maneira a causar um efeito no leitor, que, ao entender que “Brasil” e “o país que vacinou 88 milhões de habitantes em 2010 durante a epidemia de H1N1” têm o mesmo referente e possuem uma relação de contiguidade entre si, percebe que há relevância e verdade na perspectiva do autor do texto quando este argumenta sobre a lentidão do projeto de imunização nacional contra o novo coronavírus em 2021.

Pode-se concluir que o uso da figura de linguagem denominada metonímia, que permite a referência a uma entidade não por si mesma, mas pelas “partes” que a compõem (o autor pela obra, o copo de água pela água do copo, só para citar alguns exemplos), é um recurso estratégico bastante produtivo para ser utilizado em textos argumentativos. É como poder olhar para um objeto por várias perspectivas e “escolher” qual delas será utilizada para referir-se a ele, optando pelo efeito de sentido que aquela escolha trará. Logo, na construção argumentativa, a “parte” selecionada do todo a ser retomado e correferenciado pode ser feita de maneira a conversar com o ponto de vista que se pretende apresentar na argumentação: a partir de seu uso estratégico, é possível trazer fatos coerentes com o ponto de vista, em vez de fazer uso de outra palavra “para não repetir mais do mesmo”, como se costuma fazer ao procurar por meros sinônimos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  1. BARIFOUSE, R. Por que o Brasil vacinou 88 milhões em 3 meses contra H1N1 e agora patina contra a covid-19. BBC News de São Paulo. 17 de abril de 2021. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56774966>. Acessado em 20/04/2021.
  2. KOCH, I. Introdução à Linguística Textual. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

 

Rafael Mendes

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