O Leitor Participa: Silvana Lemes de Souza: ‘Marcas’

18/01/2019 13:15

Sou poeta,/ mas tenho calos em minhas mãos…/ Minhas poesias têm aroma de flores do campo/ e minhas mãos o cheiro das ervas da terra…”

MARCAS

 

Sou poeta,

mas tenho calos em minhas mãos…

Minhas poesias têm aroma de flores do campo

e minhas mãos o cheiro das ervas da terra…

 

 

Meus versos e prosas exalam o odor das flores

e meus cabelos, o cheiro do fogão.

Meus dedos, alecrim, cebola, alho e manjericão…

 

 

Meus olhos são castanhos da cor da terra

E o mundo que me rodeia ainda o vejo colorido!

Minhas unhas são curtas e opacas…

 

 

Meus lábios não beijam,

não estão tingidos de fino batom,

apenas sorriem, cantam baixinho e

declamam poesias

 

 

Minhas mãos estão cobertas por pequenas manchas,

mas mesmo assim ainda dedilham o piano

e digitam as palavras que insistem em brotar aos cântaros desse cérebro.

 

 

Os pés estão cansados com o peso do corpo,

mas ainda conseguem contar o tempo de uma melodia de Bach,

também não se esqueceram de bailar

marcando os compassos ao som de Strauss e Vivaldi.

 

 

Minha voz é rouca e um tanto cansada,

mas ainda conseguem cantar minhas pequenas composições,

que guardadas descansam em meu celular.

 

 

A voz não atinge as notas acima ou abaixo do pentagrama,

muitas vezes mal balbuciam as que estão dentro,

mas a memória reconhece cada nota, cada pausa e cada acorde!

 

 

Todas as escalas maiores e menores

ressoam em meus ouvidos, as colcheias, semicolcheias e fusas

habitam minha cabeça como uma gravação em película de ouro.

 

 

Meu paladar já não é mais o mesmo,

Nem tudo que sempre gostei de saborear,

hoje já não me cai tão bem.

Desejo degustar, mas o organismo não aceita.

 

 

As vozes e ruídos altos sempre me incomodaram,

mas hoje, parecem incomodar muito mais,

o cérebro dói com mil agulhadas,

não suporto mais o que não soa como música!

 

 

O tempo cronológico é meu carrasco,

Não me dá tréguas, insiste em correr.

Tento ser mais esperta e treino meu cérebro enquanto ele passa…

 

 

O corpo já não obedece mais os comandos,

cérebro e corpo parecem incompatíveis,

já não caminham mais na mesma direção…

 

 

O tempo de fato é o meu carrasco,

Ele não quer parar sequer para que eu descanse um pouco,

não consigo persuadi-lo!

Talvez dê tempo de produzir um pouco mais…

 

 

Silvana Lemes de Souza – vanamiletto@gmail.com

 

 

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