O Leitor Participa: Arvelos Vieira, da Academia Cruzeirense de Letras e Artes: “Um ‘mico’ para nunca ser esquecido”

21/02/2019 12:55

Quem nunca ‘pagou um mico’ na vida que atire a primeira pedra. Eu paguei o meu e, confesso, foi de fato um mico para jamais ser esquecido.”

Quem nunca “pagou um mico” na vida que atire a primeira pedra. Eu paguei o meu e, confesso, foi de fato um mico para jamais ser esquecido.

O ano, 1979, eu, na altura dos meus 23 anos de idade, era funcionário da saudosa FNV – Fábrica Nacional de Vagões, hoje MAXION. Ocupava o cargo de Operador de Computador, época que ser integrante de um CPD – Centro de Processamento de Dados de uma empresa, era como se trabalhássemos, digamos, numa NASA, vez que éramos vistos como “seres especiais”.

Os computadores, verdadeiros monstrengos, nada mais eram que “chocolateiras” perto dos “TÁBLETs” de hoje, mas, somente nós entendíamos o funcionamento daquele que era considerado a “engenhoca” do século e que deixava muitos intrigados e curiosos, que não eram do ramo.

A equipe de um “CPD” era formada de “Analistas de Sistemas”, os cérebros pensantes que desenvolviam programas para atender as necessidades dos usuários; “Programadores”, que construíam os programas conforme orientação e supervisão dos Analistas e os “Operadores” da máquina, que colocavam os programas para funcionar, entregando o produto final para os usuários, ou seja, quilos e mais quilos de listagens para que eles debruçassem e trabalhassem em cima. Havia também o “Apoio”, as chamadas digitadoras, que trabalhavam em máquinas perfuradoras de cartões codificados, a linguagem que a máquina reconhecia para processar todo o serviço necessário.

Além da CPU (memória principal), que era o computador em si, haviam os periféricos como a impressora, os drives que acondicionavam os discos móveis, a leitora de cartões, e também a “console”, ou “SPO”, que era conhecida a via de comunicação entre o operador e a máquina. Por ela comandávamos todo o serviço. Dentro dela havia um cilindro contendo todo o abecedário e numerário, que corria de um lado ao outro se comunicando através da digitação. Pedia comandos e os recebia através do operador para o bom andamento do serviço. Sendo esse cilindro móvel, que corria de um lado para outro da máquina, eu passei a utilizá-lo para o meu “bem-estar”, que explicarei a seguir e aí é que está o “ó do borogodó!”

Eu trabalhava das 22 horas às 06 horas da manhã. Dentre as muitas atividades noturnas a serem executadas no computador, existia um programa que se chamava “MT1110”. Era um cadastro geral de materiais, de todo o movimento da fábrica durante o dia, ou seja entrada e saída de tudo dentro da fábrica. À noite esse cadastro era atualizado para que no dia seguinte o pessoal de Compras trabalhasse em cima. Sem esse cadastro o pessoal não podia fazer nada.

O programa que cuidava desse cadastro levava aproximadamente umas 4 horas só de atualização (apenas a máquina processando, ou seja, luzinhas piscando, nada mais do que isso!).

Quando íamos colocar esse programa para processar, primeiro desocupávamos o máximo possível de área ou espaço no disco para comportar o cadastro atualizado a ser criado. Eram imensas as informações para atualização desse cadastro. Quando o computador encerrava a atividade ele removia o cadastro anterior que se encontrava em um disco, e gravava em um outro, o cadastro atualizado, passando em seguida a emitir listagens quilométricas, que levavam mais de uma hora só de impressão.

E o que eu fazia? Quando chegava a vez de acionar esse programa, geralmente por volta das 2 horas da madrugada, e após eu ter tomado todos os cuidados necessários para que o programa fosse executado sem interrupção, eu amarrava um barbante na ponta do cilindro da SPO, esticava-o por toda lateral da sala de operação, até um quartinho lateral que era usado pelos técnicos. Colocava em cima de um arquivo de aço de pastas suspensas que ficava na direção da SPO, uma caixa de papelão vazia, onde vinham acondicionados os formulários que utilizávamos, e numa de suas tampas, eu amarrava a outra ponta do barbante, deixando-o meticulosamente esticado. Em baixo, no chão, acondicionava um acento cumprido de um sofá que havia na recepção, apagava as luzes e dormia ali tranquilamente durante as 4 horas em que a máquina processava o serviço. Se houvesse algum problema de área no disco, ela acionava a console, que esticava o barbante fazendo a caixa cair sobre o meu rosto, me acordando imediatamente. Eu levantava, ia até a máquina atendia a sua necessidade e, ato seguinte, voltava a deitar-me, depois de ter armado a arapuca novamente. Detalhe: Eu deixava a impressora desligada, obrigando a máquina a pedir para liberar a impressão, ela fazia isso disparando a console, que esticava o barbante e jogava a caixa novamente em cima do meu rosto. Aí eu levantava, desarrumava a arapuca, colocava o colchonete no lugar, e ia cuidar da impressora, pois nesse caso havia a necessidade de toda a atenção, vez que era comum rasgar a listagem após atravessá-la, devido a grossura, pois eram 4 vias. E assim obrigava-nos a estar voltando sempre a impressão no ponto anterior ao incidente.

Mas, como já dizia o Benito de Paulo, “nem tudo pode ser perfeito, nem tudo pode ser bacana”, chegou o dia que a “casa caiu feio pra mim”.

Acostumado com minha engenhoca que sempre funcionou, teve um dia em que acordei no chão, por volta das 7h40 da manhã, com um monte de pernas em volta de mim. Estavam nessa ocasião, que eu me lembre: o saudoso Juarez Gonçalves, nosso gerente do CPD, o Sebastião Élcio Paes Leme, meu chefe imediato, Franklin Adeodato Boaventura, Lafayete, Rodolfo Leonel e outros mais curiosos. Todos me encarando, uns sorrindo da situação inusitada, os chefes, com caras sérias e eu…, imaginem com que cara! … Para meu azar, justo nesse dia o colega que deveria me substituir às 6 horas não foi trabalhar, e eu acabei sendo “pego de gaiato no navio!”.

Acontece que eu havia pensado em tudo, e até então tudo havia funcionado, só não havia pensado na possibilidade de um pique de energia, quando a máquina simplesmente deixava de funcionar e a SPO não tinha como puxar o barbante para jogar a caixa sobre o meu rosto para avisar-me.

E assim nesse dia aconteceu esse pique de energia por volta das 3 horas da manhã e somente às 8 horas, quando o serviço já deveria estar nas mãos do pessoal de Compras para o trabalho, é que fomos reiniciar o trabalho desde o ponto de partida, pois, em caso de pique de energia, perdia-se tudo que estava sendo processado, havendo necessidade de carregar o cadastro anterior e iniciar o trabalho desde o principio. O pessoal do Deptº de Compras só foi ter acesso ao material para trabalhar, depois das 13 horas, tendo perdido toda a manhã.

Levei uma reprimenda sem tamanho e não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha, e o caso só não virou “tragédia” com a minha demissão, porque foi “cômico” demais, por mais sérios que queriam ficar, riam da minha cara e também porque nos considerávamos uma família, trabalhando numa FNV paternalista, onde todos éramos amigos, e a generosidade sempre estava presente, não havendo a sórdida e covarde disputa como tornou-se comum depois que a empresa passou a mudar de “siglas”, quando tornou-se contumaz para pleitear postos mais elevados, a subida nas costas dos outros, muitas vezes derrubando-o covardemente para ocupar o seu lugar ou justificar a sua eficiência. A “delação” tornou-se demonstração de confiança e competência ante aos olhos de novas diretorias que foram assumindo.

A verdade é que até hoje, quando me encontro com alguns desses amigos que viveram comigo esse “mico”, o assunto sempre volta à tona e não tem como não terminar em risos. É por isso que dizem que o crime não compensa, por mais que ele possa parecer perfeito, rsrsrsr.

 

Arvelos Vieira – arvelosvieiraneto@gmail.com

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