O escritor e poeta Nicanor Filadelfo Pereira presta homenagem ao Dia da Criança, com o conto infantil ‘Dona Abóbora e dona Melancia’

11/10/2018 17:22

Não me julgo superior, e nunca me julgarei superior a ninguém, por que sei que todos, criados pela Mão Divina, temos o nosso valor. Não sou melhor, nem pior, sou a melancia.”

 

Numa fazenda bem grande, lá no sertão de Goiás, nasceram, perto do milharal, a dona Abóbora e dona Melancia. Eram pequenas e redondinhas. Bem bonitas, umas gracinhas. A terra onde elas nasceram era muito boa, e o clima quente e úmido favorecia para que elas crescessem rapidamente. Logo, logo, ficaram grandes e redondonas, gorduchas, maiores que as bolas de futebol. Todos que por ali passavam elogiavam-nas.

Que lindas!… Como cresceram… Até dá dó de colhê-las…

Mas, entre os visitantes da fazenda, não havia unanimidade de opiniões. Uns diziam que a melancia era mais bonita e mais importante para o ser humano, porque ela era mais vermelha e bem doce. Outros, porém, discordavam dizendo que a abóbora era muito mais bonita, com sua casca mais robusta e de muito maior utilidade para os homens, porque dela faziam-se doces e compotas, como também, pratos salgados de origem africana, como o quibebe, e servia, ainda, para a alimentação dos animais da fazenda.

Estas manifestações parciais, que menosprezavam uma e engrandecia a outra criavam um clima de disputa entre elas.

Dona Abóbora, cheia de complexos de inferioridade, exteriorizava este infeliz sentimento, com o seu ar de superioridade, enaltecendo as suas próprias qualidades, repetindo as frases que ouvia dos transeuntes a seu respeito; claro, que sempre acrescentando algo mais:

— Ouviste, dona Melancia, o que aquele senhor alto, de bigode, falou a meu respeito? Ele disse que eu sou mais robusta e consistente, não sou aguada como Vossa Senhoria, dona Melancia! Sou mais útil na culinária, tanto para doces quanto para salgados.

Dona Melancia, humilde e singela, que não tinha o tal complexo, silenciosamente ouvia tudo o que sua adversária alardeava e, simplesmente, respondia:

Não me julgo superior, e nunca me julgarei superior a ninguém, por que sei que todos, criados pela Mão Divina, temos o nosso valor. Não sou melhor, nem pior, sou a melancia.

Estavam nesta infrutífera discussão, quando passou por elas um homem de Deus que, ouvindo-as, disse:

Posso entrar nessa conversa?

— Pois não, Homem de Deus, respondeu toda cheia de empáfia, dona Abóbora, julgando que ouviria muitos elogios a seu respeito.

Acudiu, então, o Homem de Deus:

— Perdoem-me por me intrometer na conversa alheia, mas, o que nós, criaturas do Deus Eterno, devemos levar em conta que não são as nossas diferenças físicas, nossas qualidades ou eventuais defeitos, porque todos, desde os bilhões de estrelas e os milhões de galáxias, ao mais ínfimo dos seres, somos a manifestação da Sua glória, e devemos servir uns aos outros. Assim como o lavrador cavou a terra, adubou-a e lançou as sementes de sua espécie, donde nasceram vocês, para admirar-se de suas virtudes, assim nos fez o Criador que tem prazer em vê-las crescer e servir aos homens. Amem-se, mesmo que sejam abóbora ou melancia.

 

Glossário:

Unanimidade – Todos com a mesma opinião;

Robusta – Forte, vigorosa, consistente, dura;

Menosprezavam – Do verbo menosprezar = ter em menos conta, pouco apreço, desprezar;

Complexos – (Psicol.) Sentimentos total ou parcialmente reprimidos, que determinam atitudes, ou comportamentos;

Exteriorizava – Do verbo exteriorizar = Tornar exterior; dar a conhecer; manifestar, externar, colocar para fora;

Enaltecendo – Do verbo enaltecer = Exaltar, engrandecer;

Transeuntes – Os que passavam pelo local;

Culinária – Relativo a cozinha, cocção de alimentos;

Singela – Simples;

Alardeava – Do verbo alardear = ostentar, publicar com vanglória, gabar-se;

Empáfia – Orgulho vão; soberba, altivez;

Eventuais – Por acaso, fortuito, ocasionais;

Galáxias – Aglomerado de estrelas;

Ínfimo – O menor de todos;

Espécie – Conjunto de indivíduos muito semelhantes entre si e aos ancestrais;

Virtudes – Qualidades

 

Nicanor Filadelfo Pereira – nicanorpereira@gmail.com

 

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