Novo e importante colunista do ROL: Manoel Peres Sobrinho

04/05/2017 01:41

MAIS UM MESTRE COLABORANDO COM O ROL COMO COLUNISTA!

O novo craque no time do ROL  chama-se Manoel Peres Sobrinho. Tem 66 anos e é mestre em Educação, Arte e História da Cultura, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Como profissão, é um pastor evangélico da Igreja Presbiteriana do Brasil há 37 anos. Tem um livro publicado (‘Educação Cristã’); dezenas de artigos publicados em jornais da cidade onde morou e atualmente declara-se um “amante da literatura universal,”. 73 contos seus já foram publicados pelo jornal ‘Folha de Votorantim’ e algumas poesias no Blog ‘Fragmentos’. Manoel Peres Sobrinho já escreveu para o ROL como leitor e agora, graças ao convite que lhe foi formulado pelo editor Sergio Diniz da Costa, inicia, com o texto abaixo, sua coluna no nosso jornal. Que seja bem vindo e gratos pelo apoio cultural que nós dá! (Helio Rubens, editor)

 

JOÃO KRUGUER para Iniciantes em Literatura

Manoel Peres Sobrinho*

 

Certo dia, pegando um caco velho de gesso escrevi três vezes o nome da minha namorada no paredão da pedreira. Os marroeiros, então, me perguntaram porque eu fizera assim, porque escrevera aquele nome. “Porque é eufônico”, respondi-lhes. Os rudes marroeiros, rostos tisnados, suarentos, se entreolharam por uns instantes e voltaram à lida… – João Kruguer.

 

Para quem gosta de visitar museus, uma boa pedida seria dar uma passada pelo nosso, aquele que fica agora ao lado do Clube Atlético Votorantim, antigo Cinema, e se, além de relíquias históricas, você ainda aprecia uma boa literatura, vai ter uma surpresa no mínimo agradabilíssima.

Já na entrada, à esquerda, há uma escrivaninha grande, que segundo dizem foi usada pelo nosso primeiro prefeito, Pedro Augusto Rangel. Num salto na História, retrocedemos até topar com uma herma da gloriosa “heroína de dois mundos”, Anita Garibaldi, que carinhosamente os imigrantes italianos, aqui residentes, construíram, lá pelos idos de 1911. Mas, o mais importante, ainda está por vir.

Após atravessar todo o grande edifício que compõe o Museu, chegando ao balcão, olhando à esquerda, ali está: o nicho sagrado da literatura votorantinense. Ali estão os pertences do nosso renomado escritor: JOÃO KRUGUER.

Fixado à parede está seu Diploma de Taquigrafia, conquistado em 14 de novembro de 1956, no Instituto Brasileiro de Taquigrafia. Um pouco mais abaixo, e à esquerda, está uma pequena mesa, onde podem ser encontrados vários objetos seus: uma fotografia, em que porta camisa xadrez, óculos de aro fino, o que acentua ainda mais o seu rosto longilíneo ariano, barbas compridas brancas, e sua marca inconfundível, seu chapéu. Seu rosto está calmo, evocando-nos uma ideia de tranquilidade interior, seus lábios quase esboçam um sorriso, como alguém que está de bem com a vida. Ao centro da mesa pode ser encontrada uma máquina de escrever portátil, da marca “Iris”? (foi a única inscrição que encontrei nela, salvo equívoco). À direita um texto memorável de sua lavra, um conto, com o sugestivo título: “O Lado Bom da Vida”, que tratarei logo mais. Do lado esquerdo há um pequeno armário com duas prateleiras, e os livros que foram seus. Na de cima há 62 livros, na de baixo, 44, num total de 106.

Seu acervo de pequeno porte, mas denso de conteúdo, acusa um gosto eclético de leitura. Ali encontramos livros da Biblioteca do Exército Editora, mas também clássicos como “Exodus” do escritor judeu Léon Uris, onde conta a saga do retorno dos judeus a Israel; “Mãe” do grande russo Máximo Gorki; o fantástico romance do escritor inglês Oscar Wilde com o título “O Retrato de Dorian Gray”, como também obras do nosso querido romancista brasileiro Jorge Amado. Aliás, obras estas que Kruguer recebeu como homenagem do prefeito Pedro Augusto Rangel. Como um leitor de sua época, Kruguer não deixou de ler os autores “malditos”, por isso encontrei também um volume do controvertido Milan Kundera, com nada mais do que “A Insustentável Leveza do Ser”. Por outra, seu lado religioso também aparece em seu acervo, como num exemplar da Bíblia, um “Catecismo Católico” data de 1958, além do discutido autor Neimar de Barros, com o seu intrigante “Deus Negro”.

O texto que pode ser encontrado em cima da escrivaninha de Kruguer, no Museu de título “O lado bom da vida”, me lembra bem um escritor espanhol Juán Ramón Jiménez, prêmio Nobel de Literatura 1956 e sua espetacular novela existencial “Platero y Yo”. Uma reflexão sobre a vida e o papel dos homens junto às problemáticas situações sugeridas pela existência. Cada um responde conforme a sua capacidade de abstrair o problema. Os homens são mais ou menos felizes segundo o que entendem pelo que é ser feliz e como conquistar a tão sonhada felicidade.

O texto de Kruguer tem tudo o que pede um bom conto e uma narrativa simples na tessitura, mas complexa e profunda na reflexão. Primeiro uma sugestão que não se resolve e nem se esgota nos primeiros parágrafos. Segundo a constatação perplexa da incompreensão do próprio estado em que vive o ser humano, enclausurado em suas reais e animalescas situações sem ponderar uma saída inteligente e razoável; e três, a sugestão de algo sublime que afastaria toda a dor, todo remorso pelo fracasso e toda penúria, já que a grandeza não está no que se tem e nem onde se está, mas, essencialmente, no que se é.

A eufonia do nome da namorada, bem pode ser uma metáfora, onde as palavras não assumem o ser enquanto ser, mas apontam para uma realidade que transcende o próprio existir. Por que ele no meio de uma pedreira rude e sinistra podia pensar em algo tão sublime como o nome da namorada? Seu nome é eufônico porque soa bem ou porque lembra  um ser angelical, cujo odor perfumando pode ser captado pela memória olfativa da paixão? Podia olhar as estrelas e cativar o céu?

Mesmo em lúgubres situações, olhar para o alto é uma oportunidade de evadir-se da estranha situação, e alçar voo ao inimaginável. Paradoxalmente, libertar-se mesmo continuando preso, ser outro mesmo que nunca mudando, ir além mesmo que não saindo do lugar.

João Kruguer deixa isso tudo muito claro em seu texto. Isso é Literatura!

 

(*O Autor é Mestre em “Educação, Arte e História da Cultura” pela Universidade Presbiteriana Mackenzie).

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