Nicanor Filadelfo Pereira: ‘Navio de horrores’

19/11/2019 09:43

Nicanor Pereira

Navio de horrores

Albatroz, albatroz! — Dizia o libertário:

Tu que pairas sobre os mares tenebrosos

Não atentas, sequer, ao vil calvário

Da negra gente, em prantos dolorosos?!

 

Que horror!… E que infindas amarguras

Transporta o infame lenho, mar afora:

A desgraça que ao hades se afigura,

Que a vida, em meio à dor, tanto devora.

 

Ao som do pranto, cantigas e clamores,

Estala a chibata em dorsos nudos,

O infernal concerto dos horrores.

 

Ascende aos céus, ó Ícaro albatroz,

Implora a Deus, peço, os seus favores:

Que, de nós, extirpe— essa lembrança atroz!

 

Nicanor Pereira 

NicanorPereira@gmail.com