Na seção ‘Entre Nós e o Público’, o editor Sergio Diniz entrevista o ator sorocabano Valter Chanes

30/05/2018 01:32

Valter Chanes, ator do Grupo Manto, acompanha a reportagem do Cruzeiro do Sul, em visita pelo espaço – Adival B. Pinto

“Sempre gostei de quebra-cabeças e coisas misteriosas ligadas à vida. Acredito que minha infância e adolescência podem ser definidas como ‘O Fantástico Mundo de Bobby’, aquela série dos anos 90.”

 

Ter uma boa memória, para quem pretende ser ator, é algo imprescindível. E ele afirma lembrar de imagens e acontecimentos desde os 3 anos de idade.

E sua alfabetização começou lá pelos seus 4 anos de idade, por seu pai, que só tinha até o 4º ano do antigo Primário, mas com um nível intelectual de fazer frente a acadêmicos.

 Ele se diz brincalhão e desligado. E tem dentro de si uma criança hiperativa que o persegue até os dias de hoje.

Profissões, ou trabalhos, já teve muitos…

Estas e muitas outras facetas são um retrato do jovem ator sorocabano chamado  VALTER CHANES, que brinda os leitores do jornal ROL com uma mega entrevista!

 

SERGIO DINIZ – Valter, como você definiria a criança e o adolescente que foi Valter Chanes? Ou, sob outro ângulo, como foi a sua infância e adolescência?

VALTER CHANES – Olha, eu me lembro de muita coisa…tenho uma boa memória. Por incrível que pareça, lembro de imagens e acontecimentos dos meus 3 anos de idade. Eu comecei a ser alfabetizado lá pelos meus 4 anos de idade, pelo meu pai que tem o 4º ano primário, mas um nível intelectual de fazer frente a acadêmicos. Sempre fui brincalhão e desligado. Uma criança hiperativa que ainda me persegue (rs.rs). Sempre tive interesse por coisas misteriosas. Assistia muito ao MacGyver. Sempre gostei de quebra-cabeças e coisas misteriosas ligadas à vida. Acredito que minha infância e adolescência podem ser definidas como ‘O Fantástico Mundo de Bobby’, aquela série dos anos 90.

SD – O que o levou às Ciências Sociais, à Sociologia e à sala de aula, como professor?

VC – Eu trabalho desde meus 13 anos de idade. Fui guarda-mirim, office boy, cuidador de veículos, cobrador, carregador de caminhão de mármore, garçom, motoboy, vendedor e químico. Tudo isso antes de me tornar professor.  O trabalho sempre esteve presente em casa. Todos trabalharam e trabalham. Antes de ingressar na carreira acadêmica, atuei por 7 anos como técnico em química. E acredito que foi essa trajetória que me levou às Ciências Sociais. Sou um Operário, essa é minha origem.

SD – Você, sendo de origem operária e já trabalhado em várias profissões, em que momento e por qual motivo o teatro entrou na sua vida?

VC – O teatro surge entre fim dos anos 90 e começo dos anos 2000. Foram tempos difíceis para mim e para minha família. Eu estava em busca de algo que, àquela época, não conseguia definir. Foram anos complicados sem muita perspectiva do que viria a ser o novo milênio. Foi numa dessas incursões que todo jovem faz ao desconhecido, tentando dar uma guinada na vida, que me deparei com Carlos Roberto Mantovani nas escadarias da oficina Cultural Grande Otelo, na praça Frei Baraúna. Era o ano 2000. Naquela época eu era motoboy em uma grande rede do varejo no Brasil.  Desde então, muita coisa mudou. Mudou o curso da água. É como aquela história do alquimista do Paulo Coelho, eu tinha de passar por ali.

SD – Como foi sua convivência com Carlos Roberto Mantovani? O que ele legou a você, como ser humano e como ator?

O filósofo, escritor e crítico francês Jean-Paul Sartre

VC – Minha convivência com o Mantovani, embora curta (logo em 2003 ele vem a falecer), foi um divisor de águas. O Mantô me apresentou Sartre, Voltaire, Beauvoir, Guimarães Rosa. Entrei pela primeira vez em cena no ano de 2001 com o espetáculo Mortos sem Sepultura (1946), de Jean Paul Sartre. Lembro como se fosse hoje, na coxia do teatro após a apresentação, ele vendo que eu estava assustado, olhou com os olhos arregalados, sorrindo e disse: “Viu, estreou com Sartre!” Só vim a entender isso uns 5 ou 6 anos depois.

O ator sorocabano Rodolfo Amorim, no monólogo autobiográfico ‘Galo Índio’

Como Ator e como ser humano, não consigo separar os dois, acredito que foi ele  quem abriu aquela famosa porta da percepção (utilizando o título do livro do Huxley). A partir daí, trabalhei com o Mário Pérsico, outro ser fantástico, e com o Rodolfo Amorim, o cara que mais me dirigiu e ajudou muito na lapidação do meu corpo e mente operária.

SD – Como surgiu a ideia de montar o Grupo Manto de Teatro? Quais eram os objetivos do grupo? Quais foram os primeiros integrantes? E quais foram as dificuldades iniciais?

Romeu e Julieta, apresentada pelo grupo Manto

VC – Eu sou da fundação, mas não fui o ideólogo. Thiago Oliveira, Rodolfo Amorim, Felipe Cruz e Daher Celidônio foram os que me convidaram e, também, a outros jovens que tinham atuado com o Mantovani. A ideia era começar um grupo com jovens atores. Lá estava eu perdido em meio à Montagem de Romeu e Julieta, de Shakespeare. Foi entre 2003 e 2004 no Teatro de Arena da prefeitura. O Grupo tem uma característica que é resgatar espaços de importância histórica para a cidade. Foi assim no Teatro de Arena, na Biblioteca Municipal Infantil em 2004, junto com a família Malhone, do Circo Guaraciaba. Depois fomos ao quintal do Mosteiro de São Bento, marco da fundação da cidade, e, por último, aos barracões da antiga Estrada de ferro Sorocabana.

Muitos foram as Atrizes e Atores que passaram pelo Grupo. São muitos nomes, muita gente fantástica. A lista é grande. Seria injusto eu citar aqui e esquecer de algum ator ou alguma atriz.

SD – Quando e como surgiu a iniciativa de utilizar os antigos barracões da Estrada de Ferro Sorocabana, administrados pela América Latina Logística (ALL) e a parceria Espaço Cultural ALL/Grupo Manto?

O produtor cultural, dramaturgo e escritor Luciano Leite

VC – No ano de 2005, Luciano Leite, que havia trabalhado com o Mantovani nos anos de 1990, volta para Sorocaba, recém-formado em publicidade e propaganda pelo Mackenzie, e começa a atuar na produção do Grupo Manto. Ele, tal como eu, é de origem operária. Ele contribui com uma dinâmica de estrutura cênica que coaduna com a própria trajetória de vida. O pai e o avô dele foram ferroviários da Sorocabana. Nós montamos, após o Circo, Christo Rei (2007-2008), Resumo de Ana (2009-2012), Umbigo do Mundo (texto de Mantovani- 2010) e depois Estações (2011-2012), espetáculo dentro de um vagão da antiga FEPASA. Aquele que conversamos sobre as ações culturais.

Amor de Benedicta (2012), recorte de trecho do livro Scenas da Escravidão, de Carlos Carvalho Cavalheiro

Foi por parte da produção, do Luciano, que adentramos nos barracões. Daí em diante, montamos mais de 4 espetáculos, incluindo o Amor de Benedicta (2012), recorte de trecho do livro Scenas da Escravidão, de Carlos Cavalheiro, e, Um Dia de Visita (2014), monólogo escrito por Mauricio Toco, com direção artística de Felipe Cruz. Neste, tive orientação cênica de Janaina Leite e produção do Luciano Leite.

SDEm que estado o grupo encontrou os barracões? Vocês chegaram a realizar algum tipo de benfeitoria para as apresentações teatrais?

Vagão da antiga Fepasa, como palco do Grupo Manto

VC – Em estado de abandono. A empresa ALL (América Latina Logística) abriu espaço para parceria e nós entramos com o trabalho braçal e intelectual. Desde 2011 trabalhamos com benfeitorias no espaço, muitas vezes tirando de nossos cachês para compor aquilo que não estava no orçamento. Fomos contemplados com um PROAC em 2014 que viabilizou muita coisa por lá. Acabamos por preparar duas salas de teatro e um vagão que já fora utilizado antes. Infelizmente, hoje, por razões diversas da burocracia, estamos sem trabalhar por lá.

SDQuais foram as primeiras peças apresentadas nesse espaço e qual foi a repercussão perante o público?

Peça ‘Um dia de visita’

VC – Fizemos grandes trabalhos. Começamos com Estações (2011), Amor de Benedicta (2013), Dia de Visita (2014), Pássaro Azul (2015), Mostras de teatro de mais de 8 espetáculos entre 2014 e 2016.

Mas, de todos, o que mais teve repercussão foi o Amor de Benedicta em 2013.

SD  – O Grupo Manto tem algum projeto para o segundo semestre de 2018?

VC – Estamos com projetos que podem ser viabilizados dependendo dos ares deste ano. Neste momento não temos mais o espaço da Sorocabana, depois que a empresa se retirou do local, ficamos impossibilitados de utilizar, inclusive pela manutenção, que é muito difícil.

SDComo você vê, hoje, a prática teatral em Sorocaba? Que incentivos, públicos ou privados têm sido oferecidos ao teatro sorocabano?

Valter Chanes, no monólogo ‘João Baptista’

VC – A prática teatral em Sorocaba está fervilhando. Grupos excelentes como Nativos de Terra Rasgada, Trupé de Teatro, Coletivo Cê (que é de Votorantim, mas atua fortemente na região), Koskovski,  Trupe Caçadores de Tatu, Camarim de Teatro, Entreatus, Mário Pérsico, Cia Barracão da Vó, Família Malhone… são muitos. Tem o pessoal que está sendo formado pelo SENAC e UNISO, que está montando núcleos de estudo e experimentação. Todos com excelentes trabalhos em suas respectivas linguagens. Sorocaba sempre foi um celeiro de grandes artistas, só a cidade e o poder público é que ainda não conseguem curar essa miopia. E isso não é peculiar à cidade, mas ao país.

Os incentivos existem, mas são escassos. Quando em época de crise, corta-se primeiro da cultura.  Mas os e as valentes artistas sempre arrumam um jeito de viabilizar sua Arte.

SD – Fazer teatro é um passatempo ou uma necessidade visceral para Valter Chanes?

VC – O teatro é o espaço onde venho me forjando enquanto indivíduo há anos.  Não é passatempo, é visceral. Mas é mais que isso, é a régua que utilizo para traçar as linhas que desbastam esta pedra bruta.

 

 Para assistir ao monólogo ‘João Baptista’: https://www.youtube.com/watch?v=L5lMh_CmzTQ