Mario Persico: ‘Realidade em cena’

11/01/2019 15:14

“A vida serve de alimento, de modelo para o artista transformá-la e devolvê-la em forma de arte.”

Atores em geral acreditam que quando derramam fartas lágrimas em cena estão no ápice de suas atuações. Ou seja, quando suas atuações contêm a verdade tal qual ela se apresenta na vida real. Mas atuar não é trazer a vida real. Até porque, a vida real, por mais maravilhosa que ela possa ser – e de fato ela é -, ainda assim a vida real não é arte. Esse prefixo “ART” na verdade vem de artifício, artificial; logo, não real.

A vida serve de alimento, de modelo para o artista transformá-la e devolvê-la em forma de arte. É comum ator acreditar que a verdade está na tradução literal do real. E esquecem que a representação não é o real e nem quer ou precisa ser.

Lembro-me da cena final de RAINHA CRISTINA, com Greta Garbo. Aquela rainha estava destruída, acabara de abdicar do trono, para seguir com o homem que amava; na sequência, perde o homem que amava num duelo. Ela está num navio que segue para a Espanha. Ela apenas caminha até a proa e olha para o horizonte.  A instrução do diretor foi “não pense em nada.” Porém, o resultado é um dos closes mais emblemáticos da história do cinema (https://www.youtube.com/watch?v=EEab8NZO3Fg).

Quero dizer, com isso, que essa fixação que atores têm com o real nem sempre produz bons frutos. Às vezes apenas fingir ou não fazer nada podem atingir resultados absolutamente inusitados.

.

Mario Persico  mariopersico@ciaclassicaderepertorio.com.br

(N.A.) Rainha Cristina – é um filme da Era de Ouro de Hollywood. Produzido em 1933 e dirigido por Rouben Mamoulian.