Mario Persico: ‘Confiança’

22/01/2019 14:46

Mario Persico

“Em teatro, ou mesmo no cinema ou TV, o que o ator faz nunca é autoral, sempre é a tradução de uma concepção estética de terceiro.

Fala-se muito em confiança no teatro. Afinal, não é uma atividade que se faz sozinho e sim em conjunto. Há uma série infinda de exercícios e jogos teatrais visando estimular essa confiança no outro.  Confiança no colega de cena com quem iremos contracenar. Confiança que o colega irá nos segurar em jogos que devo deixar meu corpo cair tendo a certeza que serei amparado pelo grupo. Confiança no colega com quem tenho uma cena de amor, confiança no colega que irá tecnicamente me agredir em cena. Enfim, são inúmeras as situações que seriam prejudicadas sem essa confiança cega.

Contudo, há uma confiança que vejo poucos colegas levar em consideração e é de longe a mais importante que se deve ter.

Em teatro, ou mesmo no cinema ou TV, o que o ator faz nunca é autoral, sempre é a tradução de uma concepção estética de terceiro. Se for no cinema ou na TV esse processo é  ainda muito maior. Nesses veículos o ator não tem noção alguma do que de sua imagem foi captado e o que será editado e como será editado. É um trabalho decidido na sala de edição. No teatro, o ator ainda tem uma ideia maior de sua imagem em cena. Mas ainda assim e por mais colaborativo que possa ser o processo ainda há um diretor responsável pela palavra final.

Então, a confiança no diretor é algo fundamental. Saber quem irá dirigir. O que pensa essa pessoa? Qual é a sua ideologia? Pois será nas mãos dessa pessoa que você estará entregando seu talento, sua força de trabalho por um período que pode ser até bastante longo.

Eu preciso confiar nessa figura que irá definir minha imagem, que irá conceber o espetáculo do qual farei parte. Preciso ter uma confiança no senso estético desse profissional e uma confiança ainda mais absoluta na ideologia e valores que esse profissional irá, consciente ou não, defender em cena. Só assim poderei realizar o ato pleno da entrega ao papel.

Todos já ouviram a expressão que diz que uma imagem vale mais do que mil palavras. Pois bem, e também é verdade o poder que essas imagens podem ter no nosso inconsciente. Então, é preciso confiar no diretor, pois ele é o condutor de todo esse processo.

Também na publicidade essa confiança é necessária. Muito embora seja uma atividade meramente de mercado, de compra e venda. Ainda assim, é nossa imagem que estará estimulando esse processo. Recentemente tivemos o exemplo do Tony Ramos e os comerciais para a Friboi, que nas investigações de corrupção acabou despontando com grande protagonismo no âmbito da Operação “Carne Fraca.”, Ora, Tony Ramos sempre teve a imagem do bom moço, posteriormente de um grande ator. Sério, pai de família exemplar. Casado com a mesma esposa desde sempre. Ou seja, o modelo ideal de profissional que toda empresa gostaria de associar à sua marca. Assim como a Friboi quer associar sua empresa a um artista que transmita confiabilidade, do mesmo modo devemos nos preocupar a quem estamos emprestando nossa imagem, nosso nome, para não sairmos arranhados em nossa imagem. Enfim, confiança é tudo.

Atores, infelizmente, estão cada vez mais alienados e basta um convite, não importa de quem, nem pra que. Eles, cegamente, como rebanho, dizem sim.  Eles confiam não por avaliar e pesar prós e contras. Eles confiam simplesmente porque não pensam. É triste.

 

Mario Persico – mariopersico@ ciaclassicaderepertorio.com.br

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