Marcus Hemerly: ‘Mês do Cinema Nacional e dez anos sem Carlos Reinchenbach: o último utopista

19/06/2022 10:51

Mês do cinema nacional e dez anos sem Carlos Reinchenbach: o último utopista

Em 1898, Afonso Segreto registrava sua chegada a Baía de Guanabara pelo navio Brésil, data que seria escolhida como dia do cinema brasileiro, ocasião das primeiras imagens gravadas em película no território nacional. Apesar de alguns historiadores divergirem acerca do efetivo registro primevo da imagem em movimento no Brasil,19 de junho é a data oficial comemorativa da sétima arte em terras tupiniquins, a despeito do 5 de novembro, data da primeira exibição pública.

Nesse mês, precisamente no dia 14, lembramos dez anos de partida do diretor Carlos Reichenbach. Nascido no Rio Grande do Sul, em 14 de junho de 1945, de pais editores, viveu desde cedo em São Paulo, podendo ser inserido como um forte representante do cinema da Boca do Lixo, realizado na região de mesmo nome localizada no centro de São Paulo.

É cediço que em meio aos filmes do chamado Cinema Marginal, marcado pelas produções rápidas e de baixo orçamento, balizavam-se algumas obras-primas dentre ao que se convencionou chamar, não raro, injustamente, de pornochanchadas. Reichenbach, ou “Carlão”, como era conhecido, destacou-se inicialmente como diretor de fotografia e roteirista, passando a dirigir trabalhos que gravitavam em torno do cinema existencial, intimista, e, ao mesmo tempo, que retratava as realidades brasileiras. Êxodo rural, pobreza em contraposição à industrialização, a insurgência aos costumes e à ditadura, eram feições robustas nos anos sessenta e setenta. Carlão, que se aos olhos da crítica era um mestre do improviso, em suas próprias palavras, o fazia  “a partir de um roteiro de ferro”; e como bom espectador das mazelas brasileiras, as transpôs à tela num olhar sensível, emergido da ótica dos operários do ABC paulista, da austeridade industrial das classes privilegiadas, e daqueles que flutuavam ao derredor.

Com “Filme Demência” de 1985, anagrama para “filme de cinema”, desenhou uma intertextualidade com o Fausto de Goethe exsurgindo da Selva de Pedra, numa releitura daquela obra, considerado seu melhor e mais denso filme. A contraposição do pessimismo ao realismo também foi bem retratada em suas últimas obras dos anos 2000. Pode-se dizer que na “Boca”, existiam majoritariamente duas vertentes de cinema: a pornochanchada, de um lado, e do outro, os símbolos mais experimentais, formatados a partir da preocupação com a qualidade e profundidade, fortemente libertárias, reflexivas, artesanais. O Jornalista  Marcelo Lyra, autor da obra “O cinema como razão de viver”, da Coleção Aplauso, (Imprensa Oficial, 2007, pp. 38/39), pondera:

“Depois de dois episódios em longas que ele mesmo renega, estreou em um  longa solo com Corrida em Busca do Amor (1970),  que está longe de seus melhores trabalhos. É um filme que começa de forma convencional e só a  partir da segunda metade, quando a produção  fica sem dinheiro, passa a incorporar alguns elementos do cinema marginal, ainda sim de forma  caótica, exibindo uma corrida de automóveis  onde não se sabe quem está na frente, aonde se vai chegar ou o que está acontecendo. O recurso mais constante é um humor inspirado nas antigas chanchadas, e que estaria presente em  praticamente toda a obra do diretor. Só em Lilian  M. (1971) começaria a se delinear o cineasta que  atingiria seu auge em meados dos anos 80 com  dois grandes trabalhos: Filme Demência (1985)  e Anjos do Arrabalde (1986). O primeiro é uma abordagem sombria da decadência, da perda  dos valores seguida de uma descida aos infernos  da própria alma, em clima onírico. Inspirado em Goethe e com elementos de São Paulo S.A., de  seu mestre Luiz Sérgio Person, o filme é também  uma releitura da sua relação com o pai, morto  precocemente. Já Anjos… envereda pelo estilo do italiano Valerio Zurlini, outra constante fonte inspiradora.”

Nesse passo, primou pela entrega de uma obra feita primordialmente para satisfação de seu criador, como resultado artístico em detrimento da feição comercial; um cinema em grande parte feito pelo amor do fazer cinema. Se, numa primeira análise, os cineastas do chamado cinema marginal digladiavam-se com a repressão estúpida, em razão do teor erótico das produções, por outro giro, o intento combativo político às vezes passava despercebido aos olhos rasos dos sensores. Tal aspecto seria refletindo, inclusive, nos últimos filmes de Carlão, em tom de rememoração, apontando a nebulosidade nociva do regime militar, outrora criticado em tom mais velado, dada a contemporaneidade da ameaça.

Atentando à escala evolutiva do cinema nacional, hoje mais privilegiado nos quesitos de produção e distribuição, impossível dissociar o nome de Carlos Reichenbach e o cinema marginal do plano histórico de amadurecimento da arte. Assim como o cinema novo de Glauber Rocha, de igual forma eminentemente experimental, o olhar do que “está à margem” apura uma riqueza que, infelizmente, é desconhecida de seu próprio povo, matéria prima humana se sua criação.

Trabalhos como diretor

Falsa loira (2007)

Bens confiscados (2005)

Garotas do ABC (2004)

Equilíbrio e graça (2002). Curta-metragem realizado através do programa Petrobrás Cinema.

Dois córregos (1999)

Alma corsária (1994)

Anjos do arrabalde (1987). Prêmio de melhor filme e melhor atriz (Betty Faria) no Festival de Gramado.

Filme demência (1985)

Paraíso proibido (1980)

Amor, palavra prostituta (1979)

O império do desejo (1978)

A ilha dos prazeres proibidos (1977)

Lilian M., relatório confidencial(1974)

Esta rua tão Augusta (1969). Curta-metragem.

 

 

 

 

 

 

 

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