Marcus Hemerly: ‘Cinema em tela: O Cinema Noir’

01/10/2021 09:50

Marcus Hemerly

Cinema em tela: O Cinema Noir

“Aquilo de que os sonhos são feitos”

Sam Spade

(Humpfrey Bogart, em O falcão maltês, 1941).

 

Humphrey Bogart with The Maltese Falcon. (PRNewsFoto) ORG XMIT: PRN5

Um homem carrancudo recebe em seu escritório de investigação particular uma cliente em potencial, sem saber da aventura mortal que o aguarda. Esta é a cena inicial de um dos filmes policiais mais marcantes do século XX, O Falcão Maltês (The maltese falcon, 1941), distribuído no Brasil como “Relíquia Macabra”, assim como o livro do qual é adaptado, de autoria do americano Dashiel Hammett, e lançado em 1930. O filme do diretor John Huston, reveste-se de uma aura marcante como delineador do gênero que mostrava ainda timidamente suas feições nos idos do final da década de trinta, denominado cinema noir, oriundo da expressão francesa que significa preto/negro, cunhada originalmente pela crítica pós-guerra, inspirada na famosa publicação policial série noire.

O enredo narra a história de um detetive que após a morte de seu parceiro, se vê envolvido na busca por uma estátua do século XVI, proveniente do oriente, mas que se encontra perdida na cidade de São Francisco, procurada por homens dispostos a tudo pelo artefato de valor incalculável. Na película, deliciamo-nos com as atuações fabulosas de Humphrey Bogart, como o eterno detetive Sam Spade (o próprio Hammett fora a seu tempo detetive, trazendo mais realismo para seus escritos), Peter Lorre, Mary Astor e Sidney Greenstreet. Como resultado, formam-se as principais características do subgênero de filmes policiais que teve seu auge na década de quarenta a cinquenta, no cenário americano.

O film noir é caracterizado por um contraste das produções hoolywoodianos que até então, apresentavam uma visão mais positiva da vida, clichês de finais felizes, amores correspondidos, ou conduta moral idealizada em tom de fábula. Nessa nova abordagem pouco convencional, o padrão é uma percepção mais mórbida, negativa, até mesmo niilista dos relacionamentos humanos; uma eterna busca por um centro de caráter na forma dos personagens, mas que se perde, ou, ao menos, se transmuda em meio à diversidade de reviravoltas e feições deturpadas que se apresentam. O negro e o acinzentado em intrincados jogos de iluminação e ângulos de câmera, são utilizados a fim de ressaltar o tom triste, não paradigmático ou estático das atmosferas retratadas. Com isso, foi criado um cenário de protagonistas de caráter dúbio, cínicos e impetuosos, mulheres mortíferas, além de vilões excêntricos, não raro, até mesmo caricatos o suficiente para despertar a empatia do público.

Tão intrigante subgênero levou às telas personagens já extremamente populares na literatura de investigação e mistério, como o detetive Philip Marlowe, criado por Raymond Chandler e também interpretado por Bogart na adaptação de 1946, intitulada “À Beira do Abismo” (The big sleep). Mencionar este título, é importante para a caracterização do tema a respeito do qual ora se disserta, uma vez que, novamente, corporifica-se um personagem forte, inserido de forma intensa numa trama imprevisível. Naquele universo, contraditoriamente, o Marlowe corporificado por Bogart vale-se de conceitos éticos duvidosos na condução de suas veredas investigativas, dotado de ferrenhas convicções de honestidade, ainda que, em um plano no qual o próprio conceito de honestidade perde-se em meio à abstração.

Deparamo-nos com as figuras de anti-heróis bem caracterizados, além da típica femme fatale, aqui interpretada pela jovem Lauren Bacall, que permanece uma incógnita até o cerrar das cortinas, com o desfecho da trama. Trata-se de uma vertente em contraposição ao estilo policial ortodoxo; nas palavras da crítica Pauline Kael, seria um cenário no qual os personagens “falam em insinuações, como se fossem uma nova estilização da linguagem americana”. Famosas produções também dignas de nota são, Pacto de Sangue (1944), Os Assassinos (1946), Fuga do Passado(1947), Crepúsculos dos Deuses(1950) e nunca é irrelevante citar como principais diretores, Howard Hawks, Billy Wilder, John Huston, Jacques Tourneur e Otto  Preminger. Por óbvio, não se identificava ou utilizava o termo àquela época, ou mesmo não se detinha a noção de que as produções inovavam em termos de gênero e abordagem cinematográfica, haja vista que não se tratava de um entendimento contemporâneo, mas uma definição, consoante aludido, oriunda do pós-guerra, mais solidificada nos anos sessenta, a partir de uma análise histórica em tom de retrospecto.

Ao observar a evolução do cinema, é possível apontar como um dos últimos, ou até mesmo o último filme do noir definido como clássico/tradicional, segundo opinião de grande parcela dos críticos, o filme “A Marca da Maldade” (A touch of evil, 1958). O drama/suspense policial é tenso, no qual a incerteza é o único vetor recorrente, em meio a personagens pervertidos, distinto por uma das melhores atuações do lendário Orson Welles, de Cidadão Kane, na pele do diabólico capitão de polícia Hank Quinlan.

A era de ouro do cinema brindou as plateias mundiais com produções consagradas, nos gêneros épico, omance, musical, aventura de guerra, dentre outros,  mas o que se percebe comumente, é a constante alusão aos títulos policiais como os mais consumidos pelo público em geral.  Vislumbra-se aqui, uma perfeita junção entre a qualidade estética artista do trabalho, associado ao sucesso de público, fazendo até com que os vilões fossem elevados a um patamar mais próximo aos mocinhos. Inclusive, mostra-se pertinente lembrar que as décadas de vinte e trinta, foram o ápice do gangsterismo nos EUA, marcado pelas guerras entre os ganglords, buscando o controle sobre o comércio de bebidas ilegais e outras transgressões, uma vez que a lei seca somente foi abolida com a revogação do ato Volstead em 1933.

Nesse contexto, houve uma explosão na produção de filmes de gângster, fenômeno que fomentou uma glamourização um tanto quanto temerária das figuras dos novos “foras da lei”, encontrando campo fértil na era da depressão, crise econômica causada pela quebra da bolsa de valores em 1922. O período foi bem reconstruído recentemente com a produção da Netflix “Estrada Sem Lei”,  que reconta a história da caçada aos bandidos Bonnie Parker e Clyde Barrow, pelo veterano Texas Ranger, Francis “Frank” Hamer.

Nesse quadro, não se verifica, tão somente, um período do cinema, como a exemplo do expressionismo russo, o impressionismo alemão, o neorrealismo italiano, ou a nouvelle vague francesa, os quais, por óbvio, derivaram estilos e inspirações na arte do filmmaking. Todavia, o noir emerge inicialmente como um subgênero, consoante  mencionado, que demarcou um momento da história das produções cinematográficas, mas que ainda se configura como um gênero à parte, além de estender a aplicação de sua nomenclatura também à literatura. Atualmente, o chamado neo noir reveste-se de força autônoma, representado por produções de peso, como o aclamado Fargo dos irmãos Coen, de 1996; no entanto, com uma nova roupagem, voltada às nuances psicológicas e dramas humanos dos personagens, como uma dissecação de suas psiquês em meio a diálogos densos e humorísticos, aliados a violência gráfica.

Caminhando para um desfecho, agora como num roteiro de Quentin Tarantino, remetemo-nos o leitor ao início, para citar uma frase de Sam Spade. Quando detendo em suas mãos o tão buscado falcão de malta, ele é indagado a respeito do que se tratava aquela estátua, ao que responde: “Aquilo de que os sonhos são feitos”. Sonhos, ilusões, escapismo, reflexões, projeções, idealizações, emoções. Decerto, são o papel do cinema e das artes de maneira geral.

Marcus Hemerly

 

 

 

 

 

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