Magna Aspásia Fontenelle entrevista o médico e escritor Dr. Carlos Magno de Melo

25/05/2022 19:43

“Penso que não há um livro que me defina. Há um conjunto de obras que revela o escritor que sou.”

1 – Carlos Magno de Melo, quem é?

CM – Carlos Magno de Melo nasceu em Piracanjuba, cidade de Goiás. Formado em Medicina pela Universidade Brasília. Ativo na profissão. Residiu na cidade natal até os 9 anos. Fez os estudos primário, ginasial e pulou o científico, prestando provas de todas as matérias, passando e concluindo o curso. Foi para Brasília, onde fez medicina, casou-se e fez família. Participou de maneira intensa da política empresarial do Distrito Federal, quando foi presidente de entidades representativas do setor. Foram quatro décadas de Brasília.

Abriu fazendas em Goiás. Resolveu mudar-se para a Bahia. Continuou como médico e se envolveu mais profundamente com a literatura. Já havia escrito três romances. Além das colaborações em jornais ainda no Distrito Federal, passou a escrever crônicas no Jornal Valença Agora. Depois de morar da Ilha de Itaparica ao sertão baiano, incluindo a margem do Rio São Francisco, sempre como discípulo de Esculápio, voltou às origens: Goiânia. Escreveu 15 livros. Romances, contos e poemas. Membro da Academia Valenciana de Educação, Letras e Artes, Academia do Brasil de Letras e Música, Academia de Letras do Brasil de São José do Rio Preto e filiado à União Brasileira de Escritores DF. Agraciado como cavaleiro pela Comenda de Honra da Romênia e com o Título de Cidadão Honorário de Brasília.

2 – De que maneira a literatura, entrou na sua vida?

CM – A literatura entrou em minha vida pela leitura de tudo que me caia às mãos. Jornais, quadrinhos, panfletos. Tudo. Não havia critério. Lia Machado e lia livros de caubóis. Shakespeare, Monteiro Lobato. Dante, Cordel. Como disse, a literatura me era profusa.

3 – Qual foi seu trabalho que marcou o início de sua vida como escritor?

CM – O trabalho que me marcou como escritor, aquele que me fez descobrir o escritor que sou, foi uma redação no quarto ano primário. Eu havia sido transferido, na segunda semana do ano letivo, do segundo para o quarto ano. Isso no primário. Fui muito mal aceito pelos colegas, que se sentiram lesados, pois fizeram o terceiro ano completo, pôde-se dizer, e eu, caí de para quedas. Um dia, na segunda semana de aulas, a professora leu minha redação como a melhor da turma. Mais uma vez, na semana seguinte. Os colegas, então me aceitaram.

Depois, aos 24 anos, escrevi um poema é entreguei na portaria da Folha de Goiás. Entreguei ao porteiro e disse que era para ser publicado no Suplemento Literário. Sem qualquer destinatário. Nada. Uma folha de papel com um poema. Pois no domingo, o poema saiu, sozinho, ilustrado pelo pintor de destaque Tancredo de Araújo. Continuei a mandar escritos para o Suplemento. Todos foram publicados. Em uma solenidade, apresentei-me ao Editor do Suplemento Literário. O grande escritor Bernardo Elis estava perto. O editor apresentou-me só Bernardo. Ele ficou surpreso e disse que achava que eu fosse adulto. O grande Bernardo me olhou de baixo para cima e falou que eu era um escritor. Eu, nos meus irreverentes 24 anos afirmei: ‘Sou sim!’. Então, duas obras que fiz, marcaram, para mim, a minha literatura. Foram como alvorada trazendo a Luz.

4 – O que te inspira a escrever?

CM – Eu não acredito em inspiração. Acredito em paixão. A paixão leva ao exercício. O exercício à rotina. A rotina leva ao resultado final. Trabalho. Trabalho. Pelo menos, para mim, nunca veio uma força avassaladora que me fizesse me levantar e ir para o computador em estado de êxtase. Eu sinto que a ideia já está formada. É só ir buscá-la. Aí entra a paixão.

5 – Qual dos teus livros te define?

CM – Penso que não há um livro que me defina. Há um conjunto de obras que revela o escritor que sou.

6 – Conte-nos como foi seu encontro com Gabriel Garcia Marques?

CM- O meu encontro com Garcia Marques foi a oportunidade que tive de descobrir uma literatura revigorada. Uma literatura que é latino-americana e universal. Nunca me e encontrei fisicamente com ele. Com Saramago, tomei café, só nós dois, no salão do hotel em que eu morava e que ele estava hospedado. Um encontro fortuito. Mas eu estava com o livro ‘Manual sobre a cegueira’. Havia ido para o salão de café para começar a ler. Saí de um elevador e Saramago do outro. Zero hóspedes. Só o pessoal de serviço. Olhamos um para o outro e ele me fez um gesto para que buscássemos uma mesa. Ele havia descido para dar uma entrevista às sete horas. O horário de verão adiantara 01 hora. Ele chegou no horário antigo. Foi muito engraçado. Rimos. Conversamos e, ao final, ele pegou o ‘Manual sobre a cegueira’ e autografou. Muitos anos se passaram. Em visita à Fundação Saramago, contei esta história para a Pilar, viúva dele e administradora da Fundação. Ela se admirou e disse: “O José me contou isto!”.

7 – Tem sonhos literários? Quais?

CM – Sim. Se não tiver sonhos não se vive. Meus sonhos literários são, acho, que de todos os escritores. Escrever e ser lido. Livros lidos são elos de conversas. Eu adoro conversar. Então ser lido e conversar.

8- Já deixou de escrever para não magoar uma pessoa muito chegada?

CM – Em um romance, eu já mudei o nome de uma cidade para não magoar ninguém. Não ferir susceptibilidades. Mas nunca deixo de narrar o que proponho narrar.

9 – O seu livro ‘Pandemias’;  fale sobre ele.

CM – O novo livro ‘Pandemias’ narra, de maneira ficcional, um momento de horror que se repete. Desde 5.000 anos antes de Cristo temos pandemias. É impressionante como não aprendemos e caímos nós mesmos erros. Toda pandemia pode ser minimizada. Mas negamos. Desviamos do assunto. Somos gananciosos. Corruptos, ignorantes e persistentes em nossos pontos de vistas arraigados. O livro é um conto em que um homem se vê dentro do quadro dantesco da pandemia. Ele testemunha e sofre, fora que ele e a humanidade são expostos. Há um resumo de todas as pandemias da História

10 – O romance ‘Guaibimpará Caramuru – das areias às estrelas’; conte-nos sobre ele.

CM – Resumindo, em resumo do resumo, digo que ‘Guaibimpará Caramuru’ é a história da miscigenação brasileira.

Agradeço ao Jornal Rol pela generosa disponibilidade em me oferecer espaço. A mensagem que deixo aos leitores do Jornal, é a de que, agora, a leitura é muito importante. Penso que estamos em um mundo que precisa do sustentáculo das boas ideias.

Boas ideias são encontradas em bons livros!

 

Magna Aspásia Fontenelle

magnaaspasia@gmail.com

 

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