Magna Aspásia Fontenelle entrevista o escritor, poeta e jornalista português Manuel Eugénio Angeja de Sá

22/08/2021 11:41

« Amávamos os livros… Esses depósitos de ideias, de conhecimentos. Que bom era manuseá-los, tomar-lhe o peso, cheirar-lhes a tinta de impressão, o mofo, palpar-lhes o sedoso papel das suas páginas, avaliar-lhes o seu intrínseco valor!…” (Eugénio de Sá)

Bairro da Ajuda em 1939 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Manuel Eugénio Angeja de Sá nasceu em  1945, no típico bairro da Ajuda, em Lisboa, Portugal.

Por circunstâncias da vida familiar, cedo conheceu Sintra, onde viveu e estudou durante toda a fase do ensino secundário.

No ano de 1963 cumpriu o serviço militar na Força Aérea Portuguesa. Durante a guerra colonial foi destacado para a Guiné – Bissau como oficial de ligação e instrutor de radar de intercepção e combate. Durante quase quatro dezenas de anos exerceu  intensas atividades profissionais em diferentes  Órgãos de Comunicação e em duas Agências de Publicidade multinacionais.

O jornalismo e a literatura habituaram-no a ser um analista e estar atento, a separar o insólito do comum, a qualidade do que lhe é inferior, a avaliar, enfim, as situações e os homens.

O sentido humanista da e sua formação ensinou-o a ser justo e equilibrado em seus julgamentos.

A poesia, decididamente, revelou-se o lado lúdico de sua existência. Metade da última década foi passada na América do Sul, entre Brasil e Colômbia, onde reuniu material e experiência para escrever um livro. Provavelmente, será um livro de crônicas, um conjunto de textos escolhidos que abordam o comportamento humano face às várias culturas que conheceu na Europa, na África e na América do Sul.

É Membro da Academia Virtual Brasileira de Letras; Acadêmico fundador, vice-presidente, e editor de Poesia & Literatura da AVPB (2006-2009); atual Acadêmico fundador da AVBAP – Academia Virtual Brasileira Arte e Poesia, da qual é consultor literário; Fundador e presidente do Clube Universal de Poetas e Escritores – C.U.P.E. – Colômbia (2009-2011); atual Embaixador do Circulo Universal de Embaixadores da Paz (Genebra – Suíça); foi agraciado com o Diploma de Mérito Literário e de Acadêmico da APALA – Academia Pan-Americana de Letras e Artes (Rio de Janeiro) e em 2020 foi contemplado com o  Prêmio ZAP – Pela Paz.

A seguir, Eugénio de Sá, que alega não gostar de falar de si, compartilha com os leitores do Jornal ROL entre outros assuntos, sobre a forma como a carreira jornalística e a literatura entraram em sua vida; os trabalhos que marcaram o início de carreira; os gêneros literários que desenvolve e a inspiração para escrever.

 

1- De que maneira o jornalismo e a literatura, entraram na sua vida?

E.S. – Cedo conheci a ambiência (quase frenética) de um grande jornal de Lisboa; o vespertino “A Capital”, e aí me habituei a gostar de comunicar através da escrita. Tive a sorte de nesse aprendizado conhecer e privar com gente ilustre do nosso mundo das letras, como o nosso Nobel da literatura, José Saramago, que à época era o responsável pelas páginas culturais daquele diário vespertino. Desde então foram muitos os anos que me mantive activo neste mundo da imprensa, que tem tanto de encanto como de exigência e até de sacrifício, mas de que ainda hoje sinto saudade.

O gosto pela literatura começou nos bancos da escola, onde então se ensinava a sério a língua portuguesa, e isso implicava a leitura dos grandes prosadores e poeta do passado, cujos textos escolhidos eram descodificados, explicados e apreciados, ao pormenor. Em casa, o continuado estudo da língua portuguesa era acompanhado por uma avó culta e empenhada. Depois, aos poucos, chegou o encantamento da leitura, mormente a da boa poesia, sempre enriquecida por metáforas que me deixavam extasiado.

Hoje dou vida às minhas ideias porque continuo a acredito no poder da palavra escrita e porque considero que escrever, além de constituir um acto de amor, vale pelas raízes que for capaz de estender ao encontro de outras sensibilidades.

Quando penso em criar prosa, normalmente opto pela Crónica ou pelo Apontamento. Privilegio textos sintéticos e objectivos – mais a meu gosto – muitas vezes abordando questões momentosas que dizem respeito à sociedade, aos quais procuro, sempre que possível, atribuir-lhes um cariz didático ou até pedagógico, se me acho à altura do que isso exige. Para isso, sempre procuro documentar-me previamente porque tenho a consciência da responsabilidade de escrever para um público, tendo em conta que o escritor é, por norma, considerado um ‘líder de opinião’. Raramente enveredo por assuntos de natureza política, mormente com contornos severamente críticos, a menos que as circunstâncias o requeiram. Prefiro fazê-lo de forma analítica, desapaixonada e isenta.

Província de Ribatejo

2- Qual foi seu trabalho que marcou o início de sua vida como escritor?

E.S. – Na realidade foram dois: um conto e um poema. O conto, uma ficção meio romanceada, dediquei-o à vida de um casal do Ribatejo, a província portuguesa de que mais gosto e onde vivi alguns anos, o poema, esse foi dedicado ao meu encantamento pelos grandes espaços, ficcionando o amor entre dois seres separados por um oceano.  E os ecos recebidos foram de tal monta que me animaram a continuar.

 

3-Você escreve poesias, sonetos, poemas. Tens planos de tentar outros gêneros literários ou escrever algo diferente? Quais?

E.S. – Na realidade, quando me lanço à tela do meu computador raramente sei o que vai sair dali em termos de forma poética. É no embalo da minha inspiração que vai nascendo essa forma. Mas pode dizer-se que já escrevi sob todas, ou quase todas as formas poéticas. A poesia, escrevo-a desde o soneto às décimas, passando pelas quintilhas, pelas sextilhas, etc. E até às vezes sai-me um texto, que procuro semear que boas metáforas. Essa é a dita prosa poética, ou poesia livre, como agora se diz.

Se estou disposto a escrever em prosa, então produzo ensaios, crónicas e apontamentos, já que desse tipo de escritos tenho larga experiência, já que de há muitos os público na imprensa nacional e regional do meu país.

 

4- O que te inspira a escrever?

E.S. – Sou, como me têm caracterizado alguns críticos que admiro e respeito; “um prosador e um poeta versátil”, baseando-se certamente na profusão temática da minha produção literária.

O jornalismo e a literatura habituaram-me a ser um analista; a estar atento, a separar o insólito do comum, a qualidade do que lhe é inferior, a avaliar, enfim, as situações e os homens. O sentido humanista da minha formação ensinou-me a ser justo e equilibrado nos meus julgamentos. A filosofia ajudou-me a pensar melhor, a racionalizar. A poesia, decididamente, revelou-se o lado lúdico da minha existência. Leio-a e escrevo-a diariamente, e confesso-me apaixonado ao afirmar, com sinceridade, que já não saberia viver sem ela. No fundo, continuo sendo um entusiasmado estudioso dos comportamentos humanos.

A minha inspiração… flui-me naturalmente; nas minhas caminhadas, à janela enquanto fumo o meu cigarro, na simples observação do que se passa ao meu redor, no muito que li e ainda leio, ou até do que vejo nos media. Todos são fontes de inspiração para quem gosta e sabe dar-lhe sequência.

Também há situações que ocorrem e que me ferem a sensibilidade, que, bastas vezes, me motivam a escrever sobre elas. E ainda há os sonhos. Quantas vezes são eles que me inspiram.

Lembro-me ainda das grandes catástrofes; dos incêndios que têm eclodido em Portugal e um pouco por todo o mundo nestes últimos anos, das violentas intempéries que têm vindo a  abater- se sobre alguns países e ilhas das Caraíbas e noutras geografias, todos com o seu cortejo de desgraças que afectam  muita gente. E o que mais se verá, mercê das alterações climáticas, cada vez mais acentuadas.

 

5- Qual dos teus textos te define?

E.S. – Esta é uma pergunta difícil pois em tudo o que escrevo fica um pouco de mim, do meu carácter, do meu sentir, das influências que sofro, enfim…

Escrevi, em poesia, alguma coisa sobre mim, à guisa de notas biográficas. Talvez nesses versos me tenha visto a mim próprio com isenção e verdade. Acredito que sim.

 

Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 15 de setembro de 1765 – Lisboa, Mercês, 21 de dezembro de 1805)

6- Seu principal critério para a escolha de uma leitura é o título, o autor ou o assunto? Qual seu autor preferido?

E.S. – A marca do autor é determinante, depois, a temática abordada numa obra. O título não conta tanto. Quantas vezes o autor escolhe um título que pouco tem a ver com o conteúdo sobre o qual se debruçou.

Se tivesse que explicar as influências da minha poesia, escolheria, sem dúvida, como fonte maior de inspiração, a segunda metade do chamado período barroco (meados do século XVII – fins do século XVIII), sem esquecer os vastos e sempre presentes recursos do arcadismo – que lhe foi sucedâneo no tempo – mormente tudo o que li do grande Bocage. Admito, todavia, que no século XIX, romantismo adentro, se escreveu muito bem o ‘lirismo amoroso’, que em mim, e em muito do que escrevo, encontra também expressivo eco.

Tomás António Gonzaga (Miragaia, Porto, 11 de agosto de 1744 — Ilha de Moçambique, 1810)

Sem querer aqui deixar uma exaustiva lista de citações, mencionarei, somente, alguns poetas que me habituei a ler, com admiração e respeito: do período Barroco e Árcade, certamente os portugueses Marquesa d’Alorna e o citado Bocage, e alguns brasileiros, entre eles Tomás António Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa. Além destes, e ainda neste período, a narrativa poética do francês Jean-Jacques Rousseau e de outros escritores e filósofos notáveis, constituem, na minha biblioteca, documentos de consulta regular.

Já no período dito parnasiano, largamente recorrente de citações das três Mitologias, só posso ser coerente comigo citando os grandes poetas brasileiros Olavo Bilac, Machado de Assis e Raimundo Correia.

Sem preocupações cronológicas, citarei ainda outros poetas do meu país que sempre me encantam: Antero de Quental, António Nobre, Cesário Verde, Florbela Espanca… e os contemporâneos; Eugénio de Andrade, David Mourão Ferreira, Alexandre O’Neil,  José Carlos Ary dos Santos e o popular José (Zeca) Afonso. Os brasileiros:  Fagundes Varela, Álvares de Azevedo, Castro Alves e o grande comunicador Vinicius de Moraes, sem menosprezar tantos outros, como o inglês oitocentista Robert Burns, cuja obra – até pelas funções que exerci como Editor de Poesia & Literatura em dois grandes sites brasileiros – tenho lido, apreciado,  e editado. John Donne e Edgar Alan Poe, são outras referências a reter.

 

7-Tem sonhos literários? Quais?

Acho que vou responder pelo menos em parte à sua pergunta reproduzindo aqui o que um dia escrevi:

« Amávamos os livros…

Esses depósitos de ideias, de conhecimentos. Que bom era manuseá-los, tomar-lhe o peso, cheirar-lhes a tinta de impressão, o mofo, palpar-lhes o sedoso papel das suas páginas, avaliar-lhes o seu intrínseco valor!

Sim, os da minha geração; os que nasceram nos últimos anos da primeira metade do século passado, e os que nos antecederam, amávamos os livros.

Ainda os amamos, com ternura, à distância.

Hoje, esses testemunhos silenciosos da sonolenta tremura dos nossos cílios

nas noites prolongadas pela insistência sôfrega da curiosidade da descoberta,

jazem, empoeirados, nos jazigos que lhes reservamos; as prateleiras de um qualquer sótão, acompanhados das velhas arcas de família, depósitos de memórias que já ninguém mais quer lembrar.

Continuo a pensar que a nossa civilização dobrou este ciclo da sua evolução alguns anos atrás. Prosseguimos a jornada, mas em retrocesso, sobretudo do social, afinal o objectivo maior de qualquer evolução. E não é com a sensação de fatalidade que o afirmo, faço-o com a tranquila convicção do inevitável, como se tivesse voltado uma das páginas de um dos meus queridos livros, que já muito poucos querem ler. »

Do que atrás se lê pode inferir-se o que todos nós já sabemos; das conquistas da internet, do fenómeno das redes sociais, e das programações das televisões. Todas elas vieram ocupar muito do tempo até então disponível por cada um de nós, e sobretudo pelas novas gerações.

Quanto a edições com o meu trabalho, tenho um sem número de poemas postados por amigos/as em diferentes locais da Internet, além de alguns e-books que me foram oferecidos.

 

8- É notívago ou só cria à luz do dia?

E.S. – Não posso dizer que seja um noctivago. Na realidade, depois de aposentado habituei-me a escrever a qualquer hora, sempre que sinto chegar-me a inspiração.

O sossego da casa onde vivo presta-se a isso, embora reconheça que no silêncio absoluto da noite haja mais ambiente para pôr as ideias na tela do meu PC.  Se posso escolher, então prefiro fazê-lo entre as onze da noite e as duas horas da madrugada, hora a geralmente vou descansar.

 

9- Já deixou de escrever para não magoar pessoa muito chegada?

E.S. – Já, mas não voltarei a fazê-lo. A esse respeito colhi uma grande lição ao ler e intuir o poema de José Carlos Ary dos Santos: “ Poeta castrado, não! “, cuja leitura recomendo vivamente.

Depois decidi divulgar o que sentia, ao escrever:   Não sou daqui nem de parte nenhuma, minh’alma  de poeta – porque universal – tem a deriva que o vento  dá à escuma.

 

10- Qual é a sua opinião sobre a reforma ortográfica?

Em Portugal, onde nasci, desde os primeiros anos escolares eram administradas aos alunos noções de moral e, através dela, de ética humana. Também a língua portuguesa era, ao tempo, considerada matéria básica na formação de um aluno e, desde cedo, os textos de Camões e de outros grandes poetas e prosadores lusitanos, eram lidos interpretados, e explicados à exaustão.

Considero a intuição dos aludidos princípios, valores e conhecimentos, indispensáveis a quem, como eu, veio a consagrar parte importante da vida a transmitir aos outros, em bom português, a sua análise crítica dos movimentos da sociedade em que me incluo.

Quanto à tão falada ‘reforma (ou acordo) ortográfica’, tal como inúmeros poetas e escritores do meu país, escolhi não a adoptar, e por isso (eu e eles) mantenho-me a escrever segundo as regras pelas quais aprendi a língua mater, da qual me orgulho.

 

11- Deixe uma mensagem para os leitores do Jornal Rol.

E.S. – Há pessoas que não leem um jornal sequer! Acredito quer hoje seja a grande maioria, por incrível que pareça. E não são me refiro aos analfabetos.

A este respeito, cito Mário Quintana: “os piores analfabetos são os que aprenderam a ler, mas não o fazem”.  Também admito, conforme a análise a que acima procedi, que a maioria das pessoas hoje não leia jornais ou livros por falta de tempo, embora reconhecendo a premente necessidade de sua leitura. A vida moderna faz com que ‘outras devoções’ porventura mais apelativas, se sobreponha à razão ponderada.

Portanto, a minha mensagem aos leitores do Jornal Rol, baseia-se numa única sugestão: não deixem de ler o que outros seres empenhados escrevem para vós. Essa é a melhor maneira de premiar o seu trabalho. Lembrem-se que todos os dias aprendemos com os demais.

 

Muito obrigada, pela sua disponibilidade em participar dessa entrevista.

Magna Aspásia Fontenelle

 

E.S. –  Ora essa, minha amiga e ilustre par; foi um prazer poder expressar aqui algumas das ideias e falar de mim, coisa que habitualmente não faço.

Eugénio de Sá

(meugesa1@gmail.com)

 

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