Isabelly de Souza Manoel: ‘O homem que consertava sorrisos’

25/12/2018 18:28

“Há muito tempo atrás, existia um vilarejo nada populoso, onde havia alguns aldeões. Esses aldeões já não sorriam mais…”

Há muito tempo atrás, existia um vilarejo nada populoso, onde havia alguns aldeões. Esses aldeões já não sorriam mais. Eles eram extremamente ranzinzas e não davam o mínimo sorriso sequer, mas sempre existem os diferentes no meio de uma multidão de pessoas padrão de determinado local.

O diferente da vez era um garoto de 16 anos chamado Castiel. Ele tinha uma estatura alta com pele bem branca, cabelos vermelhos iguais a uma rosa e olhos na cor azul marinho.

Castiel era órfão de pai e sua mãe estava muito doente, mas isso não impedia o jovem garoto de sorrir.

Ao andar alegremente pelo vilarejo a caminho de seu cercado de ovelhas, Castiel encontrava vários rostos familiares e ranzinzas pelo caminho.

─ Bom dia! ─ dizia alegremente ao ferreiro do vilarejo.

─ Oi… ─ disse o ferreiro, revirando seus olhos castanhos, desinteressadamente.

─ Tenha um bom trabalho! ─ disse o garoto, que, logo em seguida, saiu correndo animado em direção ao cercado de suas preciosas e amigáveis ovelhas.

O garoto sentou-se no gramado do cercado, onde, rapidamente, foi cercado por diversas ovelhas.

─ Há! Há! Há! ─ gargalhava o garoto após algumas ovelhas começarem a lamber seu pescoço e suas bochechas rosadas.

Enquanto Castiel acariciava a lã de uma de suas preciosas ovelhas começou a falar sozinho:

─ Seria tão bom se os habitantes do vilarejo sorrissem e tivessem pensamentos otimistas…

Castiel logo começou a ouvir um choro, que era aparentemente de uma criança. Não esperou duas vezes e se levantou para ver quem estava chorando, até que se deparou com uma garotinha com, aparentemente, sete a dez anos de idade, com seus cabelos castanhos em um penteado de Maria-Chiquinha, sua blusa branca e seu suspensório cor-de-rosa, com sapatinhos também brancos e suas pequenas mãozinhas cobrindo seus olhos cheios de lágrimas.

─ Garotinha? Está tudo bem? Por que você esta chorando?

A garotinha tirou a mão dos olhos, revelando lindos olhos de cor amêndoa e olhou assustada para o ruivo que estava parado a sua frente. Após um momento de silêncio a garotinha abriu a boca para falar e disse:

─ Não é nada moço… Eu não dou sequer um sorriso faz um bom tempo e venho aqui para chorar.

Castiel, por sua vez, caminhou até um canteiro de lírios e pegou um deles, que tinha tons rosados em suas pétalas e colocou-o no cabelo da garotinha, que, por sua vez, apenas observava o ruivo com curiosidade.

─ Dê-me sua tristeza e insatisfação toda para mim e eu te darei parte de minha alegria em troca.

A pequena garotinha correu para os braços do ruivo dando a ele um abraço apertado, e imediatamente teve sua tristeza e insatisfação transferida para o Castiel e sentiu uma enorme alegria dentro dela! Após a garotinha sair do abraço do ruivo, ela deu-lhe um sorriso brilhante.

─ Obrigada moço ─ disse a garotinha após depositar um beijo na testa do ruivo. ─ Me chamo Elaine e obrigada, novamente!

A garotinha foi embora saltitando e sorrindo:

─ E… Elaine. ─ Repetiu o nome da garotinha em voz baixa e colocou sua enorme mão no local aonde a garotinha o havia beijado.

─ É isso! ─ gritou animadamente e saiu correndo de volta para casa, onde planejou a noite inteira tudo o que faria a partir dali.

No dia seguinte o jovem Castiel derrubou algumas árvores, alisou e acertou as madeiras e ia montando de pouco em pouco uma loja nas proximidades de sua casa. E assim foi durante um mês até a finalização da loja.

Enfim, sua loja ficou pronta. E foi nomeada de “Artesão de Sorrisos”, por ninguém mais e ninguém menos que a jovem Elaine, a garotinha do campo que estava a chorar.

Na inauguração da loja, aparecia um aqui e outro ali por curiosidade, mas, depois foram aparecendo cada vez mais clientes interessados, que vinham de todos os lugares do mundo ter seus sorrisos novamente.

O dinheiro que Castiel ganhava com a loja, ele comprava remédios para sua mãe doente e comida.

Após três anos, o bairro ficou mais animado e colorido, no entanto Castiel já quase não sorria mais.

─ Cassy? ─ sua mãe o chamou pelo apelido de infância.

─Sim, mãe!

─Você fez um excelente trabalho esses três anos seguidos fazendo a alegria das pessoas voltar! Estou tão orgulhosa de você!

─ Fico feliz…

─ Venha! O jantar está pronto! ─ disse a mãe do garoto, animada.

─ Já vou mãe, pode ir na frente.

Quando, finalmente, o ruivo resolveu se levantar de seu banco de madeira, o sino da porta fez barulho indicando um novo cliente

─ Você é o jovem que conserta sorrisos? ─ disse um senhor idoso com os cabelos grisalhos, acompanhado por uma senhora idosa, com os cabelos negros e algumas mechas brancas.

─ Sim, o que desejam?

Imediatamente a senhora se ajoelha na frente de Castiel e diz:

─ Por favor, devolva o sorriso e a felicidade ao meu querido neto! Nós podemos pagar!  ─ A moça retira um saquinho antigo com a tonalidade de vermelho escuro da bolsa, abrindo-o e revelando algumas moedas de prata, que são rapidamente despejadas sobre o balcão de Castiel. ─ Não é muito, mas, é tudo o que temos! Por favor, aceite!

Castiel, por sua vez, colocou um gentil sorriso em seu rosto e olhou para os três.

─ Por favor, levante-se senhora.

A senhora olhou para o ruivo com os olhos arregalados e logo se levantou, limpando seu simples vestido azul feito de alguns trapos.

─ Podem ficar com suas moedas de prata.

Os três olharam agitadamente uns para os outros à procura de uma resposta para as ações daquele moço jovem e ruivo.

Castiel apenas começou a andar calmamente em direção ao garotinho loiro de olhos azuis como o céu, se ajoelhou na frente dele e o abraçou fortemente, depositando seu último vestígio de felicidade nele e puxando para si toda a angústia do menino.

Após tirar o garoto de seu abraço se deparou com um largo sorriso cheio de dentes brancos, o ruivo ficou sem reação, pois já não sentia mais a sua felicidade dentro de si, somente estava acenando para os pedidos de agradecimento do antigo casal.

─ Obrigada de verdade moço! ─ disse o loirinho, com uma expressão alegre em seu rosto.

─ Sim… ─ respondeu Castiel.

E os três saíram pela porta, porém o ruivo ficou ali parado sem emoção, já que não conseguia mais sentir sua felicidade, mas ele simplesmente ignorou isso e foi jantar com sua mãe, que sorriu alegremente ao filho, mal sabia a coitada que aquele seria o último jantar juntos.

Durante a noite, após sua mãe ter caído em sono profundo, Castiel pegou uma sacola de roupas, algumas frutas, uma jarra de água e sumiu, sem deixar rastros ou pistas da onde iria, apenas deixando um bilhete a sua mãe, no qual tinha como mensagem um pedido para que não se preocupasse com ele e que ele não iria mais ficar ali já que ele não conseguia mais sorrir.

Nunca mais se teve noticias sobre o jovem e ruivo artesão de sorrisos. Mas a imagem de um ruivo com um sorriso calmo, alegre e relaxante sempre ficaria na memória e no coração daqueles que o conheceram.

 Isabelly de Souza Manoel – andreiacrys.s@gmail.com

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