Inovando mais uma vez, o Jornal Cultural ROL lança a seção ‘Entrevistas ROLianas’

11/01/2021 21:21

A colunista Alcina Maria Silva Azevedo inaugura a nova  seção entrevistando o poeta carioca Luiz Poeta

Alcina Maria S. Azevedo

Jornal ROL, sempre inovando, lança a seção ‘Entrevistas ROLianas’, tendo como entrevistadores os colunistas do jornal e como entrevistados importantes personalidades culturais.

Para dar inicio à série, convidamos a colunista Alcina Maria S. Azevedo. E razões não faltam para essa escolha

Como não poderia deixar de ser, toda família tem uma avó que marca a vida de todos os familiares, em especial dos netos. No caso, os netos somos nós do ROL, que aprendemos a admirá-la e a amá-la pela sua cultura e pela experiencia de vida fascinantes e também pelo jeito carinhoso de sua personalidade. É por isso que todos os colunistas do ROL a amam e a tratam como ‘Vó Alcina‘. (Sergio Diniz da Costa, editor)

Vó Alcina pega o microfone e, antes da entrevista propriamente dita, faz uma introdução: “O Jornal Cultural ROL  a esta nova seção intitulada ‘Entrevistas ROLianas’ e, por eu ser a decana dos colunistas, coube a mim o privilégio de inaugurá-la com o primeiro Bate-Papo Cultural.

Considerando que 2021 nos traz a esperança de tempos melhores, pensei em entrevistar alguém que pudesse falar sobre amor, de uma forma geral e transcendente.

E falando em amor, lembrei-me de um poeta que sabe falar de amor como ninguém: LUIZ GILBERTO DE BARROS! O nosso conhecido e amado Luiz Poeta, compositor, violinista, escritor, contista, cronista, crítico literário, artista plástico, cantor, prefaciador e com numerosos prêmios e troféus adquiridos pelo seu talento e sensibilidade. Um professor amado pelos alunos e admirado nas redes sociais.

Ele enriquece a nossa literatura com a humildade e cultura, que lhe é peculiar. Seus poemas sensibilizam os nossos corações, pois ele escreve com a alma.

Vamos, então, saber um pouco mais desse multiartista brasileiro.”

ALCINA MARIA:  Você nasceu no Morro do Retiro, no Rio de Janeiro. Conte-nos um pouco da sua vida infantil e como chegou a ser essa pessoa notável que é hoje.

O “Morro do Retiro”, onde orgulhosamente nasci, fica localizado no subúrbio carioca ( periferia ) , no Bairro de Bangu, entre as Vilas Kennedy e Aliança( onde nasceu o célebre escritor brasileiro José Mauro de Vasconcelos, autor de “Meu pé de Laranja Lima “, Rosinha, minha canoa etc.). Foi lá que começou a minha história: minha família tem o DNA dos agricultores e começou com a vinda dos italianos Quirino Ventura e Zaíra Zaniboni, que aportaram no Rio e se casaram em Cantagalo, cidade Fluminense, exatamente em 1900. Os Zaniboni e Ventura juntaram-se com os portugueses Lobo, Monteiro, Barros, Sousa, Souza, Ferreira e Arouca  que deram origem a quem sou hoje: Luiz Gilberto de Barros.

Minha mãe era lavadeira ( com direito a trouxa na cabeça e tudo mais; meu pai trabalhava na Fábrica Bangu, que exportava tecido para o mundo inteiro ( com estampas desenhadas pelo meu primo Alair Ventura – todos os meus parentes, inclusive meu avô trabalhavam lá além dos biscates que faziam ).

Nasci de parteira, mamei, na falta de leite de minha mãe, orgulhosamente,   no peito de uma mulher negra  e éramos  realmente pobres, mas demorei muito a me dar conta disso, porque éramos muito felizes: aprendi a fazer meus próprios brinquedos como moinhos ( lá no morro chovia muito )  com talos de bambu e cavalinhos de barro, além do meu arco e flecha e atiradeira. Amava comer rolinha frita com canjiquinha e taioba que minha avó preparava sorrindo para nós e chorando escondido, pois não tinha uma comida mais digna para nos dar. Adorava “pão duro” e raspa de arroz e de angu ( hoje, fico rindo quando minha mulher deixa queimar ).

Meu avô criava  leitões, matava-os após um ano de engorda, mas recebia adiantadamente o pagamento pelos pernis, chouriços etc. Vê-lo matar um porco era um ritual quase mediúnico, de tão respeitosamente metafísico. Por outro lado, recebíamos as Folias de Reis e era uma festa de broas, galinhadas, vinhos e licores de anis ( eu amava bebê-lo escondido ).

Éramos todos primos e nos amávamos… nos respeitávamos… nos ajudávamos: negros, brancos, mestiços, nordestinos:  todos com a mesma sina: sobreviver.

Tratava-se de  um morro de muitas árvores frutíferas ( manga, abiu, jaca, jabuticaba, pitanga,  romãs, frutas-do-conde, maracujás, uvas… além da hortaliças e leguminosas que as mulheres cultivavam e que e nós amávamos saborear.

Á tardinha, todos rezávamos a “Ave Maria” e o “Pai Nosso” –amávamos a revista “Modinha Popular” e sempre cantávamos antes de dormir. Ouvíamos os programas do César de Alencar, Júlio Louzada e Luiz de Carvalho – A Rádio Nacional era uma coqueluche.

Havia um tanque só para várias  mulheres lavarem roupas e uma aproveitava, democraticamente, a água usada da outra. O banheiro também era único e todos faziam fila para usá-lo ( nenhuma casa possuía vaso sanitário ). Certa vez, uma cobra coral atravessou nossa sala e sumiu na cozinha; outra, uma cobra cipó balançou sobre nossas cabeças; outra, ainda, uma jararaca deu-me um bote ( isto era normal no morro ).

Quando chovia, a água atravessava, sem pudor, as frestas do zinco (todos corríamos com bacias, jarras, panelas, latas para aparar as goteiras que às vezes caíam sobre nossas camas ). Rezávamos fervorosamente durante os  temporais para que nossas casas não fossem levadas. Estou escrevendo um livro sobre isso e, por incrível que pareça, rio muito( melancolicamente ).

Certa vez levei minha filha para conhecer o morro e pegar um pouco de argila para ensiná-la a afazer meu bonequinhos. Fui recebido por um cidadão armado e tive que explicar o motivo da minha ida lá ( nunca mais retornei ). Meus primos e eu sumimos na bruma do tempo. Hoje, quando ouço algum teoricoide ( que nunca morou num morro ) discutir, com veemência,  sobre racismo, desligo o áudio ou o vídeo ( eles não sabem nada ).

É isso, minha amiga:  há muito o que dizer, ainda, sobre o “Morro do Retiro”.

Quanto à segunda parte da pergunta, sabe, Alcina, “sonhar é fazer, de cada estrada, um pequenino pedacinho de céu”(lgb) e eu, honestamente, ainda me sinto um menino distraído que brinca de fazer de cada sonho o seu maior empreendimento espiritual. Quando criança, sonhava ser marinheiro (risos) pois encantava-me a narrativa de Robinson Crusoé, que li diversas vezes. O mundo dos sonhos era o meu mar, todavia percebi, cedo ainda, que a vida, mais que um mar, é todo um oceano de perspectivas e contatos epidérmicos com a dor nossa de cada dia, onde a arrogância, a prepotência, a inveja, o ciúme, o egocentrismo e outros comportamentos nocivos do ser humano, avessos à luta e ao sucesso do outro,  impossibilitam-lhe a  caminhada e o seu direito de amar a vida e os que nela habitam.

Hoje, embora seja um homem que sobreviva dos resultados que adquiri pelo meu trabalho material, sou um eterno sonhador compulsivo, que vê, no meu olhar de criança impulsiva, apenas a vontade de ser feliz a cada momento, realizando o mínimo que possa, a cada passo que dou nos nebulosos e oníricos degraus da minha vida.

Acho que jamais crescerei, enquanto a ingenuidade e a persistente inocência desse menino habitar meu coração.

AM – O que te motivou a escrever?

LGB – Sempre li revistas em quadrinhos e me via em cada herói das páginas dos gibis. Achava maravilhosamente expressivo o nome do cavalo do “Flecha Ligeira”: Órfão da tempestade ! Era um corcel malhado, lindo ! Percebi, então, alguma coisa beneficamente anormal na minha capacidade de interpretar até mesmo o significado nome de um animal na construção textual. Aprendi a ler, comparando os desenhos dessas revistas, com os ruídos que os representavam. Daí pra frente, foi fácil  relacionar a forma das imagens com a impressão e a semântica das palavras. Quando minha professora primária (a maior e das mestras que conheci) disse-me, emocionada, após a leitura, que eu seria um escritor, compreendi que a profecia estava perfeitamente correta e comecei, inevitável e compulsivamente,  a escrever).

AM Qual é ou quais são suas fontes de inspiração quando escreve?

LGB – Simplesmente escrevo o que me sopram minhas “inspirações misteriosamente atemáticas”, pois elas só se aliam às ideias, quando me torno um cronista, contista, enfim, um prosador. Não escolho esse ou aquele tema… simplesmente deixo fluir o que me toca. Posso falar de  Deus, do amor, de dor, do meu tempo na vida, dos amigos ou das ocorrências sociais… de tudo que as misteriosas transcendências cósmicas me ditem (meditem). Quando escrevo bem, sinto-me um coautor de Deus porque, para mim, nesses embevecedores momentos, ele é Quem dita; eu simplesmente copio.

AM – Quando você começa a escrever já tem a história toda pensada, ou deixa a imaginação fluir?

LGB – Estou sempre pensando e, volta e meia, esqueço-me dos afazeres planejados, largo tudo e vou direto para uma folha qualquer para escrever ou para um arquivo do celular na intenção de digitar. As narrativas jamais são planejadas (quando tento fazê-lo, acabo rasgando tudo e jogando fora, pois tornam-se mecânicas e repetitivas). Tudo em mim é espontâneo e às vezes impulsivo mesmo.

AM – Quais são os desafios diários de um escritor? Você tem uma rotina para a escrita?

LGB – Escrevo tão compulsivamente,  que acabo me desorganizando. Acho que meu maior desafio é mesmo a organização: sou capaz de parar de escrever para pintar uma tela, tocar um violão, compor ou inventar alguma arte na expressão da palavra (diria que isto é um “toque” que não tenho o mínimo interesse em curar – risos ). Por outro lado, minhas coisas são super bem arrumadas e organizadas em gavetas, nichos ou estantes, como medalhas, troféus, diplomas, livros meus e de amigos,  roupas, ferramentas etc. Em 1980 tinha, contados, mais de 10.000 textos escritos; de lá pra cá, não contei mais nada, pois não tenho  tempo de fazê-lo. Só me agendo mesmo para compromissos como esta preciosa e atraente entrevista (aí, sim, me organizo).

AM – Quantos livros você tem publicado? Fale um pouco sobre eles.

LGB – Noutro dia, espantei-me: entre livros-solo, antologias, publicações em jornais e revistas e afins, tenho mais de cento e poucas edições em papel, além dos livros virtuais. Alguns livros, apesar de completos, parecem estar eternamente no prelo (pelo menos uns seis, de poesias, trovas, aldravias, quintas, sonetos, contos, crônicas, ensaios e romances) principalmente agora, com o advento da “Covid “. Um deles, que me agrada muito, é infantil:  chama-se “A cobrinha que era falsa” (amei-o depois que o reli ).

AM – Qual o conselho que você daria para um autor principiante?

LGB – Que leia sempre, para criar seu próprio estilo, mas que não se torne arrogante nem egocêntrico, achando-se melhor que todos logo após a primeira escrita ou publicação, embora seja  neófito no aprendizado literário. Sempre disse para os meus alunos que “igual não ocupa vagas” . A autenticidade é mais que marca registrada: é carisma e dom.

AM – O que você acha do nosso mundo de hoje?

LGB – Às vezes penso que a mecanicidade do mundo e a velocidade do tempo tornaram-se tão implacáveis e devastadoras que  inibiram qualquer possibilidade sentimental do ser humano de amar, confraternizar e mesmo de ser verdadeiramente feliz. O segundo mandamento da Lei Divina  parece ter sido banido dos preceitos cristãos e a sincera palavra irmão restringe-se apenas a um grupo, como nós, de uma raça, inexoravelmente em extinção. Para esse povo movido à irracionalidade, quase tudo se tornou banal: estuprar, violentar, matar, roubar, promiscuir-se, corromper e corromper-se, pôr a culpa em alguém  e outros fatos deprimentes passaram a ter uma dimensão tão doentia, que um vírus mortal como este que assola o planeta, ainda parece ter menor importância que essa insanidade animal. Costumo dizer que o o animal mata para comer, enquanto o homem raciocina para exterminar.  Infelizmente, esse é o mundo que vejo, onde a propagação e a verdadeira  prática do bem ainda são os alicerces para um mundo  melhor. A maioria das famílias, quando morre o pilar mais importante delas, simplesmente cria o seu próprio êxodo e cada um adota para si a televisão como  seu novo mestre-instrutor. Simplesmente exterminam a própria história. É triste isto.

AM – Tem alguma coisa que você não fez na vida e que gostaria de ter feito? E alguma coisa que fez e que, se pudesse, não teria feito ou faria de outra maneira?

LGB –  Gostaria, por exemplo, de ter estudado piano, embora costume brincar (autodidaticamente) com as teclas… gostaria de ter falar  francês… dominar melhor o meu inglês  embora opte pelo “te amo” no lugar do “I love you” e do “je t’aime” )… tudo que fiz na vida, foi procurando  seguir para onde apontava o dedo de Deus, por isso, apenas aperfeiçoaria tudo que fiz.

AM – Deixe aqui uma mensagem final para os leitores do Jornal ROL.

LGB – A palavra prioritária para vocês do Jornal Rol, em especial para o jornalista Sergio Diniz e para a escritora e amiga-irmã  Alcina Maria – que me deram o honroso privilégio desta agradável entrevista –  é “GRATIDÃO”. Parabéns pelo que realizam com tanta sensibilidade e excelência jornalística. Deus os abençoe e lhes permita continuar este trabalho tão proficuamente produzido em prol da cultura, da educação e do ser humano,  que precisa tanto de ler, aprender e propagar o bem comum no seu sentido mais fraternal e amigo como vocês  o fazem com mestria, amor e respeito  pelo próximo. Obrigado, de coração!

 

Luiz Poeta – Luiz Gilberto de Barros –Rio de Janeiro – Brasil