Gonçalves Viana: ‘Imagina…’

17/04/2019 00:06

Gonçalves Viana

IMAGINA…

 

Lucia Branco e pianistas seus alunos

Aquele jovem, com seus vinte anos, caminhava pensativo. Havia saído da escola de música, onde estava tendo aulas de piano com a renomada professora Lúcia Branco (1903-1973), que também era professora de Nelson Freire, Arthur Moreira Lima, Luiz Eça, entre outros. Corria, então, o ano de 1947.

O motivo da sua apreensão era que a professora havia dado a ele uma tarefa que consistia em escolher um clássico, e desenvolver um exercício musical com o seu respectivo tema.

O clássico escolhido por ele foi o “Bolero” de Maurice Ravel. A professora achou interessante, mas contestou: o “Bolero” é muito conhecido e melodicamente repetitivo. Porque você não usa outra peça desse mesmo Mestre, a “Valse”, que é menos conhecida e com um grau maior de dificuldade.

 

MOONLIGHT DAIQURI – LEO PERACHI

O jovem caminhava absorto, e seguia tentando se lembrar da Valse, de Ravel, enquanto pensava em algo para desenvolver a seu trabalho. Afinal, conseguiu, ele. realizá-lo, cujo resultado agradou à professora, a “Valsa Sentimental”, como ele a denominou. No entanto, ele mesmo não havia se entusiasmado, não gostou do que fizera. Escreveu a partitura e guardou-a entre seus pertences, que lá ficou esquecida por onze anos, quando, já em 1958, foi gravada em um LP orquestral, o Cocktails, com arranjos e regência de Leo Perachi, com o nome de “Moonlight Daiquiri”.

 

Tom-Jobim

Esse rapaz que se chamava Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, veio a ser, mais tarde, o nosso maestro soberano, conhecido apenas por Tom Jobim, e que, juntamente com o poeta Vinicius de Moraes e a batida do violão de João Gilberto, criaram um movimento musical dos mais instigantes e inovador da nossa música: a Bossa Nova.

A sua trajetória musical é sobejamente conhecida de todos. O seu parceiro mais constante, quando do advento da Bossa Nova, Vinicius, partiu para outras parcerias, assim como o próprio Tom.

Chico Buarque

Certa vez, Chico Buarque estava na casa do Tom, conversando sobre música, quando Chico, ao remexer nos guardados de Tom, encontrou a partitura da ‘Valsa sentimental’ e pediu que ele a tocasse. Na hora Tom retrucou: ─ Nem pense em pôr letra, essa canção é muito ruim, é impossível colocar versos, ela é só mesmo instrumental.

 

 

MIGUEL FARIA JR.

No inicio da década de 1980, o diretor de cinema, Miguel Faria Jr. quis fazer um filme baseado em um espetáculo musical de 1963, Pobre Menina Rica, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes.

Carlos Lyra

 

Miguel, então, pediu ao Tom e ao Chico que criassem a trilha sonora do filme. Ele queria, também, uma canção para ser cantada pelos protagonistas Djavan e Patrícia Pillar – esta, no auge de sua beleza, aos 17 anos.

 

 

A peça Pobre Menina Rica nunca havia sido encenada como musical, apenas como recital, como fora em maio de 1963, na boate Au bom Gourmet, com Vinicius lendo a sinopse, e a canção com Carlos Lyra e Nara Leão, acompanhados pelo conjunto de Roberto Menescal. Em 1964, acontecera a gravação de um disco com arranjos de Radamés Gnattali, com Carlos Lyra, Dulce Nunes e outros nas canções. Daí o interesse de Miguel Farias Jr. em realizar o filme a que se chamou “Para Viver Um Grande Amor

 

Tom e Chico, aproveitaram três canções do musical Pobre Menina Rica de Lyra e Vinicius, e completaram com composições suas, e duas do Djavan, porém, faltava, ainda, a tal canção que seria interpretada por Djavan e a Patrícia Pillar. Chico lembrou-se, então, daquela valsa que Tom afirmava ser iletrável, aceitou o desafio e colocou nela uma letra, enviando-a por telegrama ao Tom, que estava em Nova York. A canção passou a se chamar “Imagina (Valsa Sentimental)”.

 

JOÃO GILBERTO

Chico recebeu de volta um telegrama de duplo sentido bem no estilo de Tom, com os dizeres: It’s very exquisite! Exquisite em inglês pode significar: seleto, escolhido, raro, extraordinário, delicado, excelente, delicioso, primoroso, fino, apurado, requintado. Embora alguns desses adjetivos também sejam sinônimos de esquisito em português, o mais comum seria “estranho”.

 

 

 

IMAGINA

Imagina

Imagina

Hoje à noite

A gente se perder

Imagina

Imagina

Hoje à noite

A lua se apagar

 

Quem já viu a lua cris? *

Quando a lua começa a murchar

Lua cris

É preciso gritar e correr

Socorrer o luar

Meu amor

Abre a porta pra noite passar **

E olha o sol da manhã

Olha a chuva

Olha a chuva, olha o sol

Olha o dia a lançar serpentinas

Serpentinas pelo céu

Sete fitas

Coloridas

Sete vias

Sete vidas

Avenidas para qualquer lugar

Imagina

Imagina

Sabe que o menino que passar

Debaixo do arco-íris vira moça, vira

A menina que cruzar de volta o arco-íris

Rapidinho volta a ser rapaz

A menina que passou no arco era

O menino que passou no arco

E vai virar menina

Imagina

Imagina

 (Tom Jobim / Chico Buarque)

 

* Tom Jobim julgou estranha a expressão “Lua cris”, ele que era mestre também na língua materna, teve que consultar um dicionário para certificar-se que “Lua cris” significa lua em eclipse ou eclipse da lua que provoca medo.

** Esse verso era no plural: “Abre as portas pra noite passar”, mas Tom, gaiato que era, cada vez que o cantava, cantava assim: “Abre as pernas pra noite passar”, Chico então, colocou o verso no singular.

                                                                                    

Gonçalves Viana