Gonçalves Viana: ‘Um templo da Bossa Nova’

26/11/2018 12:30

“Se, no Brasil, o Rio de Janeiro foi o berço da Bossa Nova, atualmente, um dos seus maiores templos fica no outro lado do mundo, no Japão.”

Leila Pinheiro

Se, no Brasil, o Rio de Janeiro foi o berço da Bossa Nova, atualmente, um dos seus maiores templos fica no outro lado do mundo, no Japão.

Eles reverenciam tanto a nossa música, que chegam mesmo às raias de uma adoração religiosa. Eles reproduzem os acordes com excelente e incrível perfeição, chegando até a melhorarem o seu resultado, enquanto os interpretes cantam sem o menor sotaque.

Roberto Menescal

Conta Leila Pinheiro* que, numa excursão que fez ao Japão, junto com Roberto Menescal **, estavam os dois percorrendo as ruas de Tóquio quando, descendo uma ladeira, ouviram um vozeirão cantando um samba brasileiro (Gostoso Veneno), a Leila comentou: ouça, Menasca, a Marrom, ela está aqui, vamos lá ver! Era uma casa de shows, denominada “Praça Onze” (na pronúncia dos japoneses: ‘Paraçu onze’). Adentraram o recinto e, cadê a Alcione? No palco, uma japonesa, garotinha miúda, que emitia aquele vozeirão todo, sem o menor sotaque. Fechando os olhos poderia se dizer que era a Alcione em pessoa que estava cantando.

Paulinho da Viola

Terminada a música, Leila foi cumprimentar a interprete. A cantora apavorada fazia gestos com as mãos, que não! Não! Ela não entendia nada de português, apenas havia decorado a letra e o sotaque.

Em outra ocasião, Paulinho da Viola, visitou esse mesmo lugar, o Praça Onze. Assim que entrou, foi imediatamente reconhecido pelo apresentador, que pediu a ele para dar uma canja.

Paulinho ficou preocupado, será que esse conjunto, constituído só por japoneses conhecia alguma coisa do seu repertório? Saberiam samba?

O apresentador retrucou: – nós conhecemos todo o seu repertório, pode pedir o que quiser! Ele então pediu o samba ‘Quatorze Anos’ e, para sua surpresa, os músicos o acompanharam com mais perfeição que qualquer conjunto brasileiro faria.

Pois é, se quiserem ouvir música brasileira autêntica é só procurar o “Paraçu onze”, no Japão.

 

QUATORZE ANOS

Tinha eu 14 anos de idade

Quando meu pai me chamou

(quando meu pai me chamou)

Perguntou se eu não queria

Estudar filosofia

Medicina ou engenharia

Tinha eu que ser doutor.

 

Mas a minha aspiração

Era ter um violão

Para me tornar sambista

Ele então me aconselhou

Sambista não tem valor

Nesta terra de doutor

E seu doutor:

O meu pai tinha razão.

 

Vejo um samba ser vendido

E o sambista esquecido,

O seu verdadeiro autor

Eu estou necessitado

Mas meu samba encabulado

Eu não vendo não senhor.

(Paulinho da Viola)

Outra coisa, eles chegam a reeditar os LPs de bossa nova, em vinil, e com as capas originais, tudo igual, nos mínimos detalhes, principalmente os lançados pela gravadora Elenco.

Aloysio de Oliveira

A gravadora Elenco é uma outra história. “Criada em 1963, por Aloysio de Oliveira***, foi a primeira no Brasil a se preocupar com o conceito gráfico das capas de seus discos. Mais do que isso, ela criou uma identidade visual única para os seus lançamentos, por obra do seu designer César Villela, com ajuda do fotógrafo Chico Pereira. Essas capas são um grande patrimônio do design brasileiro, a ponto de terem-se tornado a cara da bossa nova, especialidade do selo.

César Vilella

As artes eram concebidas e impressas em duas cores, justamente porque Aloysio não tinha dinheiro para fazê-las em quatro cores. Essa condição, alinhada com o bom gosto e a classe das criações de César Vilella, cujo conjunto de obras-primas do design, com muito branco, algum preto e um toque de vermelho – quase sempre em esferas, numa época em que as capas eram coloridas demais, poluídas e sem conceito – os discos da Elenco eram reconhecidos a metros de distância. “Mesmo amarelados pelo tempo, os LPs originais eram disputados à tapa por colecionadores de discos e designers.”

Mas se vocês quiserem adquiri-los, novinhos em folha e iguaizinhos aos originais, é só procurá-los no Japão.

Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

NOTAS:

* Leila Pinheiro, cantora, nasceu em 16/10/1960, em Belém/PA. Em 1981, mudou-se para o Rio de Janeiro/RJ, onde lançou, em 1983, o seu primeiro LP. ‘Leila Pinheiro’, com participações de Tom Jobim, João Donato, Ivan Lins, Francis Hime e Toninho Horta. Em 1985, ganhou o 3º lugar, e recebeu o Prêmio de Cantora-revelação, no Festival dos Festivais, defendendo a canção “Verde” de Eduardo Gudin e José Carlos Costa Neto.

Representou o Brasil no 17º Festival Mundial Yamaha, sendo eleita a melhor intérprete. Em 1987, recebeu o Troféu Villa-Lobos, da Associação Brasileira de Disco, como revelação feminina.

** Roberto Menescal, violonista, arranjador, compositor e produtor musica, nasceu em 25/10/1937. Formou o ‘Conjunto Roberto Menescal’, atuando com Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Aracy de Almeida e Billy Blanco.

Compôs diversas canções da época da Bossa Nova, tais como, ‘Ah, se eu pudesse’, ‘Rio’, ‘Você’, ‘Lobo Bobo’, ‘Influência do Jazz’, ‘Minha Namorada’ e, em parceria com Ronaldo Bôscoli, o eterno clássico ‘O Barquinho’.

Em 21 de novembro de 1962, esteve no histórico Festival de Bossa Nova, no Carnegie Hall de Nova York (EUA).

*** Aloysio de Oliveira (1914-1995), produtor musical, cantor, compositor, dublador e locutor. Fundou o conjunto vocal ‘Bando da Lua’, com o qual viajou, em 1939, para os Estados Unidos, acompanhando Carmen Miranda. Com a morte de Carmen, em 1955, ele voltou ao Brasil (1956) para assumir a direção artística da gravadora Odeon, onde produziu o disco fundamental da bossa nova: Chega de Saudade de João Gilberto.

Em 1961, transferiu-se para a Philips Records, na qual ficou por oito meses, para, em seguida, criar a gravadora Elenco.

https:/freakshowbusiness.wordpress.com/…/as-capas-dos-discos-da-gravadora-elenco  (02/08/2009)

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