Gonçalves Viana: ‘Um suicídio anunciado’

26/05/2019 15:15

Gonçalves Viana

Conto: Um suicídio anunciado

Imagem extraída da internet

Nas adjacências deste corpo, digo, condomínio, onde resido, foi encontrado um velho (descobriu-se depois o seu nome, Heart, ou melhor, Sr. Coração, como ficou conhecido entre nós) estropiado, com fortes indícios de estar infartado outra vez, pois já era devidamente saf(en)ado.

Estava agonizante, com débeis sinais de vida. Ao que tudo indica, ele saltou da faixa deste corpo (condomínio), provavelmente do 4º andar. Esse andar tem o nome de Caixa Torácica, ou mais popularmente: Peito. Há sinais no parapeito!

Eu moro na cobertura (5º andar) desse edifício, ou melhor, corpo, e nunca me dei muito bem com tal indivíduo. Pois eu, que me chamo Cérebro (apelidado: às vezes: cabeça, outras: massa cinzenta), sempre pensei com a razão. E sempre com muito cuidado, evitando conclusões precipitadas.

Mas esse sujeito, que morava no quarto andar (peito), meu Deus! Só pensava com a emoção, sempre tomado de intensa comoção.

Coitado desse tal Coração, tentou se matar por paixão! Uma paixão dessas mal resolvidas. Dizem, não só as más, mas também as boas línguas, que o objeto de tal paixão não era lá essas coisas não! Que não era para tanto assim! Mas, quem há de entender a razão desse tal coração?

Existem outros moradores neste condomínio (corpo) que estão solidários a essa pessoa e externaram suas opiniões:

Os gêmeos, que moram logo abaixo de mim, os senhores Olhos. Muito choraram por ele. Um choro copioso, convulso, que não tinha nada desses choros que somente vertem lágrimas de crocodilo. Pareceram-me bem sinceros!

O Sr. Boca, que mesmo sem saber o que estava acontecendo, desembestou a falar e não parava mais, emitindo as mais desencontradas interpretações. Ele dava muita atenção às opiniões – fofocas, ou como se diz atualmente: ‘fake news’ – de  moradores de outros condomínios vizinhos.

As senhoras Mãos, se juntaram contritas, assim como se deve, e oraram fervorosamente por ele. Ah, essas mãos, sempre dispostas a todos ajudar!

Os senhores Pés, que moram no térreo, quiseram fugir rapidamente do local, e quem presenciou tal fato até poderia julgar que eles tivessem algum envolvimento com o assunto.

Houve um, que mora em um desvão, entre duas colunas, que depois de tão infausto acontecimento, anda frouxo, murcho, cabisbaixo, bem diferente do tempo (põe tempo nisso!) em que andava todo garboso, cabeça levantada, o porte viril, ereto. Agora jaz inerte, estéril, como se estivesse a dormir encolhido em seu canto. Seu nome não me recordo agora, só o conheço pelo seu sobrenome: Sr. Pinto.

Ah! Esse pobre Sr. Coração, suicidou-se (pois ele acabou morrendo logo depois) por amor. Quem há de entender esses corações que não têm carradas de razão?

 

                                                                      Gonçalves Viana

                                                              viana.gaparecido@gmail.com

 

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