Gonçalves Viana: ‘Um livro’

14/03/2019 15:59

Gonçalves Viana

Gonçalves Viana: ‘Um livro’

OH! BENDITO O QUE SEMEIA
LIVROS… LIVROS À MÃO CHEIA,
E MANDA O POVO PENSAR.
O LIVRO CAINDO N’ALMA,
É O GERME ─ QUE FAZ A PALMA!
É A CHUVA ─ QUE FAZ O MAR!
         (CASTRO ALVES)

 

Sou um livro, tenho a capa que me protege (muito bonita, por sinal!) e meu corpo é formado por folhas onde trago impresso o meu título, o meu assunto.

Nos primórdios da Humanidade, meus antepassados tinham forma de papiro ou pergaminho, que eram rolos feitos de uma planta, onde recebiam os escritos. Somente os iniciados e muito sábios (que eram pouquíssimos) tinham condição de produzi-los ou a eles terem acesso.

Começamos a ter a forma atual, praticamente quando GUTTENBERG inventou a prensa para impressão de textos.

Mas já começo a ver esta forma relegada a, não somente bibliotecas antigas, mas a verdadeiras peças de museu, pois eis que chegamos à era da informática e com ela à INTERNET, basta a pessoa ter um computador e um endereço nela, para ter acesso às mais variadas informações, coisa que antes só eu e meus parentes mais próximos (revistas, jornais etc.) tínhamos.

Já sinto antecipadamente uma enorme nostalgia (o que me daria um nó na garganta, se garganta tivesse) do tempo em que eu e meus irmãozinhos quedávamos um ao lado do outro em uma estante, formando filas, às vezes pequenas, outras enormes, quase sem fim. Todos radiantemente vestidos com nossas capas das mais variadas cores, mas expondo somente nossas lombadas, para que pudéssemos ser devidamente identificados.

Que satisfação sentíamos quando alguém em uma biblioteca pública ou no recesso de seu lar, numa biblioteca particular, se dirigia pensativo para a estante. Ficávamos ansiosos na expectativa de saber quem seria o escolhido. Então lá se ia o felizardo todo garboso com o seu leitor para uma cadeira ou uma confortável poltrona, onde tratávamos de transmitir todo nosso conhecimento para aquele que nos havia escolhido. Além da nossa missão principal (transmitir conhecimentos) havia também a gostosa sensação que era podermos esticar nossos braços e pernas, digo: ─ nossas capas e folhas, após um certo período quietinhos, empertigados em nosso cantinho na estante. Mas voltando à “vaca fria” (Epa! Acho que fiquei algum tempo exposto a alguma publicação espúria, afinal de contas “vaca fria” não é expressão que seja usual para um intelectual como eu); isto é, voltando ao assunto, muitas vezes a empatia entre o leitor e nós era tanta que ele nos elegia o seu livro predileto, o seu “livro de cabeceira”.

Comigo aconteceu algumas vezes de a pessoa me levar; veja bem, hein (sem malícia nenhuma, que não sou nenhum livro pornográfico), para a cama onde eu procurava da melhor forma possível transmitir meu texto, mas… era fatal, logo, logo MORFEU começava a tornar pesadas suas pálpebras, até que a pessoa adormecia por completo. Então eu escorregava lentamente de suas mãos e me aninhava ao seu lado, feliz da vida, por compartilhar tão intimamente da vida dessa pessoa. Quero ver esses esnobes de narizes empinados, os computadores, com toda sua modernidade, todos seus recursos, passarem por uma experiência como essa.

Sei lá, talvez tudo isso que está acontecendo seja correto, pois se for para continuarmos nesse estado de coisas, com poucas pessoas se interessando em ler livros e tivermos que ficar confinados a uma velha estante, sujeitos ao pó, sol, às vezes até às goteiras, sofrendo o ataque impiedoso das traças, cupins, baratas etc. Se for para ficarmos jogados ao léu de qualquer jeito, com nossas capas se estragando, tendo nossas folhas amassadas, rasgadas, dilaceradas, cheias de riscos, garatujas e até palavrões, que venha o futuro, que nos transladem para esse jeito frio de ser, presos dentro de uma máquina.

Mas nada impedirá que, saudoso, eu relembre meus dias de glória, quando alguém sempre cuidava de mim e de meus companheiros, nos espanando, passando um pano para ficarmos sempre lustrosos. Ninguém impedirá, também, que, ao lembrar-me disso, algumas lágrimas secas escorram pela minha capa dura confundindo-se com o amarelado que o tempo inexoravelmente foi me deixando.

A você, que teve a gentileza de perder algum tempo lendo até aqui, peço que, quando me encontrar ou a outro livro qualquer e estivermos em petição de miséria, por favor, procure nos arrumar ou consertar e, se não quiser nos conservar contigo, nos dê, empreste, venda, para alguém que ainda goste de livros (são poucos, mas existem).

Muito obrigado, vou parando por aqui, pois noto que estou me tornando um tanto quanto verborrágico, como sói acontecer com alguns livros.

                                                              Gonçalves Viana  – viana.gaparecido@gmail.com

                                                              (09/1998)

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