Gonçalves Viana: ‘Tomorrow never knows’

20/05/2019 10:45

Gonçalves Viana

Crônica: ‘Tomorrow never knows’

Imagem: O Livro Tibetano dos Mortos

…aquela velhinha encarquilhada, enrugada, não parava de me fitar, insistentemente, constantemente, e isso estava me pondo nervoso.

O interessante é que eu me dirigia ao Supermercado que fica perto de casa e estava andando rapidamente, pois já era quase 21h e julgava que ele fechava às 22h.

Mas, apesar de me deslocar velozmente, aquela velhinha parecia não se mover , que estava parada, mas sempre à minha frente e não cessava de me olhar.

Sua fisionomia me era levemente familiar, até que me dei conta, ela lembrava, embora muito vagamente, a minha querida avozinha, falecida ha mais de 50 anos.

Ela tinha nas mãos um livro, o que chamou muito a minha atenção (eu, como vocês bem sabem, gosto muito de livros, de ler, de literatura, enfim…) tinha uma capa colorida, muito reluzente. Eu tentava ver o título, mas não conseguia.

Finalmente ela me parou e dirigiu-se a mim da seguinte maneira:

─ Moço, com sua licença, eu preciso lhe falar uma coisa.

─ Pois não, minha senhora ─ disse-lhe eu.

─ É que você foi o escolhido!

(Aquele livro nas mãos dela tinha umas inscrições que eu não conseguia decifrar, parecia ser sânscrito).

─ Fui escolhido? Para quê?

─ Vamos seguindo, que eu já lhe explico.

E assim foi que, de repente, estávamos dentro do Supermercado, em um longo corredor, estranhamente vazio. No final desse corredor havia uma enorme porta que dava para a rua, do outro lado do mercado ou, talvez, para o estacionamento.

Ela disse-me: – Por favor, me aguarde um momento – e dirigiu-se ao que me pareceu ser as dependências sanitárias.

Sem mais, nem menos, comecei a ouvir um barulho, uma música estranha, entremeada de ruídos, que pareciam gritos.

A velha, voltando, entregou-me o livro e disse:

─ Aqui você encontrará a explicação, mas ouça, ele está chegando…

─ Ele quem? – a inquiri.

─ Aquele que veio lhe buscar!

Eu estava querendo reconhecer aquela música, até que, num estalo, lembrei-me: era uma música dos Beatles, Tomorrow Never Knows, aquela que cita passagens do Livro dos Mortos – salvo engano, de um livro tibetano.

Nisto, apareceu na porta um garoto, que, assim de longe, me parecia normal, loiro e muito bonito…

─ É ele?– perguntei.

─ Sim, e não tente resistir, é inútil. Não esboce reação, e nem pense em enfrentá-lo, pois não adianta. Apenas demonstre que você está com medo, muito medo, muito medo mesmo.

Ele estava se aproximando rapidamente ao meu encontro e, reparando melhor, vi que seu olhar era perturbador, magnético, quase diabólico, seus olhos eram de um cinzento metálico.

Pensei comigo mesmo: “Só porque essa velha quer, eu vou ficar aqui parado, quieto!” Parti pra cima do garoto. Ele recuou um pouco e ficou me olhando com um sorriso zombeteiro pairando nos lábios, como quem diz: ─ Idiota! Não vai resolver nada!

A velhinha, então, aparteou: ─ Você foi o escolhido para me substituir e me livrar da maldição. Ah! Ah! Ah!… Finalmente serei livre! Livre! Livre para sempre… Ah! Ah! Ah!…

A música de fundo havia mudado, agora era Sympathy for The Devi”, de suas Majestades Satânicas: os Rolling Stones.

(Pleased to meet you, hope you guess my name…)

O garoto tentava se aproximar de mim, eu me abaixei e, apanhando algo que estava no chão, atirei em sua direção, mas ele, lépido, desviou-se.

A velha, então, me disse: ─ Pare de resistir, pois cada vez que você acertá-lo, ele se duplicará. Eu já o acertei cinco vezes e estou com 32 garotos iguaizinhos a me atormentar.

O interessante é que, nessa altura dos acontecimentos, o Supermercado já estava sendo fechado e o pessoal que estava lá dentro estava indo embora e passavam por mim olhando-me assustados, como se estivessem vendo apenas a mim – gesticulando freneticamente – e não à velha e nem o garoto.

Eu pensava comigo mesmo: “Será que vou ter que conviver eternamente com esses meus demônios interiores? Demônios Interiores, eu já li sobre isso, mas onde? Quem será que escreveu? Será o Sartre? Não, o Sartre disse: “O inferno são os outros”.

Eu preciso descobrir onde foi que eu li isso, e, também, encontrar o tibetano Livro dos Mortos; quem sabe, nesse momento, eu consiga decifrar esse livro que a velha me deu e deslindar toda esta situação.

Aquele livro parecia queimar em minhas mãos…

 

                                                                                 Gonçalves Viana

viana.gaparecido@gmail.com