Gonçalves Viana: ‘Terminal Rodoviário’

06/05/2019 19:56

Gonçalves Viana

Terminal Rodoviário

Terminal Rodoviário Santo Antônio – Sorocaba/SP

Estava eu no Terminal Rodoviário Santo Antônio, aguardando a minha condução.

Eis que um usuário, na ânsia de chegar à sua condução, derrubou o salgadinho que estava comendo. Nem se preocupou em parar e catar aquele dejeto e jogá-lo em uma das inúmeras lixeiras que existem no Terminal.

Eu, observando tal cena, lamentei a falta de cidadania do jovem. Pensando estava no assunto, quando um pássaro pousou e abocanhou, ou melhor, bicou um pedaço do pitéu.

Acompanhando o voo do pássaro, vi que ele dirigiu-se à estrutura do telhado, levando o seu troféu e oferecendo a outro pássaro que estava pousado em uma ferragem da estrutura.

Não sou ornitólogo, portanto não sei que marca – marca não – que tipo ou raça ou sei lá como se classificam os pássaros, mas deduzi que o que levou o pedaço de salgadinho, era macho e o outro seria fêmea. Só deduzi, pois de onde eu me encontrava, não conseguiria distinguir o sexo deles.

Pois bem, a fêmea recusou a oferta, jogando-a para fora.

Aquele pedaço de salgadinho caiu nos lindos cabelos de uma loira (ou seria morena?) só sei que era muito bonita e ela nem percebeu o ocorrido. Fiquei na dúvida, se avisava ou não, decidi não falar nada, ela, apesar de bonita, tinha um ar nada amistoso, e poderia julgar que eu estava tentando uma abordagem.

Voltando a observar as aves, notei que a fêmea estava olhando, altiva e com desprezo, para o outro lado (ah, essas fêmeas!). O macho estava tão desolado que – tenho certeza – que se eu apurasse um pouco o olhar, teria visto lágrimas rolarem dos seus olhinhos.

Nisso, meu ônibus chegou e eu tomei assento e esqueci-me do fato.

Depois que o ônibus saiu do Terminal e começou a percorrer seu itinerário, voltei a pensar no ocorrido. Ensimesmado, julguei que isso daria um pequeno conto ou uma linda crônica. Passei a imaginar um desfecho para a história.

Até então era tudo verdade o que relatei aqui, exceto o fato do pássaro chegar às lágrimas. Havia dado rédeas à imaginação e saiu:

… se eu apurasse um pouco o olhar, por certo teria visto as lágrimas rolarem dos seus olhinhos.

O pobre pássaro, desesperado pela rejeição, num voo rasante, jogou-se debaixo do pneu de um ônibus que estava saindo.

Pude ouvir ainda, o ranger dos pneus e o ônibus parar. Pensei comigo: ─ Não acredito que o motorista freou bruscamente o ônibus por causa de um simples pássaro!

Só então me dei conta que não estávamos mais no Terminal e sim na rua e que aquele barulho que ouvi era muito mais forte que o de um simples atropelamento de um pássaro.

Então, vi todos os passageiros olhando pelas janelas, e alguns tinham acompanhado o motorista que havia descido do ônibus.

Aturdido, saí do veículo e fui embora a pé e nem quis ver o que tinha acontecido. Pelo rabo dos olhos, notei uma moto debaixo do ônibus e um capacete todo amassado caído no meio-fio.

Fiquei com a sensação que tivera uma premonição e que se eu não tivesse tentado imaginar o resto da história, o tal motoqueiro estaria vivo ainda, ou melhor, ileso sem sofrer nenhum acidente. Pois como não fiquei para ver, não sei o que aconteceu realmente e nem queria mais imaginar nenhuma tragédia que, porventura, viesse a tornar-se realidade.

 

Gonçalves Viana

viana.gaparecido@gmail.com

 

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