Gonçalves Viana: ‘Raul Torres’

17/12/2018 08:41

Poucos gravaram como ele – mais de quatrocentos e cinquenta músicas (456), entre os 78 RPM e os seis Long Plays – e compuseram tantos sucessos, muitos em parceria com outro paulista do interior, João Pacífico.”

Raul Montes Torres, cantor, compositor, nasceu em Botucatu/SP, em 11/07/1906 e faleceu aos 12/07/1970, na cidade de São Paulo.

Era filho de espanhóis, e participava de pagodes e quermesses, cantando modas de viola, na cidade onde nasceu.

Para ingressar profissionalmente na vida artística, foi para São Paulo, arranjando, de início, emprego de cocheiro, com ponto no Jardim da Luz, mas cantava, sempre que surgia oportunidade, em cabarés, circos, teatros e bares.

Paraguassu

Em 1927, entrou para a Rádio Educadora Paulista, que depois se tornou Rádio Gazeta, e que, pela primeira vez, reunia um elenco popular: Paraguassu, Pile, o violonista Canhoto e Arnaldo Pescuma, entre outros. Em 1928, foi inaugurada a Rádio Cruzeiro do Sul, a qual, depois, passou a denominar-se Rádio Piratininga, para onde migraram Raul, Paraguassu e Arnaldo Pescuma.

Torres, ainda em 1927, gravou seu primeiro disco no selo Brasilphone, de São Paulo, com a embolada Segura o Coco, Maria e o samba Verde e Amarelo, ambos de sua autoria. Em 1930, na Columbia, lançou Olha o Rojão, O que Tem a Cotia e A Festa do Sapo, também de sua lavra.

Arnaldo Pescuma

Poucos gravaram como ele – mais de quatrocentos e cinquenta músicas (456), entre os 78 RPM e os seis Long Plays – e compuseram tantos sucessos, muitos em parceria com outro paulista do interior, João Pacífico. Ele soube aproveitar as oportunidades, embora, o senso de profissionalismo o levasse muitas vezes a atitudes arrogantes, como a que teve no seu primeiro contato com Pacífico, em 1933. Quando este, apresentado por Paraguassu, o procurou, na Rádio Record, com a embolada Seu João Nogueira, Torres sugeriu, inclusive, que jogasse tudo no lixo – “O caminho mais curto, meu amigo”- disse ele.

Em 1930, criou o seu primeiro grupo Os Turunas Paulistas, gravando, na Parlophon, várias modas-de-viola de sua autoria, entre as quais, o grande sucesso Olhos de Morena. Inquieto e empenhado na carreira, criou outros grupos: Chorões Sertanejos, Bando dos Baitacas e Raul Torres e sua Embaixada, com o qual se apresentou no Paraguai em 1935.

João Pacífico

Gravou, em 1937, na RCA Victor, em dupla com o seu sobrinho, Antenor Serra, o Serrinha, vários sucessos, tais como, Chico Mineiro (Tonico e Francisco Ribeiro); Boiada Cuiabana (de sua autoria); Saudade de Matão (sua e de J. Gallatti e A. Silva) e, em 1939, Meu Cavalo Zaino, de sua autoria.

Com João Pacífico, em 1940, gravou Chico Mulato, Cabocla Tereza, A Mulher e o Trem, No Mourão da Porteira, todas de autoria da dupla. Em 1942, já na Odeon, novamente com Serrinha, gravou Campo Grande, Sexta-feira 13, (com Capitão Furtado), e Cadê Minha Morena, fazendo dupla com João Pacífico.

Após cinco anos de sucessivos desentendimentos, ainda em 1942, desfizeram a dupla. Formou, então, nova dupla, com João Pinto, o Florêncio, com quem já havia gravado um disco, dez anos antes. Então, em 1944, lançaram Pingo d’Água e, depois, A Moda da Mula Preta, clássicos da música sertaneja, ambas com João Pacífico.

Mesmo com poucas gravações, a partir de 1945, fez com José Rielli, Feijão Queimado, um arrasta-pé de grade sucesso, e posteriormente, Enquanto a Estrela Brilhar, com João Pacífico.

Passou, agora, a dedicar-se mais ao rádio, e fez, na Rádio Record de São Paulo, o programa Os Três Batutas do Sertão, formando o trio de mesmo nome, inicialmente, com Florêncio e José Rielli (acordeonista), depois, com o jovem Castelinho e, a partir de 1947, com Florêncio e Rielli (Emilio Rielli Filho), essa formação durou 25 anos. Esse programa era apresentado as segundas, quartas e sextas-feiras.

Raul Torres, na maioria de suas composições, era autor da música, mas também escrevia muito bem as letras, como por exemplo, em Saudade de Matão, aliás, neste caso, teve certo aborrecimento, pois não é que havia desconfiança de que não fosse ele o autor dessa letra, que é uma das valsas brasileiras mais tocadas em todos os tempos? O que o deixou realmente zangado foi a discussão em torno da autoria da música.

Jorge Gallatti

Torres ouvira a música pela primeira vez, em 1937, numa esquina de Bebedouro, interior de São Paulo, tocada por um paraplégico. Apaixonou-se por ela, aprendeu-a e, mais tarde, escreveu a letra. Para descobrir o compositor, sugeriu à Rádio Difusora um prêmio, mas ninguém apareceu.

Arriscando suas fichas, Torres gravou-a, em dupla com Mariano, em 1938. Foi só virar sucesso para brotar gente de todo canto, reivindicando a sua paternidade, até que o maestro da banda, Jorge Gallatti, apresentou papelada, alegando que a tinha feito com o nome de Francana, em 1904, na cidade de Araraquara. Outro maestro, Pedro Perches de Aguiar, também surgiu com documentos, garantindo que a compusera em Taquaritinga. Mas o acordeonista Antenógenes Silva, autor de valsas famosas como Pisando Corações, conseguiu mais credibilidade, afirmando que a compusera em 1919, ainda menino. A confusão foi resolvida, a contragosto do autor da letra, com a tríplice autoria: Jorge Gallatti, Antenógenes Silva e Raul Torres.

                                                               Gonçalves Viana – viana.gaparecido@gmail.com

 

SAUDADE DE MATÃO

Neste mundo eu choro a dor

Por uma paixão sem fim

Ninguém conhece a razão

Porque choro no mundo assim

Quando lá no céu surgiu

Uma pequenina flor

Pois todos devem saber

O que a sorte me tirou

Foi uma grande dor

Lá no céu junto a Deus

Em silêncio minh’alma descansa

E na terra, todos cantam

Eu lamento minha desventura

Nesta grande dor

Ninguém me diz

Que sofreu tanto assim

Esta dor que me consome

Não posso viver

Quero morrer

Vou partir pra bem longe daqui

Já que a sorte não quis

Me fazer feliz

(J. Gallatti/ A. Silva/ R. Torres)      

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